Humilde, efusiva, dedicada e profundamente bairrista, ou não vivesse há muitos anos em Alfama. Estas são apenas algumas características de uma mulher que amadureceu um pouco cedo demais – começou a cantar em casas de fado aos sete anos, embora esporadicamente, e aos 14 já tinha uma relação séria com um namorado que a fez mudar a sua vida -, mas que goza agora a serenidade de quem já viveu muita coisa. Aos 23 anos, Raquel Tavares vai já no segundo álbum, Bairro, e se antes vivia com grande impulsividade, hoje prefere deixar que as coisas aconteçam naturalmente. "Quero continuar a fazer as minhas graçolas, tenho 23 anos e apetece-me tê-los. Gosto de ser aquilo que sou", afirma. Recentemente, participou no concurso da RTP Dança Comigo e descobriu outra grande paixão, a dança, que terá oportunidade de cultivar nos mais de vinte dias que está já a passar na América Latina, onde faz uma digressão durante este mês de Junho. – Este é um álbum que apela àquilo que lhe é mais querido, ao seu bairro? Raquel Tavares – Bairro não significa necessariamente bairro típico, é mais a essência de cada um, onde cada um de nós adquiriu os seus valores, ideais e raízes. No meu caso, é um bairro típico porque a minha vida foi feita nos bairros. E é o retrato destes anos todos que passei no fado, e que são já 16 ou 17. Fala das histórias de pessoas e sítios que conheci, de tascas, enfim… Foi um disco muito pensado no sentido musical e conceptual, em que eu estive muito mais presente. Como é óbvio, o Diogo Clemente, produtor deste disco, ajudou-me muito a ‘enfeitá-lo’, a fazer a pesquisa e recolha de repertório. E é um disco que retrata muito aquilo que é uma actuação ao vivo, mesmo com as chamadas sujidades, que é o normal na voz de quem canta ao vivo. – E é um trabalho que está muito mais próximo de si, no que toca a emoções e vivências… – Muito mesmo. Cantei temas que me dizem muito enquanto pessoa e ser humano. E, depois, é muito um tributo a Lisboa, que é a paixão da minha vida e a minha inspiração. Tem ainda algumas pérolas antigas que fui buscar e conjuga a geração antiga com a moderna. – A sua carreira está cada vez mais internacional, mas continua muito ligada à sua terra… – Sem dúvida. Adoro ir para fora, mas odeio não estar aqui. Levar a música que me caracteriza para fora é sempre um desafio enorme, e é fantástico ver o público chorar mesmo quando não está a perceber as palavras que estou a dizer. E tenho sido muito bem recebida no estrangeiro. Agora, não estar em Lisboa é sempre um grande tormento para mim. Preciso da minha rotina, de chegar a Alfama, à minha casa e aos meus 45 metros quadrados, onde sou muito feliz. Preciso desta gente com quem falo todos os dias, com quem partilho a minha vida. Preciso desta minha grande família, como também do meu pai, da minha mãe, da minha irmã e do meu sobrinho, claro. Mas Lisboa é muito o meu ponto de equilíbrio. – Falou das pessoas que choram com a sua música. E a Raquel, chora quando canta? – Já aconteceu. Em dias muito difíceis, em que não estou bem, choro. Nessas alturas o fado é o meu tubo de escape, a minha terapia. Nem sempre é fácil controlar as minhas emoções. Porque o fado é alegria, tristeza, é tudo. – Pode quase dizer-se que o fado é como uma droga que potencia o estado de espírito que se vive no momento? – Talvez, se bem que adoro fado e odeio drogas. Talvez potencie no momento, não por ficar mais triste, mas por apelar mais ao interior. Agora, confesso que quando estou muito alegre é difícil cantar os fados mais pesados. E também há dias em que não há muito para dar. – E tudo isso, todas essas emoções, afectam de alguma forma a sua vida pessoal? – Às vezes, mas nem sempre. Já consigo controlar isso, de alguma forma. O fado tem uma influência grande no meu dia-a-dia, sobretudo em dias em que estou mais susceptível. Também porque ando sempre em busca da perfeição, que não existe. – Vive sozinha, e acaba por estar muitas vezes só nas digressões. Sente-se solitária? – Não, não me sinto nada uma mulher solitária. Na verdade, acabo por estar sempre rodeada de pessoas, mas tenho momentos em que procuro essa solidão, em que preciso de me isolar. Preciso de estar só e encontrar o meu caminho, o que quero fazer. – Não tendo namorado, não sente a falta de ter alguém a seu lado? – Sentimos sempre falta de ter alguém ao nosso lado, mas nesta vida que decidi ter nem sempre é fácil conciliar a falta de tempo com tudo o resto. Depois, sou uma pessoa com convicções muito fortes, muito independente, e não abdico de muita coisa, o que pode dificultar uma relação. Às vezes peco um pouco nisso, não só com um namorado, mas também com os amigos. Se calhar esta é uma altura em que preciso de estar mais no meu mundo. Mas tenho amigos, pessoas que me amam, não me sinto desamparada. Agora aquela pessoa de que fala… se existir, muito bem, se não, muito bem na mesma. – Não pode então dizer-se que não sente qualquer ansiedade em encontrar um companheiro… – Houve uma altura em que estava sozinha e não percebia por que não conseguia encontrar ninguém. E um grande amigo disse-me: "Em vez de andares à procura da borboleta, porque não cultivas o teu jardim à espera que as borboletas venham até ti?" E acho que é um pouco isso, tenho que me preocupar mais em cultivar o meu jardim. Não penso muito nisso, também porque sou uma pessoa bem resolvida no meu interior. – E quando está apaixonada, é o tipo de pessoa que dá o que tem e o que não tem? – Vivo o amor de uma forma muito intensa, mas também amo de várias maneiras. Amizade é amor, cumplicidade é amor, respeito, fidelidade, lealdade… Já tive oportunidade de amar e ser amada, e o mais importante é isso, podermos partilhar as coisas. – Na entrevista que nos deu há um ano, quando falava de amor, falava também em sofrimento. Agora parece pensar de outra forma… – Realmente, já não penso da mesma maneira. Foi uma fase que vivi talvez muito cedo, aos 17 anos, e por isso fez mais mossa. Hoje encaro tudo o que me aconteceu no passado como um grande ensinamento que me ajudou a ser uma pessoa mais tranquila e serena. – Inevitavelmente, a experiência acabou por fazê-la amadurecer… – Sim, penso que sim, o que também se reflecte profissionalmente. No concerto que recentemente dei no Teatro da Trindade, houve muita gente a dizer-me que estava muito mais madura e tranquila. E isso é um reflexo de tudo o que me tem acontecido na vida, o bom e o mau. – Uma última pergunta: como foi passar da menina do bairro para a fadista que arrebata prémios, tem várias digressões internacionais e cuja cara já não passa despercebida na rua? – Foi estranho. Não estava habituada a andar na rua e ser conhecida. [risos] As pessoas conhecem-me, mas, felizmente, sabem o que faço, que sou fadista, e não me conhecem só porque estive no Dança Comigo. Dispenso completamente a fama, mas reconhecimento quero. Tenho muitos amigos que sofrem com aquilo que está associado a essa fama, e eu não quero isso. Nada mesmo.