A
pretexto do lançamento do seu primeiro livro, Mulheres Livres, onde a
autora conta a história de 12 mulheres portuguesas e estrangeiras de diversas
áreas que lutaram pelos seus ideais e defenderam as suas ideias ao longo da
vida, a CARAS marcou encontro com Maria de Belém Roseira. Numa breve e
sincera conversa, a presidente do Partido Socialista mostrou o seu lado mais
pessoal e falou sobre o seu casamento com José Manuel Pina e da relação
que tem com a filha, Helena Pina.
– Identifica-se com estas mulheres sobre as quais escreveu?
Maria de Belém – O meu percurso é muito mais discreto. Mas sempre agi de
acordo com aquilo que considerei justo e sempre fiz as minhas escolhas assentes
naquilo que, para mim, são critérios de justiça. E utilizando as funções às
quais ascendi, evidentemente tive sempre a preocupação de fazer com que elas
significassem alguma coisa. Acho que cada um de nós é irrepetível e como tal,
cada um de nós tem um papel a desempenhar e esse papel deve ser desempenhado
com coragem, determinação e, de preferência, com bom senso.
– Como concilia as exigências da carreira política com os papéis de mãe e
mulher?
– Eu não diria que conciliei, mas sim que foi a família que conciliou comigo. A
minha família é extraordinária, pois sempre conseguiu aguentar as minhas
ausências, as minhas pressões e às vezes algumas tensões… Quando estamos
sobrecarregados isso também se manifesta em tensão relacional. Portanto, é
gente compreensiva, inteligente e moderna. E isso é que é o essencial. [risos]
– Dizem que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher. No
seu caso passa-se o contrário?
– Não, o meu marido não está atrás de mim, está sempre ao meu lado. E é um
impulsionador, nunca foi uma pessoa que me limitasse no que quer que fosse e
sempre me ajudou a ir mais longe, mesmo que isso signifique menos tempo de
convívio. Tem sido sempre o meu grande pilar. A minha filha também é
fantástica. Sempre foram, para além de compreensivos, facilitadores e
impulsionadores.
– Acha que a sua carreira a tornou uma mãe ausente? O seu marido poderá ter
acabado por compensar as suas ausências?
– É evidente que o meu marido esteve sempre lá para compensar as minhas
ausências. Mas fiquei mais contente
quando perguntei à minha filha – porque às vezes sou um bocado disciplinadora e
porventura até muito exigente – se ela achava que eu era excessivamente
exigente e ela respondeu que eu era uma mãe atenta. E eu acho que ter uma mãe
atenta é aquilo que, hoje em dia, muitos jovens precisam de ter.
– É uma boa mãe…
– Isso é melhor perguntar à minha filha. Mas sempre a deixei seguir o seu
próprio caminho e muitas vezes ao arrepio daquilo que seriam as minhas escolhas
para ela. Mas tive de respeitar as escolhas dela, porque chega uma certa altura
em que nós não nos podemos impor e temos de os ajudar. Nós temos uma relação
muito boa e próxima, ainda que ela esteja longe, a viver em Londres. É uma
filha muito carinhosa e protetora da mãe, portanto, digamos que às vezes há
aqui uma inversão de papéis.
– Foi por causa da sua carreira que não teve mais filhos?
– Não tive porque a vida não me permitiu ter mais. Claro que gostaria de ter
tido mais, mas não aconteceu, não me foi possível.
– E netos? Está desejosa de ser avó?
– O futuro do mundo suscita-me demasiadas preocupações para que veja com
tranquilidade e expectativa positiva o aparecimento destas novas crianças. Nem
é uma coisa que converse com a minha filha porque considero que nunca a devo
influenciar nessas escolhas. Ela é muito sensível, delicada e afetiva,
portanto, tem direito de decidir sobre essa parte tão importante na vida de
qualquer mulher ou de um casal. Aí retenho-me e apago-me completamente.
– Dizem que a política pode tornar as pessoas mais frias e distantes.
Aconteceu consigo?
– Isso não aconteceu comigo. Eu reflito muito sobre mim própria e sobre a forma
como estou no mundo. E como tive um contacto muito precoce com o mundo e com um
comportamento muito falso das pessoas em determinados ambientes, fiz sempre
questão de não me deixar contaminar. Portanto, nunca aceitaria, pelo grau de
exigência que tenho em relação a mim própria, que a política me mudasse. Eu sei
que, 40 anos de vida pública depois, não mudo a política, mas a minha grande
derrota teria sido se a política me mudasse a mim.
Maria de Belém: “O meu marido tem sido sempre o meu grande pilar”
A propósito da publicação do seu primeiro livro, ‘Mulheres Livres’, a presidente do PS e antiga ministra da Saúde explica como sempre conciliou as exigências da carreira política com os papéis de mulher e mãe.