Gosta de praticar desporto, de ir à praia, de se arranjar para sair, de estar com os amigos e de ter tempo para namorar. Esta descrição pode facilmente encaixar no perfil de milhares de jovens portuguesas, mas no caso de
Diana Gomes da Silva, de 26 anos, ainda é preciso encaixar o facto de ser piloto da transportadora aérea açoriana, Sata, e, principalmente, o facto de ser a mais nova mulher em todo o mundo a praticar acrobacia aérea e a primeira em toda a Península Ibérica. Em conclusão, qualquer semelhança entre Diana e os famosos Malucos das Máquinas Voadoras pode não ser pura coincidência.
A piloto gosta de voar bem alto e, para além de querer participar na Red Bull Air Race, os seus sonhos passam pela criação de uma escola e de uma empresa de acrobacias aéreas. Objetivo: animar e pintar os céus de Portugal.
E até foi no ar que Diana encontrou o amor. Mais do que namorado, o seu antigo instrutor,
João Bettencourt, é a pessoa a quem, literalmente, confia a vida!
– Praticou e competiu em desportos considerados radicais como o
bodyboard, o
snowboard e o motocrosse, entre outros. O facto de o ter feito, de alguma forma, potenciou a sua chegada à acrobacia aérea? Estava viciada em adrenalina?
Diana Gomes da Silva – Completamente! [risos] Pensei em ser astrofísica, mas tendo em conta as médias e as saídas profissionais, acabei por, aos 17 anos, perceber que a aviação, que também foi sempre uma das minhas grandes paixões, estava no meu caminho profissional. De qualquer forma, terminei o meu curso de Comunicação Social, na Universidade Católica, e hoje escrevo uma página sobre segurança aérea na revista
Sirius. Esta procura incessante da adrenalina foi herdada do meu pai, [
António Gomes da Silva] que corre maratonas, escala a base do Evereste e com quem faço sempre férias em busca de coisas novas e de muita aventura. Tendo em conta o meu historial de vida e desportivo, considero a acrobacia aérea como o expoente máximo da aviação. Era, pois, inevitável que, ao tornar-me piloto, a acrobacia aérea fizesse parte da minha vida. [risos]
– Mesmo partindo do princípio que o seu pai terá reagido bem, como é que a sua família recebeu o seu anúncio de que queria ser piloto de acrobacias?
– Em primeiro lugar, nunca disse abertamente, e de uma vez, que a partir de determinado dia iria fazer acrobacia aérea. Desde o dia do primeiro voo até à compra do avião passaram quatro anos. Depois de ter aperfeiçoado a minha técnica como piloto de linha aérea é que comecei a fazer voos acrobáticos. Fiz, entretanto, um curso nos Estados Unidos, e tudo foi acontecendo espaçadamente e, talvez por isso, os meus pais nunca me contrariaram nesta paixão. É uma paixão, mas pode também ser um negócio. Esse é o meu desafio, e quem me conhece sabe que sou muito determinada quanto aos meus objetivos. Neste contexto, penso que os meus pais, ao verem o meu entusiasmo e a minha determinação, acabaram por me dar o seu apoio incondicional.

–
Neste seu caminho para fazer carreira como piloto de acrobacias, o facto de ser mulher ou a mais nova do mundo tem-lhe dado vantagens ou desvantagens?
– Já tive entraves e já tive algumas facilidades. No geral, os meus colegas pilotos tratam-me muito bem. Em contrapartida, a maioria das pessoas ainda estranha a minha profissão. Agora, na acrobacia aérea, o facto de ser mulher, de ser a mais nova no mundo e a primeira na Península Ibérica ainda não me trouxe vantagens. O investimento tem sido todo meu, mas acredito que a curto prazo poderei ter uma marca associada. Penso que o ramo da publicidade ainda não se apercebeu do potencial que é ter um avião com o logótipo ou a desenhar no céu, principalmente junto à costa. Mais do que ser mulher, o meu maior entrave são os custos elevadíssimos desta atividade. De qualquer forma, a verdade é que, com a minha idade, já tenho um avião…
– Ao fim de todos estes anos, voar e fazer acrobacias ainda lhe faz disparar o coração?
