Se tivesse seguido a vontade da mãe, a ex-Miss Portugal
Ana Maria Lucas, ou das avós, que gostavam de o ver de farda,
Francisco Mendes, filho do músico
Carlos Mendes, poderia ter sido marinheiro. Optou antes por seguir gestão e turismo, mas acabou por se tornar cantor e apresentador de televisão. No fundo, diz,
"tinha que fazer qualquer coisa que implicasse contacto direto com o público. É uma característica minha estar sempre a falar com as pessoas e desde miúdo que assumi liderança nos sítios por onde passei, provavelmente devido, também, ao facto de ser filho de duas pessoas conhecidas".
– Acha então que nunca teria chegado onde chegou se não fosse filho de Carlos Mendes e Ana Maria Lucas?
Francisco Mendes – Teria levado muito mais tempo, pois é claro que os meus pais me abriram algumas portas. Por outro lado, o meu caminho não tem sido fácil, porque as pessoas exigem muito mais de mim por ser filho deles e acham que tudo o que consigo é por ‘cunha’, logo, tenho de dar mais de mim.
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– Os seus pais separam-se quando o Francisco tinha nove anos. Ficou revoltado?
– Desde miúdo que fui dono do meu nariz e senhor das minhas opções e na altura assumi logo o divórcio deles e resolvi aquilo à minha maneira, pondo-me no papel de filho mais velho. Não fui nada revoltado, também porque foi um divórcio calmo: dois adultos resolveram divorciar-se, mas ficaram com a relação de duas pessoas que se amaram muito e que tiveram dois filhos.
– Mas deve ter sido uma fase difícil…
– Foi uma fase de mudança. E hoje em dia agradeço imenso o facto de eles se terem divorciado, pois a alternativa poderia ter sido uma relação artificial que iria gerar comportamentos diferentes e piores, que é o que acontece a muitos casais que só estão juntos pelos filhos. Portanto, ainda bem que eles se divorciaram, porque cresci entre duas realidades completamente antagónicas e foi essa mistura que me formou como homem de uma maneira harmoniosa e, ao mesmo tempo, aberta e perspicaz para todos os meios onde me movo.
– O AVC que a sua mãe sofreu, a 3 de fevereiro de 2009, aproximou-vos enquanto família?
– O meu pai aproximou-se muito de mim e do meu irmão, mas da minha mãe não faria sentido. Eles ficaram com uma relação cordial. Agora, a minha mãe não tem ninguém, a não ser a mim e ao meu irmão, pois não tem irmão, tios ou primos. Somos só nós os três. Eu prezo muito a minha família.
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– Isso dá-lhe uma responsabilidade maior?
– Enorme. E tive que a assumir da melhor maneira, quando a minha mãe teve o AVC, e com isso cresci bastante. Dias depois dela ter adoecido, percebi que tinha de ser eu a assumir o papel de líder da família Lucas. E assumi bem esse papel, com o meu porto de abrigo em águas calmas, que são a minha mulher e a minha filha, são elas que me fazem sentir bem e onde vou buscar muitas forças. E tem sido interessante ver o meu processo de reconstrução, de alguma reestruturação interior. Sou uma pessoa diferente do que era há dois anos. Passou-me pela cabeça que a minha mãe pudesse morrer. Não estava preparado para o que aconteceu, mas acho que lidei bem com a situação.
– O nascimento da sua filha, Ana Mar, também o transformou enquanto pessoa?
– Eu continuo a mesma pessoa, mas houve uma série de coisas que tive de mudar, tive que me adaptar a uma nova realidade. Fiquei mais responsável. Ela já tem seis anos, mas lembro-me do primeiro ano de vida dela… Foi um ano de mudanças e adaptações, porque eu e a
Sara éramos muito livres, no sentido de fazermos o que quiséssemos à hora que nos apetecesse, e de repente tínhamos ali uma pessoa que dependia de nós para tudo. Compreendo por que é que muitos casais de divorciam no primeiro ano de vida do bebé. Não é fácil.
– Vocês também pensaram em separar-se?
– Nunca, porque houve sempre uma diplomacia e compensação muito boas entre mim e a Sara. No primeiro ano foi do género:
"Ficas aqui duas horas com ela que eu vou fazer surfe. Depois eu volto e vais tu fazer o que quiseres." Tínhamos que ser pragmáticos. Amamo-nos muito, ainda hoje, e temos dez anos de relação. Estamos como nunca, é a mulher da minha vida. Já não me via a fazer aquela vida mundana que tinha antes de ter a minha filha. Era ótimo poder acordar às seis da tarde e deitar-me às nove da manhã e ir surfar quando me apetecia, mas quando ela nasceu… o sorriso dela, o facto de me chamar ‘pai’, o partilhar com ela uma ida à praia, acompanhar os primeiros passos, tudo isso supera aquilo que tinha. Há outros valores muito maiores que se sobrepõem quando se é pai.
– Quer ter mais filhos?
– Estamos a pensar nisso, gostaríamos de ter um filho brevemente. Não o tivemos antes porque acho que os primeiros cinco anos de vida de uma criança são fundamentais e para serem vividos em toda a plenitude e com toda a atenção.
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– Profissionalmente, está há vários anos a apresentar o
Top+. Não ambiciona mais?
– Claro que quero mais, mas a RTP já tem uma série de pessoas em lugares de destaque, com grandes contratos e que naturalmente têm de ser usadas para justificar o ordenado. Mesmo assim, há que ressalvar que a Direção de Programas me tem chamado para trabalhar em várias coisas. Não me posso queixar, mas claro que estou à espera de outras iniciativas, de outros projetos e programas. Ao contrário do que pensava há dois anos, sei que neste momento estou preparado para qualquer tipo de projeto. Há dois, três anos, se calhar não tinha a maturidade nem a experiência necessárias… Não sei se pelo facto de ter sido pai, se pelo facto de ter sido ‘empossado’ líder dos Lucas, agora estou preparado, muito seguro do que sou e do que quero ser.
– O AVC da sua mãe mudou-o bastante…
– Sim. Fiquei uma pessoa diferente por ter assumido uma série de responsabilidades, mas sou uma pessoa muito mais feliz do que era há dois anos. Sou muito mais equilibrado, aprendi muito com o problema da minha mãe. E posso dizer que também a minha mãe é uma mulher muito mais feliz agora. E é curioso, porque agora, sim, estou a sentir uma coisa que nunca senti: a maturidade. Olho para pessoas mais novas, entendo o que estão a viver e tenho uma visão diferente, mais madura, da situação. É interessante. A maturidade assustava-me, mas neste momento adoro. Acho que vou envelhecer muito bem.
*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.