
Emocionada, Catarina Furtado apresentou no CCB, em Lisboa, a quinta temporada de Príncipes do Nada, o programa que já a levou a dar a volta ao mundo e que desta vez retrata refugiados e migrantes na Grécia, Líbano, Bangladesh, Uganda e Colômbia. “Nada do que eu tinha lido como trabalho de casa me preparou para o que testemunhámos. Esta é, sem dúvida, a minha missão de vida, e agora percebo o quão faz sentido eu estar na área da comunicação. Mas esta série foi a mais difícil de todas. Foi muito doloroso e houve até histórias e momentos que testemunhámos e nem sequer filmámos… Temos sempre cuidado, em momentos dramáticos, de dor profunda, de tendencialmente proteger, porque não queremos tirar àquelas pessoas um bem tão precioso como a dignidade”, desabafou a apresentadora, um ano depois de ter feito esta viagem, que assume como particularmente marcante, “porque estamos a falar de pessoas como nós, com profissões como as nossas, que tinham um teto, um emprego, uma família, e, de repente, tiveram de fugir do seu país. Nós somos muito mais parecidos com aquelas pessoas do que possamos pensar. Nunca mais esquecerei os relatos das viagens que fizeram até chegar à Europa. Pagaram a traficantes, foram abusados, sofreram fome e sede, viram morrer companheiros no alto-mar e agora eu e a minha brilhante equipa comprometemo-nos através desta série a ecoar os seus apelos”.
Gerir as emoções durante as viagens que fez também não foi fácil: “É sempre difícil controlar o que sentimos no terreno, porque estamos perante as pessoas, e aprendi desde cedo a disfarçar o que sinto, embora por vezes não o consiga fazer. Chorei muito com estas pessoas, ri muito, abracei muito, quando ainda era possível fazê-lo, todas elas. Nem inglês quase falavam, mas comunicávamos muito. E em todos os momentos eu senti verdadeira empatia e senti o respeito que eles tinham pelo meu trabalho.”
Por causa da quarentena, foi em casa que a Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População editou metade desta série de programas, o que fez com que tenha tido de repartir o seu trabalho com a telescola dos filhos, Maria Beatriz e João Maria, de 14 e 12 anos, respetivamente, mas também tido a oportunidade de lhes mostrar mais detalhadamente o que estava a fazer: “Trabalhei nas horas da telescola e à noite, foi muito exigente, mas deu-me a oportunidade de lhes mostrar algumas coisas no computador. Acho que eles entendem muito bem aquelas realidades. Aquilo que me custa é que, por mais que mostremos aquelas dores no ecrã, jornais ou revistas, quem lê ou quem vê nunca vai sentir exatamente a intensidade do sofrimento destas pessoas.”
A apresentadora acredita que após a pandemia as pessoas consigam olhar para este projeto de outra forma e com mais proximidade. “É evidente que há uma profunda crise na economia, há medo por causa da saúde, mas grande parte das pessoas tem um teto e aquelas pessoas nem sequer isso têm. Por isso acredito que agora, que as pessoas perceberam como tudo é tão volátil, haja uma empatia e solidariedade maiores. Este mundo só se vai endireitar – e acredito que a Covid tenha trazido um pouco essa mudança – se realmente vivermos em sociedades em que as pessoas sintam compaixão pelo outro. O vizinho do lado somos todos nós”, frisou ainda Catarina.