Matali Crasset nasceu em 1965, em Châlons-en-Champagne, e passou a infância numa pequena aldeia no norte de França. É designer industrial por formação (pela ENSCI – Les Ateliers: École Nationale Supérieure de Création Industrielle). Move-se num universo eclético, do artesanato à música eletrónica, da cenografia ao mobiliário e do design gráfico à arquitetura de interiores.
O que a inspira a criar?
O que me inspira é a vida. Em vez de objetos que ‘fazem sentido’, prefiro reinventar, e complementar, a sua função, concentrar-me no que dão e não no que são. Isso permite-me desenvolver conceitos modulares de fluidez, mudança, dispositivos não permanentes para melhor qualificar o espaço e fazer propostas fora de códigos já existentes, mas também reafirmar os valores de partilha e hospitalidade que são as bases do meu trabalho. Os projetos devem estar em sintonia com a vida! E é esta complexidade do processo criativo que torna todo o trabalho emocionante, exigindo grande rigor intelectual.
Tem algum mentor?
Mentor não é a palavra. No campo do design, tenho grande consideração pelo Bruno Munari, designer de engenharia que abriu muitas portas…, e por Oscar Niemeyer, pela plasticidade e sensualidade que deu à arquitetura em cimento. Mas nomes como John Dewey, Freinet, Georges Perec, Gaston Bachelard, Foucault, Jane Adams e muitos outros fazem parte daquilo a que chamo a minha base…
Prefere produtos ou interiores?
Estou ligada aos dois. A maioria dos projetos nos quais estou a trabalhar atualmente ressalta a dimensão do trabalho coletivo e colaborativo. Estou a lembrar-me de projetos recentes como a La Maison des Petits – Centquatre – 104, em Paris, as casas Les Maisons Sylvestres em Fresnes-au-Mont ou o (eco-lodge) Dar Hi, na Tunísia. Existe uma dimensão local crescente que me interessa bastante. Vendo bem, a contemporaneidade não é apanágio exclusivo do mundo urbano! É claro que também desenho objetos, mas os objetos não são nem o centro nem a finalidade do processo de criação. São uma atualização possível de outras áreas (arquitetura, cenografia, exposição…) num determinado momento e enquanto parte de um sistema de pensamento mais vasto.
Qual o seu melhor projeto?
Trabalhar para a longevidade de um projeto e acompanhá-lo dá-me uma enorme satisfação. Lugares como a La Maison des Petits – Centquatre – 104, que recebe mais de 30 mil pessoas por ano, com grande qualidade, é o trabalho que provavelmente me faz mais sentido destacar.
Que trabalhos tem em carteira?
Acabo de terminar a renovação da biblioteca municipal da cidade de Genebra e em setembro será inaugurada a École Le Blé en Herbe (situada na pequena vila de Trébédan, Côtes d’Armor, em França), projeto realizado no âmbito do programa Novos Patronos da Fondation de France. Com o centro de arte rural Vent des Forêts, para o qual desenvolvi as casas Les Maison Sylvestres, criei um conjunto de objetos feitos com os artesãos locais de Meuse, desde carpinteiros a tecelões… Este trabalho será apresentado também no mês de setembro como parte da exposição coletiva, intitulada Into the Woods, para a galeria Granville. Vou realizar igualmente uma exposição em Bruxelas para uma fundação privada. Será uma instalação que questiona a nossa relação com os nossos antepassados, um espaço para nos reconciliarmos com a nossa trama ancestral, uma viagem à nossa genealogia e humanidade. Para a primavera de 2016 está prevista uma cenografia para o Philharmonic Hall em Paris sobre o tema Velvet Underground. Além disso, tenho um projeto de espaço para um museu na Coreia do Sul. E continuarei a colaborar com editoras como a Campeggi, Danese Milano, Nodus, Ikea, entre outras.
Decoração: Sentido versus função
O trabalho da designer francesa explora princípios, como a modularidade, partindo da reflexão sobre a vida quotidiana.