Sem rodeios, avisa que nunca lhe bastaria ser a grande mulher por detrás de um grande homem.
Bárbara Guimarães diz que é mais de andar ao lado. O homem que mais lhe mudou a vida é, evidentemente,
Manuel Maria Carrilho, seu marido e actual embaixador de Portugal na UNESCO. De forma quase cinematográfica, descreve como ambos, de agendas abertas, se entendem na gestão de uma vida que se divide entre Lisboa – cidade onde ela vive com o filho de ambos,
Dinis, de cinco anos, – e Paris – para onde o filósofo e político se mudou no final do ano passado.
Nesta entrevista, cujo ponto de partida foi o novo programa que apresenta na SIC, conversou-se sobre o amor, a família e as saudades.
– M/F: Sarilhos em Casa é o desafio profissional que desejava nesta altura da sua vida?
Bárbara Guimarães – Gosto de pensar que sim, a partir do momento em que começo a trabalhar num novo projecto. E este é, sem dúvida, muito exigente. Não só por ser diário, de segunda a sábado, mas também pela temática. É mesmo diferente de tudo o que fiz até hoje, mas, como gosto de correr riscos, aqui está mais um…
– Como é a sua relação com o mundo dos homens?
– Óptima. Variável. Previsível.
– Quem são os homens que mais admira no seu universo pessoal?
– Os que acreditam, apesar das dificuldades. Os que riem, apesar dos dissabores. Os que amam, apesar dos obstáculos.
– E o homem que mais mudou a sua vida?
– Evidentemente, ele.
– Manuel Maria Carrilho?
– [Silêncio acompanhado de um sorriso que sugere que a dedução está correcta].
– Imagina-se feliz no papel de a grande mulher por detrás de um grande homem?
– Sou mais de andar ao lado.
– E como se sente a mulher de um homem de reconhecido charme, admirado por outras mulheres? Como se sente a Bárbara em relação ao seu marido?
– Eu? Orgulhosa. Mas atenta e feliz.

– E como se sentem os homens das mulheres bonitas? Como acha que se sente o seu marido em relação a si?
– Todas as mulheres têm um encanto próprio para o ‘seu’ homem. E vice-versa. Caso contrário, algo vai mal.
– Ser estrela de televisão é correr riscos. Como preserva essa parte de certa forma provocatória da profissão com o facto de ser mulher de um político, que ainda por cima é agora embaixador?
– Sem tabus nem preconceitos. As mulheres têm uma grande capacidade para resolver e fazer coisas muito diferentes ao mesmo tempo. É talvez um dom, que a história acabou por nos dar. Fui posta à prova em várias situações inesperadas e sinto – modestamente – que estive à altura. Nos momentos-chave estou sempre com o meu marido, sinto que gerimos bem esta fase da nossa vida.
– Mas como é que conseguem planear a vossa vida morando em países diferentes?
– De agenda ‘em riste’, disparamos os nossos compromissos e avaliamos as nossas obrigações comuns! É a única maneira de ter uma boa vida pessoal. Que procuramos que esteja sempre em primeiro lugar. Mas reconheço que agora, com este inesperado programa diário, teremos que ser muito imaginativos. O meu trabalho em televisão absorve-me muito, mas só com essa dedicação é que consigo dar conta dele.
– A palavra saudade passou a ter um significado diferente?
– Nem sempre é fácil, mas trata-se apenas de uma fase na vida de ambos. Quando a saudade bate à porta, reorganizamo-nos! Ou faço-lhe uma surpresa, sou boa nisso!
– Preocupa-se com o equilíbrio que necessita de ter entre a sua carreira e a sua vida familiar?
– Claro que sim. Isso é prioritário, não só para o nosso bem-estar, como para o bem-estar do nosso filhote e de toda a família. É tão bom brincar, inventar, rir, fazer pequenos nadas em conjunto com o meu filho. Também é doce quando estamos os três e cada um entretido com algo, em silêncio. Nesses momentos consigo sentir a paz, a serenidade destes meus dois amores.
– Que segredos de bem-viver procura transmitir ao Dinis?
– Francamente, os que passam pela educação. A educação exige muita atenção, imensa disponibilidade, estímulos e desafios. Educar é não só dar mundo, mas também ajudar a criar um mundo próprio, interior. Na minha opinião, só assim se enraízam valores, se preparam opções, se distingue o essencial do acessório. É uma aventura ter filhos nos tempos que correm.
– E voltar a ser mãe, está nos seus planos?
– É melhor dizer que não. Senão, para a semana lá vem mais uma daquelas notícias…
– É mulher para colocar um quadro na parede ou mudar o pneu de um carro?
– Claro, ainda há uma semana comprei um berbequim… e os quadros que queria pendurar, lá estão! Quanto ao pneu, tenho a certeza que vou demorar bastante tempo, mas mudo!

