Foi de forma quase silenciosa que entrou no avião. Sentou-se discretamente e, assim que levantou voo rumo a Salvador da Bahia, Joana Solnado pegou num livro. À partida, nada de mais, não fosse, de quando em quando, as lágrimas inundarem-lhe os olhos. Nessa altura, Joana Solnado fechava o livro para minutos depois voltar a ‘devorá-lo’. Fazes-me Falta, de Inês Pedrosa, um romance com uma carga emocional muito forte, acabou por dar o mote a esta conversa, que decorreu no Hotel Vila Galé Marés, um resort em Guarajuba. Nesta conversa descontraída, a actriz, de 24 anos, que aos poucos tem vindo a libertar-se da imagem de ser neta de Raul Solnado, acabou por deixar perceber que vive um romance intenso com André Cerqueira, de 37 anos, realizador brasileiro que está em Portugal há cerca de oito anos e que manteve um romance com a também actriz Thaís de Campos. Pelo meio confessou que a emoção é o motor que move a sua vida e que ao longo dos tempos tem feito um esforço para deixar de lado a forte racionalidade que a persegue. Mas passemos ao discurso directo. – Fazes-me Falta é um livro que mexe com os sentimentos…Joana Solnado – Sim, e a Inês Pedrosa tem uma coisa que o Oscar Wilde também tem, a capacidade de expressar os sentimentos por palavras. Sou muito sensitiva e sinto tantas coisas que jamais conseguiria descrever, nem passar para o papel, o turbilhão de sentimentos em que vivo, de uma forma tão bonita e delicada como ela faz. Adoro tudo o que tem muita emoção, seja para rir ou para chorar. – Gosta de viver emoções fortes?- Emoção, para mim, é o sentido máximo. Gosto que as circunstâncias mexam com as minhas emoções, mexam comigo. Eu trabalho com emoções e tenho de exercitá-las… – Emocionou-se por diversas vezes a ler o livro. Chora por tudo e por nada?- Choro quando as coisas me comovem mesmo. Há coisas que para mim são muito fortes e para outra pessoa podem não valer nada. Quando me emociono, choro, e faço-o em todo o lado, no carro, numa bomba de gasolina… – Ou seja, pode chorar em todo o lado, à frente de qualquer pessoa…- Não querendo ser egoísta, a minha emoção é mais importante do que qualquer pessoa que esteja ao meu lado. [risos] A minha emoção vem em momentos tão específicos que não posso reprimi-la, não posso desperdiçar. É quase como uma necessidade básica. – Diz às pessoas que mais ama que lhe fazem falta?- Demonstro, mas não digo. Na minha família existe uma coisa à qual chamamos ‘a fita’. E ‘a fita’ é sempre que queremos dizer alguma coisa que é séria mas a brincar. Ou seja, é uma maneira a brincar de demonstrar o que sentimos. – Já perdeu alguém que lhe faça muita falta?- Já. Eu tinha 12 anos quando a minha avó paterna morreu. Foi uma dor muito forte, mas também uma lição de vida gigantesca. Até hoje sei que ela me tem acompanhado. Convivo como se ela cá estivesse. – Acredita na vida para além da morte?- Acredito plenamente. Aliás, se eu pensar na vida terrena como única e exclusiva, a vida perde o sentido. Para mim existe vida além da morte e vida antes do nascimento. – E já fez algum exercício para tentar saber o que foi numa outra vida?- Acho que todas as pessoas pensam nisso. É uma dúvida existencial. Tenho cada vez mais dúvidas e menos certezas e fico contente por isso. Quanto mais eu duvidar, mais busco o sentido da vida, e essa busca deve ser incessante. – A quem é que agradece tudo o que lhe tem acontecido de bom na vida?- Agradeço ao Céu, agradeço à vida. Faço um exercício de agradecimento todos os dias, e isso é uma postura minha. A gratidão é uma energia brilhantíssima e tenho gratidão em tudo o que me acontece, pela vida que tenho, pelas possibilidades que me são proporcionadas… Já percebi que sou muito sortuda e essa sorte tem de ser agradecida. – Agradece também os papéis que lhe têm sido dados para representar?