Ruy de Carvalho é, para muitos, um verdadeiro senhor em cima do palco. E, permita-nos o leitor alguma parcialidade, também o é na vida de todos os dias. Oferece sempre dois beijinhos e palavras simpáticas a quem o aborda, mostrando uma doçura e humildade que não foram beliscadas pelo sucesso. Sem tiques de vedetismo – que, se os tivesse, até poderiam ser justificados pelos prémios, honras e condecorações que conquistou ao longo dos seus 75 anos de carreira –, assume ser um ator imperfeito, que acerta hoje mas que pode falhar amanhã. Não tendo nada a provar, o ator continua a dar, em cada trabalho, o melhor de si: chega a horas e com o texto na ponta da língua, procurando todos os dias ser merecedor do que lhe alimenta a alma: as palmas.
Fora dos palcos, Ruy de Carvalho também tem sido o protagonista de momentos felizes. Ao lado da mulher, Ruth, que morreu há nove anos, viveu uma história de amor de mais de seis décadas, da qual nasceram João, de 62 anos, e Paula, de 57, três netos e uma bisneta. Apesar de já não ter a mulher fisicamente ao seu lado, o ator mostra que a viuvez é mais uma fase do amor, na qual as memórias e a esperança num reencontro se tornam as companheiras de todas as horas.
Aos 90 anos, Ruy continua o seu caminho rumo ao futuro, levando na bagagem o menino de 18 anos que assegura ter dentro de si. Mas terminemos as ‘sinopses’ – que serão sempre vagas para resumir 90 anos de vida – e deixemos o ator, o homem, o marido, o pai e o amigo entrarem em cena.
– Com que estado de espírito chega aos 90 anos?
Ruy de Carvalho – Com o espírito de 18. Sinto que tenho 18 anos e não abdico desse menino que tenho cá dentro. Fisicamente já não tenho essa idade, mas espiritualmente, sim.
– E é fácil manter essa jovialidade? Ou é algo que dá trabalho?
– Convenço-me a mim próprio de que tenho essa idade. Sei que a morte é certa, mas deram-me uma vida para viver e não posso desistir dela. Se posso viver em favor dos meus semelhantes, faço-o. Sou um homem do espetáculo e adoro a minha profissão, o que torna tudo mais fácil. Costumo dizer que sou um amador profissional. E é isso que me tem ajudado a chegar aos 90 anos.
– Continuar a trabalhar tem sido fundamental para se manter tão bem?
– Trabalho, porque me chamam. Tenho uma memória muito boa e uma voz que não é tão velhinha quanto isso. Já não tenho medo de entrar num palco, já não sinto aquela ansiedade, mas continuo a ter muito respeito pelo meu trabalho e pelos meus semelhantes. Gosto de cumprir aquilo que me pedem. E faço tudo com humildade. Sou uma pessoa humilde e isso não tem que ver com subserviência.
Leia esta entrevista completa na edição 1126 da revista CARAS:
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