– E o seu marido, vai às compras, ou faz o jantar sem qualquer tipo de tabu?
– Sim, ele sempre fez tudo isso com a maior das naturalidades.
– Que características – ou poderes – tipicamente masculinas inveja no sexo oposto?
– Invejar… Aí está algo tão masculino como feminino, não é? Talvez inveje um certo tipo de racionalidade mais planeada.
– No mundo das suas amizades, existem mais homens ou mulheres?
– Mulheres, sempre temos mais coisas em comum.
– O que acha da força e da fraqueza das mulheres?
– Acho que as mulheres fazem das fraquezas forças!
– Quem foram as mulheres que mais marcaram e continuam a marcar a sua vida?
– As que me criaram, educaram e continuam a inspirar-me. E digo-lhe que, quanto mais tempo passa, mais inspiradoras se têm tornado. A experiência das pessoas em quem confiamos é muitas vezes um farol na vida.
– Dizem os cientistas que toda a mulher tem um lado masculino. De que forma esse se revela em si?
– Pois digam os cientistas o que disserem, eu sempre me senti 100 por cento feminina.
– Recordo-me de uma fase em que usava, com frequência, peças de vestuário tipicamente masculinas, como gravatas e coletes de alfaiataria. O guarda-roupa dos homens fascina-a?
– Para variar, o guarda-roupa masculino tem muitas peças interessantes. Gosto de gravatas, coletes, calças com corte masculino, e de muitas outras coisas que não estão reservadas aos homens.
– É reconhecida como uma mulher bonita e elegante. Como se adapta ao facto de ser cada vez mais observada à lupa?
– Isso é assustador. Tenho prazer em sentir-me bem, cuidar de mim, mas sem fazer disso o centro da minha vida. O que mais gosto é de andar e ser descontraída.

– Nos últimos anos tem deixado de lado uma imagem mais clássica, a que nos habituou em determinado período da sua vida, e mostrado um estilo igualmente sofisticado, mas mais
fashion. Essa mudança exterior é o reflexo de uma mudança interior?
– É mais uma mudança do meu armário! De resto, cada vez mais quero ter menos coisas, reciclar as que estavam no fundo da memória, mas, essencialmente, ter menos! O que me obriga a ser mais criativa e selectiva. Na televisão, a imagem também vai acompanhando os tempos. Quando olho para os primeiros Chuvas [de Estrelas], vejo-me de poupa, cheia de laca, vestida com peças que hoje não fariam sentido! Mas naquela altura aquilo era tudo muito
cool. Mudam-se os tempos, mudam-se os estilos.
– Parece ter uma visão da vida muito positiva. Onde é que a foi buscar?
– Não nasci com queda para maus dias, sou bem-disposta, gosto de viver e de conquistar as coisas, as pessoas, ideias e causas. Preocupo-me com a injustiça, com a falta de saúde, com a fragilidade do mundo em que vivemos. E, com energia, à minha pequena escala, tento colaborar sempre com o ‘lado bom’, que luta por mais esperanças e mais alegrias.
– Não resisto a pedir-lhe que partilhe connosco alguns dos seus segredos de beleza.
– Cuidar é a palavra-chave desse segredo. Temos que cuidar de nós, por nós.
– E tem tempo para fazer ginástica, faz dietas?
– Não tenho tido tempo nem muita paciência. Sinto-me melhor quando posso andar a pé, dar grandes passeios. Quanto às dietas, vou controlando de quando em quando a balança, tento manter um certo equilíbrio. Não faço dietas, faço por ter uma alimentação saudável.

– O Mude – Museu do Design e da Moda, espaço onde a Bárbara foi fotografada, propõe-se explorar novos lugares e diferentes tempos. Na profissão e na vida pessoal, quais são os novos lugares que a Bárbara gostaria de explorar e que diferentes tempos gostaria de viver?
– É o mais jovem museu da cidade, onde a moda e o design se expõem. Gosto do conceito, de juntar os dois e ver que combinam na diversidade das suas inspirações. É também uma Bárbara [Coutinho] que o dirige, uma pessoa de quem gosto muito, é uma mulher audaz e cheia de sonhos. Os pisos de cima ainda não estão verdadeiramente recuperados, mas já são museu. E foi um privilégio vê-los, ocupá-los durante esta sessão. Quanto aos diferentes tempos, aqui é possível senti-los, e isso também é viajar: os novos lugares podem estar dentro de nós.
– Nessa viagem, onde fica o seu refúgio?
– No meu coração. Quando ele bate forte de alegria, é porque cheguei ao meu refúgio.