A Gucci escolheu um dos palcos mais mediáticos do mundo para apresentar a sua coleção Cruise 2027: a icónica Times Square, em Nova Iorque. Mais do que um desfile, a maison italiana encenou um verdadeiro takeover urbano, fechando o espaço e convertendo os ecrãs luminosos e o fluxo incessante da cidade numa extensão direta do seu universo criativo.
Esta apresentação marca a primeira coleção Cruise assinada por Demna (45) enquanto diretor criativo da casa — e não poderia ser mais simbólica. Entre a herança da Gucci e a necessidade de reposicionamento num mercado em mutação, o designer georgiano apostou numa narrativa que cruza moda, cultura e consumo contemporâneo.
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Uma passarela feita de personagens
Fiel ao seu processo criativo, Demna construiu a coleção a partir de arquétipos urbanos. Na passarela improvisada de Times Square desfilaram figuras que parecem saídas do quotidiano nova-iorquino: executivos de fato, socialites extravagantes, party girls e tipos anónimos com styling deliberadamente exagerado.
A proposta assenta numa tensão constante entre o real e o encenado. Silhuetas oversized, sensualidade explícita e um luxo com aparência desgastada convivem com peças mais clássicas — como trench coats, fatos de alfaiataria e saias lápis — numa espécie de diálogo entre o ADN da marca e a visão contemporânea de Demna.
Há também ecos evidentes da era Tom Ford, sobretudo na atitude provocadora e na estética mais sexualizada, ainda que reinterpretadas sob o filtro irónico do designer.
Times Square como estratégia
A escolha de Nova Iorque não é inocente. Foi em Manhattan que a Gucci abriu a sua primeira loja fora de Itália, em 1953, e os Estados Unidos continuam a ser um dos mercados mais relevantes para o luxo. Ao ocupar Times Square, a marca não só reforça essa ligação histórica como também amplifica a visibilidade global do desfile — transmitido em direto nos gigantescos ecrãs publicitários do local.
Antes mesmo de a coleção chegar à passarela, vídeos publicitários — alguns reais, outros fictícios — invadiram os painéis, promovendo desde joalharia a produtos inesperados como hotéis ou linhas de lifestyle. Um gesto que prolonga a exploração de Demna sobre a Gucci enquanto universo cultural e não apenas como marca de moda.
Ao transformar Times Square num palco de moda, a Gucci reafirma uma tendência crescente: as coleções Cruise deixaram de ser apenas sobre roupa para se tornarem experiências imersivas, onde localização, narrativa e espetáculo têm um peso tão grande quanto as peças apresentadas.
Neste cenário, Demna parece menos interessado em ditar tendências imediatas e mais focado em provocar reflexão — sobre o luxo, o consumo e as personagens que habitam o imaginário contemporâneo. E, pelo menos por uma noite, conseguiu colocar toda a gente a olhar na mesma direção: para o centro luminoso de Nova Iorque, onde a Gucci decidiu reescrever a sua própria história.