- Muito. Aliás, tenho tido muita sorte. Todos têm feito sentido em determinada altura. Acho que os papéis também são fases na nossa vida. As personagens ensinam-me tanta coisa, dão-me tanta coisa… Aquela personagem que me dão, que me entregam para eu ficar nove meses a trabalhá-la, ou é especial, ou então não faz sentido. E têm sido muito especiais. – O que é que mais tem aprendido com as personagens?- Com a Mariana, na última novela que fiz, Ilha dos Amores, aprendi uma coisa que não sabia que me fazia falta: a liberdade. Tenho uma necessidade de liberdade que não sabia que tinha. Tudo o que me prenda parece que não faz parte da minha energia original. Preciso de estar livre, sou uma cidadã do mundo, preciso de viver tudo, de viajar. Aprendi a ser livre comigo. Posso ser livre, aqui e agora, sentada neste sofá. Foi uma das descobertas mais bombásticas. – Tem medo que um grande amor lhe limite essa liberdade?- Os grandes amores da minha vida, o apego que eu tenho à minha família, é uma prisão, mas é uma prisão que, trabalhada, pode ser saborosa. É um apego afectivo, mas ao mesmo tempo um amor incondicional, estejam eles onde estiverem, façam o que fizerem, vou amá-los da mesma forma. – Quando se apaixona, também faz esse exe- Sou muito racional e o meu exercício diário é deixar de o ser, porque isso não é bom. [risos] Todas as paixões, todos os amores, tudo o que me acontece a nível emocional muito forte, tento deixar-me ir. Quando se tem de sofrer, sofre-se. Se não se sofre muito, é porque não se ama muito, portanto, vamos lá amar muito e sofrer muito. – Neste momento, ama muito o André?- [risos] Amo sempre muito… Estou numa fase muito boa e muito feliz da minha vida. Acho que essa energia emana, e boa energia traz boa energia. – Vive a relação com o André como se não houvesse amanhã?- Vivo tudo dessa forma e só assim é que faz sentido. – Por vezes o amor leva-nos a fazer coisas em que se vai sempre mais além. Já lhe aconteceu fazer coisas que nunca pensou fazer, em que perde o controlo?- Tenho feito o exercício do descontrolo, perder o medo do ridículo, perder o medo de julgar. Acho que as pessoas não têm de ter controlo sobre tudo, as pessoas controlam com medo de sofrer, com medo da dor. Nós choramos, choramos muito, depois batemos no fundo e a seguir temos um trampolim que nos volta a pôr lá em cima. – O que é que tem feito para alcançar a felicidade? Tem feito alguma coisa ou realmente tem sido bafejada pela sorte?- Têm-me proporcionado muitos momentos de felicidade, mas também acho que as minhas escolhas fazem com que esses momentos aconteçam. Acredito que existe uma energia muito grande a favor de mim, que o Universo conspira a meu favor. – Mas ser neta de um actor conceituado como Raul Solnado também terá ajudado ao seu sucesso profissional…- Acho que a única coisa que ganhei com o facto de ter nascido no meio de uma família que era pública é que tive uma noção maior do que é trabalhar para o público e talvez tenha sido mais fácil para mim no dia em que decidi ser actriz. – Ainda se sente presa à imagem de ser "a neta de"?- Não, de todo. Sempre tive um orgulho enorme de a minha imagem estar colada à do meu avô, e se estiver para o resto da vida, vou estar felicíssima e não vou fazer nenhum esforço para descolar. – Como tem conseguido a libertação dessa imagem?- Foi acontecendo naturalmente. Não foi forçado. E sinto que as pessoas já me dão valor sem associarem isso ao meu apelido. – Sente-se uma estrela?- Não. A palavra estrela faz-me confusão. O facto de sermos conhecidos e trabalharmos para o público é uma coisa, ser estrela é outra. – É uma mulher feliz?- Absolutamente…