Talvez seja o dado mais
desconcertante do julgamento: o ar imperturbável com que Renato Seabra
ouve a descrição das violentas agressões que mataram Carlos Castro. Não
muda de expressão, não reage. Fica apenas atento à voz de quem está a falar.
Desde o dia 5 de outubro, já passaram pelo Supremo Tribunal de Manhattan as
alegações iniciais das duas partes e as primeiras testemunhas da acusação. Vanda
Pires, amiga de Carlos Castro a viver no Estados Unidos, contou aos jurados
que o casal estava bem e feliz nos dias que antecederam o crime – e que tudo
mudou na sequência de uma discussão violenta na véspera do homicídio, que terá
levado o cronista social a terminar o namoro e a antecipar o regresso a Lisboa.
Seguiram-se os depoimentos de funcionários do hotel, do taxista que levou
Renato a um hospital naquela noite e do detetive que examinou o quarto após a
descoberta do crime.
Esse foi, de resto, o momento mais pesado do julgamento, porque a descrição do
detetive foi acompanhada pela exibição de fotografias da cena do crime, que
além de incluírem vários objetos ensanguentados, também mostram o corpo
mutilado da vítima.
Os 12 jurados que têm o veredicto nas mãos também viram as imagens de
videovigilância do hotel, que contrariam a tese da defesa, que fala em
perturbações mentais graves e num ataque psicótico com alucinações. O jovem
terá dito a um psiquiatra que acreditava ser um enviado de Deus, numa missão
para salvar o mundo e que, ao matar Carlos Castro, ganhou um superpoder que o fez
sair para a rua e tocar em pessoas, curando-as do vírus da sida e da
homossexualidade.
As imagens das câmaras do hotel mostram Seabra dentro do elevador,
impaciente… mas sem sinais da loucura extrema que descreveu, muito menos
tentando tocar nas pessoas com quem se cruzou. Perante isto, restará aos
advogados apresentar os relatórios psiquiátricos da defesa, que são inequívocos
sobre a doença mental do jovem.
Renato Seabra está acusado de homicídio simples. Se for condenado, arrisca uma
pena máxima de 25 anos a prisão perpétua. Se for considerado inimputável, será
internado num hospital psiquiátrico por tempo indefinido.
Renato Seabra: As últimas imagens antes da morte de Carlos Castro
Uma das últimas fotos de Renato Seabra antes do crime
D.R.
Renato Seabra, Vanda Pires e Carlos Castro
D.R.
O jovem está a ser julgado pelo homicídio do cronista social. A defesa, liderada pelo advogado David Touger, alega loucura.