Em casa de Xin Lau, um dentista chinês a residir no Porto há muitos anos, não se enxergava, na véspera da consoada, um único sinal festivo. Herta, a romena que lhe limpava a casa, até estranhou:
– Na China não há Natal?
Bondosamente, o médico explicou-lhe que era cristão e que na sua terra também se festejava o Natal. A figura do velhote barbudo chamava-se Dun Lhe dao Ren e as famílias também ornamentam árvores com lanternas e flores de papel.
– Então por que não enfeita a sua casa?
Xin Lau contou-lhe que não conhecera os pais nem tivera nunca filhos ou mulher.
– Como é possível? – espantou-se ela. – Os médicos têm sempre mulheres!
Sorrindo, Xin Lau lembrou-lhe que, nesse caso, não seriam mulheres, mas aves de rapina.
Herta corou.
– Está bem. Mas o doutor é bonito, e aos homens bonitos nunca faltam namoradas!
Sorrindo ainda, Xin Lau explicou-lhe que também a essas não deveria chamar "mulheres", porque era um insulto às que amavam de verdade.
– Ora – riu-se ela. – O doutor também deve ser exigente!
– E sou – riu-se ele. – Não és também?
Herta não soube o que responder. Assim, de repente, não lhe ocorria um único momento em que tivesse exigido alguma coisa à vida. E tirou o avental, dizendo:
– Olhe, doutor. Se não se incomodar, trago-lhe ainda hoje umas luzinhas, para não passar o Natal às escuras.
Xin Lau concedeu. Toda a festividade o magoava, mas a ideia da empregada, tão carinhosa, provocou-lhe uma ventania na alma. Depois de lhe pagar as horas, disse:
– Hoje vou chegar tarde, mas entra e faz o que entenderes.
E assim foi: Xin Lau chegou tarde nessa noite, mas, mal meteu a chave à porta, viu que toda a casa resplandecia graças a uma enorme bola de madeira iluminada que a empregada pendurara na sala, contendo, no centro, uma Sagrada Família. Era tosca e faltava-lhe o Menino Jesus – talvez se tivesse descolado do conjunto sem que Herta desse por isso – mas a intenção comoveu-o.
Xin Lau sabia que, em Bucareste, as festas se iniciavam a 6 de Dezembro, dia de São Nicolau, e se prolongavam até 7 de Janeiro, dia de São João. Os meninos enfeitavam o abeto com bombons e bolas coloridas, significando, segundo a doutrina cristã, os frutos da Árvore da Vida. Os sinos também não podiam faltar, pois representavam o júbilo associado ao nascimento de Jesus. Mas aquela bola de madeira que Herta lhe deixara, e o seu conteúdo alegórico, era a tradição mais bonita de todas, por simbolizar o verdadeiro espírito da quadra.
Emocionado, resolveu ligar à empregada:
– Boa noite, Herta. Incomodo?
A rapariga respondeu: "O doutor nunca incomoda", mas Xin Lau encontrou-lhe uma tristeza na voz.
– Olha. Vinha só dizer-te que apreciei muito o que me deixaste aqui, e que até sei que, em romeno, se chama steua. Estou a pronunciar bem?
– Não – riu-se ela, agora já divertida. – Mas dito assim até é mais engraçado!
Seguiu-se um pequeno silêncio, que era Xin Lau a arranjar coragem:
– Herta. Trabalhas para mim há dois anos e nunca te perguntei: tens família?
Herta não respondeu e Xin Lau modificou um pouco a pergunta:
– Vives sozinha?
– Sim, doutor.
– E a tua casa? Está iluminada?
Ao silêncio sucedeu-se desta vez a surpresa de uma risada fresca:
– Ó doutor, isto é para rir: afinal quem está às escuras sou eu! Cortaram-me a luz por falta de pagamento, veja lá. E logo hoje, já viu?
Xin Lau ordenou-lhe então que chamasse um táxi e que fosse até a sua casa para festejarem juntos o Natal. E que não se preocupasse porque ele mesmo pagaria a corrida. Por sua vez, Herta disse-lhe que aceitaria apenas na condição de lhe poder levar sarmale, umas almôndegas de carne e arroz envolvidas em folhas de videira, e ainda uma caixa de cozonac cu mac, uma espécie de bolos de noz ou de sementes de papoila, alusivos à natividade.
– Traz, se queres. Arranjarei forma de honrar o teu gesto.
E assim foi. Não houve risos de crianças à volta da árvore, como nas outras casas, mas a steua com que Herta enfeitara a sala acabou por acender aquelas duas almas. Não logo. Lá mais para a madrugada, quando Xin Lau enfiou uma aliança no quarto dedo da rapariga, explicando-lhe que, segundo a lenda, era nesse e não noutro que passava uma certa veia que ia direita ao coração. Desvanecida, mas sem nada de valioso para retribuir, Herta confiou ao patrão a sua nudez esplendorosa, oferecendo-lhe, no dia de Natal – sem saber, sem poder sequer imaginar – a figura que faltava para completar o Presépio.
CONTO DE NATAL: A semente da papoila
por Rita Ferro