– Voar é de longe a maior paixão da minha vida. Adoro, adoro! Adoro o que faço e não o trocava por nada deste mundo. Sou felicíssima!
– Mas o que é que existe lá em cima que não consegue encontrar com os pés assentes na terra? Liberdade? Adrenalina pura?
– Tanta coisa… [risos] A liberdade que se tem num voo de acrobacia é total e não existe em qualquer outro desporto ou atividade. Não existe, por exemplo, na queda livre, em que não se pode controlar o facto de ser uma queda. Nem sequer a pilotar um avião de passageiros. Mas não se pense que num voo acrobático existe espaço para inventar e muito menos para devaneios. Tudo é ensaiado vezes sem conta. Antes de qualquer prova ou demonstração, gosto de me isolar, de me recolher e ensaiar mentalmente o que vou fazer. Ainda assim, tudo é muito rápido e com muita adrenalina. É uma sensação que, mesmo depois de aterrar, ainda se mantém durante algumas horas.

– Nesta sessão fotográfica, foi possível observar uma Diana muito diferente daquela que entra num avião. Num contexto diferente, sentiu que também estava a voar?
– Completamente! Foi uma experiência fantástica, mas garanto que, em todas as vertentes da minha vida, só existe uma Diana, ainda que a maneira de estar seja diferente consoante a ocasião. Quando saio com as minhas amigas – sim, também tenho amigas e também saio à noite – ou com o meu namorado, visto-me como uma princesa. Gosto de saltos altos, de minissaias e de vestidos, de me pintar e de arranjar o cabelo. Não existe qualquer tipo de impedimento em ser piloto de acrobacias e, ao mesmo tempo, ser muito feminina. Por diversas vezes, colegas que me viram vestida para pilotar não me reconhecem quando se cruzam comigo num evento social. [risos]
– Se voar é a sua grande paixão, não deixa de ser curioso ter-se apaixonado por alguém do meio, mais precisamente por um dos seus instrutores…
– O João era o meu instrutor no curso de instrutores. Foi nesse contexto que nos conhecemos e percebemos que tínhamos mais em comum do que a aviação e a acrobacia, ainda que ambos partilhássemos o sonho da acrobacia.
– Hoje, mais do que amor, partilham algo pouco comum: confiar a vida um ao outro.
– Se bem que sem confiança não se possa construir qualquer tipo de relação, confiamos verdadeiramente a vida um ao outro. O João é meu amigo, é o homem da minha vida, e como voamos em parelha, acabamos por confiar plenamente a vida ao outro. No nosso caso, como o João vai à frente, eu sou o seu asa, e é a mim que ele confia a vida, ainda que eu sinta exatamente o mesmo. A confiança é total, e para se ter uma ideia da experiência do João, basta dizer que ele começou a voar aos 15 anos. Ele já dava instrução de voo ainda antes de ter carta de condução. Aprendo imenso com ele. Entendemo-nos na perfeição e temos um projeto de vida a dois que passa também pela vertente de negócio. Queremos ter uma parelha de aviões, uma escola de acrobacia e desenvolver a vertente competitiva e empresarial. Neste momento, a nossa vida é a aviação.
– Casarem-se e terem filhos faz parte do vosso plano de voo a dois?
– [risos] Tudo isso faz parte dos meus planos, mas cada situação a seu tempo. Primeiro, quero estabilizar enquanto piloto de linha aérea, quero desenvolver e profissionalizar a acrobacia aérea e quero também chegar à Red Bull Air Race. Por tudo isto, decidimos adiar os projetos familiares, porque agora todo o nosso tempo é dedicado à aviação. Mas, sim, claro que quero casar-me com o João e ter filhos. E se aviões ter dois ou três chegam, no caso dos filhos, gostava de ter quatro. [risos]
*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.