
Como tudo começou?
A Casa do Passadiço nasceu em 1992 quando Catarina Rosas restaurou um solar do século XVIII, no centro histórico de Braga, transformando-o num showroom e ateliê de decoração de interiores. Inicialmente, o trabalho era desenvolvido em Portugal, focado em projetos residenciais de luxo. Rapidamente juntámo-nos (as filhas Cláudia e Catarina Soares Pereira) para prosseguir o trabalho. Hoje, estamos em constante movimento enquanto lideramos três lojas/showrooms e desenvolvemos vários projetos residenciais em Portugal e na Europa, assim como as lojas Aquazzura em todo o mundo.
Sobre a vossa filosofia de vida e de design, reflete-se na forma como dirigem o estúdio?
Arquitetura, design e arte sempre foram áreas que nos despertavam grande interesse. A nossa família proporcionou-nos uma educação em que a sensibilidade estética era valorizada e sempre gostámos de explorar não só variadas culturas como também marcas excecionais, peças únicas e diferentes técnicas artesanais. Além disso, o nosso avô era colecionador de antiguidades indo-portuguesas. Sem dúvida que estes fatores tiveram uma grande influência na forma como desenvolvemos hoje o nosso trabalho. Estamos juntas em todas as principais etapas de um projeto. Em geral, as decisões criativas são tomadas em conjunto, e no que é essencial temos tendência a pensar de forma muito semelhante. Enquanto que uma tem como foco detalhes relativos à seleção de tecidos, texturas, cor e decoração, a outra tem um olhar mais arquitetónico, concentrando-se em decisões relacionadas, por exemplo, com a seleção de materiais e acabamentos, complementamo-nos. A forma como dirigimos o estúdio é assente nas relações de confiança que nutrimos com a nossa equipa, clientes e fornecedores. Valores como a honestidade, transparência, atenção ao detalhe são fundamentais para nós. Procuramos inspirar a nossa equipa do ponto de vista criativo e humano.

Existe um estilo que defina o vosso trabalho?
Cada projeto da Casa do Passadiço é único e vemos no detalhe a nossa essência. O nosso estilo está assente num “clássico reinterpretado”, numa fusão entre clássico e contemporâneo. Gostamos de conjugar antiguidades com peças atuais. O uso de materiais de qualidade é muito importante, ter sempre presente noções de proporção, equilíbrio e funcionalidade, também. Tendo em mão projetos verdadeiramente únicos há uma característica transversal a todos: intemporalidade.
De onde vem a vossa inspiração?
Tendo crescido numa atmosfera onde estética e arte eram importantes e valorizadas, temos sempre um olhar atento sobre diferentes formas de inspiração. As viagens que fazemos, tendências da moda, arte, livros, revistas e eventos de design internacionais são a nossa principal fonte de inspiração. É de elevada importância destacar que cada espaço é único e, por isso, também nos inspiramos nas características arquitetónicas originais de determinado edifício. Da mesma forma, quando propomos um projeto, também procuramos inspirar-nos nas particularidades da sua envolvente. Temos cuidado em estar atualizadas em relação a tendências e inovação, mantendo sempre como pilar o estilo e cunho pessoal característico e facilmente identificável da Casa do Passadiço.

Qual o tipo de projeto que mais as desafiam/gostam, residencial ou público?
Encaramos todos como únicos e desafiantes. Temos a sorte de contar com variados projetos no nosso portfólio, desde residências e iates privados a espaços comerciais. Normalmente, num contexto de projeto residencial, há uma abordagem mais serena, assente numa paleta de cores suaves, num estilo elegante, intemporal e confortável. Os nossos projetos comerciais, no caso das lojas Aquazzura, têm seguido uma abordagem mais arrojada e até “maximalista”, com cores impactantes, que procuram criar um ambiente positivo e vibrante. Neste sentido, têm sido projetos mais experimentais e desafiantes.
De Portugal para o mundo, quando deram esse passo? Houve algum momento importante?
Após termos assinado uma longa lista de obras em Portugal, os nossos projetos começaram a despertar interesse internacional. Atualmente, fazem parte do nosso portfólio projetos em Portugal, mas também em Paris, Londres, Florença, Milão, Miami, Dubai, Qatar, São Paulo, Madrid e Nova Iorque. Sem dúvida que esta projeção ganhou força após termos sido premiadas com, entre outros, The International Property Awards (Londres, 2012), o IDA-The International Design Awards (Los Angeles, 2013) e The Yacht and Aviation Awards (2014). As lojas da marca italiana Aquazzura também contribuíram para essa maior visibilidade.

