Há muito que Francisco Campos (56), observa um fenómeno silencioso — mas profundamente enraizado — nas rotinas contemporâneas: pessoas que opinam sobre tudo, absorvem informação sem interrupção e reproduzem discursos como se fossem pensamentos próprios. Foi dessa inquietação que nasceu “Fake”, o novo espetáculo do encenador e ator português, que sobe ao palco do Teatro Ibérico, em Lisboa, nos dias 21, 22 e 23 de maio, às 21h.
Em entrevista exclusiva à Caras Portugal, Francisco Campos admite que não existiu um momento exato em que decidiu transformar essa inquietação em teatro. “Talvez tenha sido gradual”, confessa. “Fui-me confrontando com a questão do excesso de conteúdos, do consumo digital, da desinformação e da manipulação de narrativas.” A partir daí, surgiu a vontade de criar personagens “presas num ciclo de conteúdos”, alimentadas por algoritmos com os quais quase já se confundem.
Essa ideia atravessa toda a construção de “Fake”, espetáculo criado pelo Projecto Ruínas e interpretado por Francisco Campos, Paulo Quedas e Ricardo Falcão. Em palco, três personagens encontram-se numa espécie de encontro contemporâneo onde as conversas se sobrepõem, os temas nunca chegam a aprofundar-se e o ruído parece substituir o pensamento. O desconforto, de resto, é deliberado.
“O algoritmo que me escraviza diz-me que tudo isto faz parte do futuro”, afirma o encenador, numa das reflexões mais contundentes da conversa. “E que, se quero continuar a ser relevante nesta sociedade, tenho de consumir aquilo que me dão.” Para Francisco Campos, o mais inquietante talvez seja precisamente a naturalização desse comportamento. “Enquanto consumo coisas com as quais concordo, não tenho de pensar. Basta reagir emocionalmente. Basta dizer se gosto ou não.”

Um mundo cada vez mais orientado para a performance
Embora “Fake” mergulhe diretamente no universo digital, Francisco Campos garante que nunca quis criar uma peça moralista sobre tecnologia. Pelo contrário. O espetáculo nasceu também de um exercício de autorreconhecimento. “Partiu da perceção de que eu próprio reproduzia informações que não experienciei nem verifiquei”, revela.
Talvez por isso a encenação tenha seguido o caminho oposto ao excesso visual que domina o universo online. Em vez de grandes estímulos cénicos, “Fake” aposta num palco quase vazio, numa linguagem assumidamente analógica e na força do corpo e do som. “Se existe um ato de resistência neste espetáculo, talvez seja precisamente a recusa em oferecer respostas fáceis”, afirma.
Ao longo da entrevista, Francisco Campos demonstra uma preocupação evidente com a forma como a vida digital alterou uma das experiências humanas mais básicas: a presença. “Basta observarmos que praticamente ninguém consegue estar sem olhar para o telemóvel”, nota. E admite que nem ele próprio escapa totalmente desse ciclo. “Tenho um jejum de internet planeado há meses… mas tem sido difícil concretizá-lo.”
A palavra “fake”, aliás, adquire aqui uma dimensão muito mais ampla do que a simples ideia de mentira. Para o encenador, vivemos num tempo profundamente performativo. “Estamos constantemente com o mundo na palma da mão, à procura de validação através de mais um vídeo, mais um meme, mais um sticker”, afirma. “Cada vez mais estamos em cena.”

Um retrato de uma geração permanentemente ligada
O espetáculo nasceu de longos processos de improvisação, nos quais os atores eram incentivados a nunca aprofundar verdadeiramente nenhum tema — quase como um scroll permanente de pensamentos. E, pouco a pouco, perceberam que os automatismos digitais retratados em palco também faziam parte das suas próprias vidas. “Acabámos por integrar no texto fragmentos dos nossos próprios algoritmos”, conta.
Para Francisco Campos, o problema já não está apenas no excesso de informação, mas também na forma como a sociedade se habituou a aceitar mecanismos digitais sem verdadeiro questionamento. O encenador considera que sempre existiu condicionamento social, mas acredita que hoje esse processo se tornou mais invisível e amplamente normalizado — seja ao aceitar “cookies” sem ler, aderir automaticamente às plataformas onde “toda a gente está” ou acompanhar tendências tecnológicas apresentadas como inevitáveis.
A inteligência artificial surge, aliás, como um dos exemplos que mais o inquietam. Francisco Campos questiona a rapidez com que estas ferramentas entraram no quotidiano, muitas vezes apresentadas como símbolos de um futuro inevitável, apesar de raramente existir uma reflexão coletiva sobre o impacto real dessa transformação.
Num momento em que o debate sobre inteligência artificial, excesso de informação e desconexão emocional ganha cada vez mais espaço, “Fake” chega aos palcos portugueses como um retrato desconfortavelmente próximo da realidade. Mais do que uma peça sobre a internet, Francisco Campos construiu uma reflexão sobre identidade, presença e autenticidade — precisamente numa época em que tudo parece acontecer demasiado depressa para ser verdadeiramente vivido.