Impossível não se dar por ela. A sonoridade do acordeão é imponente e as flores no cabelo, a sua imagem de marca. Celina da Piedade, 34 anos, natural de Setúbal, sobe ao palco a acompanhar Rodrigo Leão há quase 13 anos. O seu nome também está associado ao de Mayra Andrade, a quem enviou um e-mail a mostrar vontade de tocar com ela. Sem medo de ouvir um não ou de arriscar. Sempre foi assim. Aos três anos já queria ter um acordeão, aos cinco, com aulas dadas por uma amiga de família, Helena Mendes, já tocava como gente grande. Aos dez entrou para o Conservatório de Música de Setúbal onde, oito anos mais tarde, deu aulas, conciliando a sua vertente de professora com o curso de Património Cultural que tirou na Universidade de Évora. Fez também uma pós-gradução em Estudos de Música Popular, já em Lisboa. António Chainho, Ludovico Einaudi ou os Homens da Luta podem também falar do seu talento.
Tendo já participado em mais de 40 discos de inúmeros artistas de renome, lança-se agora a solo com o disco duplo Em Casa, em que reinventa a música popular portuguesa. A seu lado nesta aventura, onde toca mas também canta, conta com o apoio do seu companheiro e manager, Alexandre Gaspar, a quem dedica uma das músicas. E agora a pergunta que se impõe…
– Porquê só agora, Celina?
Celina – [risos] Até há um ano, altura em que comecei a produzir o disco, ainda não tinha tido necessidade de fazer uma trabalho a solo. Mas o facto de estar envolvida em tantos projetos musicais diferentes fez surgir a curiosidade em saber que tipo de música era a da Celina…
– E a resposta está neste disco? É esta a sua identidade?
– Sem dúvida. Este disco soa exatamente ao que eu queria que soasse. Ouço o meu disco com muito gosto. A música é uma explosão maravilhosa na minha vida e acho que isso se nota no meu disco.
– No disco pode ler-se: “Ao meu amor Alexandre Gaspar, o melhor companheiro. Obrigada pelo teu empenho e pelo entusiasmo. Sem ti não havia nada disto.” Ter o seu companheiro a trabalhar consigo é mais um fator de segurança?
– Sim, tenho a sorte de o Alexandre trabalhar comigo. É um trabalho que me consome muito tempo, no qual é preciso objetividade, e é mais fácil se formos dois. Eu preocupo-me com a parte musical e artística, ele ajuda-me na gestão da minha agenda, nos pormenores. Corre muito bem.
– Presumo que trabalhem juntos muitas horas por dia. Não se fartam?
– Sim, passamos muitas horas juntos, mas isto para mim não é bem um trabalho, é uma forma de viver, uma filosofia de vida, e felizmente para ele também, o que facilita tudo. Por exemplo, é um prazer transformar a sala de estar lá de casa em sala de música e para o Alexandre isso é claríssimo!
– No disco faz também um agradecimento ao Sá…
– É o filho do Alexandre. Tem quatro anos e adora ouvir-me tocar e cantar. Ele é também uma grande fonte de inspiração.
– O apoio do Rodrigo Leão fê-la sentir-se mais confiante para editar?
– Obviamente, e era uma das condicionantes para eu fazer este disco, pois sempre contei com os conselhos dele.
– Como é que aconteceu o vosso feliz encontro?
– Foi uma sorte, na verdade, foi sem dúvida um dos momentos mais felizes da sua vida Por eu tocar num ambiente da música folk, da música tradicional, tínhamos amigos em comum e a certa altura o Rodrigo precisava de um acordeonista e deram-lhe o meu contacto. Pareceu-me perfeito, porque de certa forma eu conhecia tão bem a música dele que tinha noção do que ele queria.
– De acordeonista passa também a cantar um dos temas mais conhecidos do Rodrigo Leão, Pasión…
– Eu nem sequer tinha o hábito de cantar. Só quando tirei a carta de condução é que me aventurava a cantar nas viagens entre Évora, onde estudava, e Setúbal, onde vivia… [risos] Cantava essa música nos ensaios porque nos espetáculos era geralmente um músico convidado que o fazia. Um dia não havia artista e o Rodrigo convidou-me. Como raramente digo não a um desafio, fi-lo com muito orgulho.