Raramente dá entrevistas, mas para a CARAS José Costa Reis abriu uma exceção e recebeu-nos em sua casa, na Graça, em Lisboa. Durante uma manhã, o reconhecido pintor, cenógrafo e figurinista partilhou connosco histórias de uma carreira de quase 50 anos e falou-nos do seu maior projeto de vida, ser pai, e do orgulho que tem no filho, o ator Paulo Rocha. Mas como o pretexto desta ‘visita’ foi o seu trabalho no espetáculo Portugal à Gargalhada, de Filipe La Féria, José também nos levou ao Politeama, onde nos mostrou alguns dos 250 fatos que desenhou para esta produção.
– Raramente dá entrevistas. Quase toda a gente conhece o seu nome, mas não a si…
José Costa Reis – Pois, esta foi uma exceção, sobretudo porque acho que também tenho o dever de promover este grande espetáculo, o Portugal à Gargalhada. Não que ele precise que eu o promova, porque é realmente muito bom… Eu não gosto muito de aparecer e cada vez menos, acho que a partir de uma determinada idade o melhor é estar quieto e sossegado e prefiro que o meu nome seja mais conhecido do que eu próprio. Eu adoro isso, é excelente andar na rua e não ser reconhecido. Mas o curioso é que quando vou ao Porto muita gente me aborda na rua a dizer que conhece o meu trabalho. Aqui em Lisboa acho que isso me aconteceu umas duas vezes.
– Mas seja em Lisboa ou no Porto, sabe que é uma referência na sua área…
– Surgiu uma onda, há cerca de um ano, de toda a gente me tratar por mestre. O que quer dizer que estou a ficar velho [risos]. Acho é que não há muitos termos de comparação, infelizmente. Há poucas pessoas a trabalhar nesta área e também há poucos espetáculos que se possam dar ao luxo de investir numa grande produção. Os materiais custam muito dinheiro, as pessoas têm de ser pagas e demora tempo. Achei que a partir de determinada altura não deveria fazer certas coisas, nomeadamente estar a pintar fatos. Podia pintar um, mostrar como é que se faz… mas nós não podemos fazer só aquilo que é da nossa competência quando é preciso fazer. É o nosso nome, o nosso trabalho, que está em jogo, por isso, se é preciso pintar seis saias de bailarina mais duas para as atrizes, pinto. Por exemplo, neste espetáculo do Filipe La Féria tenho em cena 250 fatos.
– E desenhou-os todos…
– Sim, desenhei-os todos, acompanhei as provas de toda a gente, de bailarinos a primeiras figuras, não vai ninguém para cena que eu não veja e ponho o mesmo empenho em todos.
– Ainda se lembra do primeiro espetáculo que fez?
– Sim, foi feito em 1967 e estreou em 1968, chamava-se Amor 68. Só desenhei os figurinos, não me lembro de pormenores…
– E ao fim de tantos anos a trabalhar nisto, ainda faz as coisas com o mesmo gozo?
– Não se pode fazer de outra maneira, tem de se fazer sempre com o mesmo empenho e entusiasmo, porque cada espetáculo é diferente e depois é muito agradável quando nos sentamos e olhamos para o resultado. Estas profissões da área artística têm de ser encaradas com prazer, paixão, entrega, muito empenho e dedicação total. Por exemplo, um espetáculo destes tem tudo: colares, sapatos, brincos, lacinhos, gravatas, faixas, chapéus… Quando digo 250 figurinos, refiro-me ao conjunto completo, porque se multiplicarmos isto por peças… nem lhes fiz a conta. Tem de ser mesmo por amor.
– Um amor sem o qual não se consegue imaginar? Não pensa parar, deixar de trabalhar?
– Acho muito difícil. Para mim, descansar é fazer outra coisa, é pintar, é fazer coisas para esta casa… Oitenta por cento das coisas que estão aqui foram feitas por mim: bibelôs, quadros, peças… Também restauro peças degradadas. Tenho de estar sempre a fazer qualquer coisa. Acho que é uma grande maçada não fazer nada. Os chineses dizem uma coisa fantástica: “Ocupar as mãos para libertar o espírito.” E acho que grande parte da minha sanidade mental e boa disposição se devem a esta ocupação, de ter a sorte de fazer as coisas de que gosto e estar sempre disponível para ajudar gente mais nova. Não temos de guardar as coisas só para nós, gosto de partilhar tudo, sobretudo aquilo que sei. Todos os dias tenho pessoas a telefonarem-me a perguntarem-me coisas, onde se vende isto, como se arranja aquilo…
– Ser pai é o maior projeto que pode ter…
– Ser pai é uma coisa que acrescenta coisas impensáveis à vida e é uma tarefa para sempre. Apesar de o Paulo estar no Brasil, não estamos afastados, falamos muitas vezes. E ainda hoje ele não vai a lado nenhum, a uma inauguração, a uma estreia, que não me telefone pelo Skype a perguntar que sapatos deve levar, que gravata fica melhor, se vai de fato ou em mangas de camisa. Ele está agora a fazer a novela da Globo Império, onde faz de um pintor que falsifica quadros, e veio uma semana para aqui aprender comigo, para saber como se mexe nos pincéis, como se mexe as tintas, a postura junto aos quadros e aos cavaletes. Foi muito giro, passámos aqui uma semana muito engraçada.
– Quer que ele volte para Portugal?
– Tenho imensas saudades dele, mas o melhor para ele é ficar por lá. Preferia, claro, que tivesse uma carreira aqui, mas não há condições para isso. O Paulo aqui nunca teve um contrato. Chegou à Globo como ator convidado, fez uma novela e a seguir fizeram-lhe logo um contrato. E a Globo não faz favores, não é por ele ser giro e ter uns olhos bonitos que quiseram ficar com ele. Tenho muito orgulho nele.
– Conhecendo este meio artístico como conhece, tentou ajudá-lo ou deixou que ele conseguisse as coisas por si?
– Ele fez sempre tudo sozinho. Nem sequer tenho influências para isso nem sou pessoa para pedir favores. Ajudei naquilo que podia enquanto pai, dando opiniões, encorajando-o e protegendo-o.
José Costa Reis: “Gosto de partilhar tudo, sobretudo aquilo que sei”
O figurinista, cenógrafo e pintor recebeu a CARAS na sua casa na Graça, em Lisboa.