
Reservada, mas de sorriso acolhedor. Pragmática em cima dos palcos, mas analítica quando se senta na cadeira da encenação. É no mundo da dualidade que Cristina Carvalhal encontra o seu equilíbrio. Foi no jardim do The One Palácio da Anunciada, em Lisboa, que a atriz e encenadora recebeu a CARAS para uma conversa intimista. Quase a repor em cena Quem Cuida do Jardim, espetáculo da sua companhia Causas Comuns, a artista, de 58 anos, reflete sobre a metáfora do “jardim” como a essência de cada um, num mundo à beira da extinção humana.
– Que balanço faz de um percurso profissional de quase 40 anos?
Cristina Carvalhal – Diria que tive muita sorte. Sempre me senti privilegiada em ter acesso a oportunidades, ter começado no teatro, feito cinema, televisão. Depois disso, criar uma estrutura de produção de espetáculos, de congregar uma equipa. Continua a não ser fácil para as mulheres e tem muito a ver com o poder decisório. Por exemplo, se olharmos para o Parlamento, temos noção disso e da predominância do género masculino. Claro que houve muita progressão, mas estamos outra vez a viver tempos que apontam para um retrocesso grande em muitas áreas.
– Hoje sente mais o peso da responsabilidade?
– Acho que a responsabilidade é maior, sim. Mas esse é o grande perigo: as pessoas ficarem aprisionadas por uma imagem. Devemos manter sempre a ideia de que temos de “saltar” e podemos falhar. Darmo-nos esse direito: “Se já ‘provei’, posso falhar.”
– Já interpretou dezenas de personagens. Continua a aprender com elas?
– As personagens não existem. No fundo, é: “E se eu… qualquer coisa?” Somos sempre nós com o privilégio de poder exprimir as várias personas que nos habitam. Enquanto atores, temos o privilégio de nos conhecer melhor e crescer, indo em busca dessas outras dimensões.
– Além da representação, é apaixonada por encenar. É uma inquietação de querer explorar todas as áreas do teatro?
– Todas essas dimensões cruzam-se e completam-me. Acontece-me muito estar a dirigir e querer ser atriz. E o oposto. É uma inquietação natural.
– O trabalho é um dos seus maiores estímulos?
– É, mas procuro que não seja o único. Essa é também uma aprendizagem que a idade nos traz.

– Mantém um espírito jovial?
– Por vezes, demasiado. Sinto-me com bastante energia e capacidade de me apaixonar por muita coisa. Não sou uma pessoa muito extrovertida, mas gosto de lidar e trabalhar com pessoas. Acho que é isso que me move.
– O que faz no dia a dia, fora da profissão?
– Gosto de cuidar de mim, estar com amigos. Praticar desporto e meditação faz-me bem à cabeça. Gosto de viajar, e também de viajar por obras de arte. Gosto de ter espaço para não fazer nada e estar só, calmamente, a viver e a deixar os dias serem surpreendentes.
– Há 19 anos, disse à CARAS: “Só sei viver apaixonada, vivo de muitas paixões.” Continua a ser assim?
– Sim! É uma força motriz.
– Os medos são os mesmos dessa altura?
– Menos, tenho outros. Há uma altura da vida em que, à nossa volta, começam a desaparecer pessoas e referências importantes. Isso faz-nos pensar nas prioridades, no envelhecimento e no desaparecimento.
– É algo em que a “assombra”?
– Penso que estarei, nitidamente, numa segunda fase da vida. Ou seja, não sei se viverei tantos anos quantos já vivi, embora venha de uma família com uma longevidade grande. Digamos que já passei metade da vida.
– Também disse que nunca sonhou ser mãe. Não mudou essa vontade?
– Não mudei. Tenho relações maternais, ou onde existe essa dimensão, com muita gente. Na verdade, nunca senti vontade de ser mãe. Temos sempre pessoas de quem cuidar e, quanto mais avançamos, maior é essa responsabilidade.
– Gosta de cuidar dos outros?
– Sim. Gosto de ser cuidadora e de ser cuidada. E, sim, tenho sido muito bem cuidada.
– Enquanto atriz, sente a pressão da imagem?
– Pela minha profissão de atriz, não. Acho mesmo muito bonito ver as marcas do tempo no rosto das pessoas. Claro que existem os clichês das pessoas brancas, jovens, esbeltas, magras… Mas também existe uma contracorrente, e eu faço parte dela. Não me sinto refém. Agora, é evidente que o ritmo e a nossa capacidade de trabalho diminui. É fácil cedermos a um conforto, mas isso não se coaduna com a minha forma de estar. Acho mesmo que é importante estarmos capazes de sentir os tempos. É importante sabermos integrar as mudanças, que também são físicas. Aceitarmo–nos como somos a cada momento, a cada tempo diferente. É um processo diário. Idealmente, não conflituoso.
– Tem algum arrependimento?
– Penso sempre que, na altura, fiz o melhor que pude e soube. Algumas coisas podiam ter sido feitas de forma diferente, mas estou em paz com isso.

– O que lhe dizem na rua?
– Não tenho feito tanta televisão e passo mais despercebida. Recebo cumprimentos de algumas pessoas que se dirigem a mim e elogiam o meu trabalho. O carinho das pessoas é sempre algo que nos devolve prazer.
– Não estar tão presente nos ecrãs é uma opção ou uma circunstância?
– Ambas. Prefiro a linguagem do teatro e isso implica um investimento de tempo que não permite, às vezes, fazer outras coisas. Não é que não goste. A televisão tem um imediatismo, necessidade de velocidade e concretização de resultados que também é desafiante.
– Vai repor o espetáculo Quem Cuida do Jardim. O que retrata?
– É como se a extinção da humanidade já tivesse sido consumada, porque eu acho que essa extinção já começou. E, depois disso, o que aconteceria? Há um grupo de quatro sobreviventes, que se juntou a uma célula de resistência, quando tudo começou a desabar, que se reúne e começa a olhar para o passado. Neste grupo, em particular, há uma espécie de ser humano, modificado geneticamente segundo uma ética do cuidado, que tem qualidades particulares de escuta, empatia, atenção, acolhimento. Vamos estar em cena de 14 a 25 de maio, no Centro de Artes de Lisboa, a 6 e 7 de junho, no Ponto C, em Penafiel, e a 14 de junho, no Teatro Cine de Torres Vedras. É um espetáculo que exigiu uma grande preparação e pesquisa a nível histórico e filosófico e um guião que tem contributos de toda a equipa.