
Como é o seu processo criativo?
As minhas pinturas nascem da necessidade de fazer coisas com as mãos e de uma enorme vontade de explorar. É uma combinação entre curiosidade e a constante certeza de que não vai sair perfeito. No final, acaba por sair muito melhor do que eu estava à espera e isso vai-me mantendo motivada. Cada pintura é um exercício de aceitação: sei que não vai sair perfeito, mas quanto mais pinto, mais contente fico com o “torto” que sai.
O que nasce primeiro: a ideia ou a pintura?
A ideia. A curiosidade leva-me a experimentar um tema e, a partir daí, a pintura ganha forma. Normalmente, o resultado surpreende-me. Mas quando não resulta, viro o papel ao contrário e torna-se folha de rascunho.
Que mensagem e símbolos são recorrentes nos seus trabalhos?
A mensagem central do meu trabalho é a celebração da imperfeição. Pinto flores tortas, mesas caóticas e uso cores vivas que refletem o prazer de não nos levarmos demasiado a sério. A última exposição que fiz chamava-se “Nada disto é muito sério” e isso é uma coisa que quero manter sempre. Estou a pensar que a próxima mostra se deveria chamar: “Isto é o melhor que eu consigo”. Acho que põe as pessoas no estado de espírito certo. Quanto a símbolos, surgem muitas vezes flores, cafeteiras e bules – tudo coisas boas que me fazem sorrir.

Quais as cores que mais utiliza?
Uso sempre cores muito vivas, com destaque para o cor-de-rosa e encarnado. São tons alegres, descontraídos e que não se levam a sério, tal como quero que as minhas pinturas sejam.
De onde vem a inspiração?
A minha inspiração vem muito da vida quotidiana: das flores que vejo na rua, das mesas cheias de objetos, do caos que me rodeia. Também me inspiro no processo em si, no “e se?”, e na vontade de explorar sem medo do erro. Além disso, sigo alguns artistas que me têm inspirado muito a largar as exigências. Emily Powell, Sandi Hester e Graça Paz são grandes referências de cores, formas e descontração.
Tem trabalhos seus em casa?
Sim. O meu marido, de vez em quando, pede para ficar com um ou outro, por isso vão se espalhando pela casa. Às vezes, deixo um quadro pendurado durante um ou dois dias, depois troco e penduro outro. Gosto dessa rotatividade.

O que gostaria de ter feito e ainda não fez?
Até agora, fiz muitas coisas que nunca imaginei querer fazer. No que toca às minhas pinturas, nunca tive grandes planos. Desde o início, decidi dizer “sim” a todos os desafios e ideias que aparecessem, o que já me proporcionou experiências muito diferentes e inesperadas. Por isso, diria que, tal como as minhas pinturas, o que acontece na minha vida – seja uma exposição, parceria ou entrevista – acaba por ser sempre uma surpresa. Gosto de ir fazendo as coisas naturalmente, sem grandes planos.
O que se segue?
O final de 2024 foi muito intenso, cheio de eventos e parcerias. Por isso, quero começar 2025 com calma e sem pressas. Gostava de fazer um retiro criativo: passar uns bons dias no campo, rodeada de tintas, papéis e silêncio, a pintar sem qualquer preocupação ou distração.
FOTOS: cedidas