E em relação aos vossos espaços, Braga, Lisboa e Porto, todos eles integrados em edifícios com história, foi coincidência ou foram decisões conscientes?
Para nós é sempre uma prioridade valorizar as características arquitetónicas originais de um edifício, destacando elementos mais clássicos através da sua recuperação e enriquecimento. Os nossos espaços em Braga, Lisboa e Porto são precisamente o espelho desta nossa visão. A loja em Lisboa está localizada num edifício histórico de 1900, na Avenida da Liberdade. O nosso showroom/loja mais recente, em plena Foz do Douro, no Porto, é localizada num edifício tipicamente portuense, com uma fachada coberta por azulejos com motivos geométricos. Os tetos em gesso do piso térreo foram recuperados e enriquecidos com novos elementos, enquanto os do piso superior foram feitos de raiz. As molduras nas paredes são também novos elementos que vieram complementar os rodapés e guarnições de portas já existentes, típicas deste estilo arquitetónico.
O que o cliente pode encontrar nos vossos showrooms? Principais peças, marcas, inspirações?
Os nossos showrooms são detalhadamente pensados de maneira a refletir o trabalho que desenvolvemos. O ambiente acolhedor é composto por mobiliário exclusivo das melhores marcas internacionais e por uma seleção criteriosa de objetos de decoração únicos, iluminação, acessórios, peças de arte e antiguidades, escolhidos pessoalmente por todo o mundo e apresentados de forma harmoniosa num espaço histórico e privilegiado. Assim, as nossas lojas são como “casas” que refletem plenamente o nosso estilo de vida e o nosso trabalho de design de interiores.

Parcerias importantes, exemplos?
Podemos destacar parcerias com marcas como a Dior, a Aquazzura, a Porshe e a Bentley. Mais recentemente, revelámos um projeto muito especial com a Cartier, que nos desafiou a criar um painel para a renovada boutique em Lisboa com referências ao património e cultura portuguesa. Vimos aqui uma oportunidade de materializar a nossa enorme admiração pelos bordados de Castelo Branco com origem no século XVIII. Acreditamos que as técnicas artesanais tradicionais portuguesas são tesouros culturais que devemos preservar e perpetuar. Depois de quase um ano de trabalho delicado em conjunto com artesãs locais, criámos um painel único inspirado em motivos indo-portugueses: a árvore da vida e elementos inspirados nos temas da fauna e da flora, também recorrentes na história da Cartier.
Como é que encaram o futuro do design de interiores? Será promissor?
Será um futuro altamente influenciado pelo desenvolvimento tecnológico e digital, com uma crescente saturação e democratização do mercado. Ainda assim, acreditamos num futuro muito promissor. Acreditamos sobretudo naquilo que é intemporal – o conforto, a funcionalidade, a arte, a elegância, o espaço como uma extensão da individualidade, capaz de dar resposta às necessidades tão particulares de cada um. A consciência ambiental e a sustentabilidade serão também pilares cada vez mais importantes.

Como imaginam, por exemplo, o interior de uma casa daqui a 100 anos?
Imaginamos o interior dessa casa profundamente personalizado e projetado de maneira a haver uma otimização do espaço. O uso de materiais naturais, como madeiras, vidro e metais, e a seleção de peças de autor, elaborada de forma artesanal, serão altamente valorizados. A sustentabilidade irá além dos materiais e os interiores serão uma extensão do ambiente ao seu redor, procurando-se trazer a natureza para dentro de casa. O equilíbrio entre conforto, inovação e respeito pelo ambiente será privilegiado. Será uma casa que reflete as tendências de bem-estar, com a elegânciae sofisticação de sempre.
Projetos futuros, alguns que queiram destacar?
Relativamente a projetos futuros podemos destacar os seguintes: um grande projeto na Comporta, entre eles um club-house no empreendimento Torre; um palacete com 2000m² na Lapa, em Lisboa; novas lojas Aquazzura em Milão, Londres e Madrid; um café Aquazzura no Hotel de Russie, em Roma; uma residência em Zurique e vários projetos residenciais em Lisboa, Porto, Algarve e Comporta. Na calha temos um hotel em edifício histórico do qual ainda não podemos revelar detalhes.
FOTOS: Francisco de Almeida Dias