As mudanças já começaram a acontecer, mas, ao contrário do que é habitual, o destino não será o número 1 do Observatory Circle, a casa que acolheu sete vice-presidentes e respetivas famílias desde 1970, incluindo o próprio Joe Biden. Construída em 1893, a mansão está a ser alvo de profundas remodelações, pelo que Kamala Harris terá de esperar algum tempo antes de se mudar para aquele espaço. Até lá, a recém-eleita vice-presidente dos EUA e o marido, Doug Emhoff, ficarão a morar em Blair House, situada mesmo em frente à Casa Branca, onde agora vivem o presidente Joe Biden e a mulher, Jill Biden.
A fachada, de linhas discretas e harmoniosas do número 1651 da Pennsylvania Avenue esconde, na verdade, um autêntico tesouro, já que o seu interior está recheado de livros, quadros e artefactos que contam o que se viveu para lá das suas paredes nos últimos séculos. Enquanto se percorre as suas mais de 120 divisões, distribuídas por quase 70.000 m², fica-se a conhecer um pedaço da história do país, já que cada uma delas tem uma história especial. A Sala Lincoln, por exemplo, foi concebida em homenagem ao antigo presidente com o mesmo nome, que ali passou muitos serões à conversa com o então proprietário.
Atualmente, conta com uma área maior do que a própria Casa Branca, mas Blair House resulta, na verdade, da interligação de quatro casas datadas do século XIX. Desde a sua construção original, a propriedade já passou por inúmeras alterações significativas, tanto no exterior como no interior, mas manteve sempre o seu cariz histórico. Desenhada em 1824, por um arquiteto cuja identidade se desconhece, para o cirurgião do Exército Joseph Lovell, a casa deve o seu nome ao seu segundo proprietário, o jornalista Francis Preston Blair, que a adquiriu em 1837. Influente conselheiro e confidente do presidente Andrew Jackson e de vários presidentes que se lhe seguiram, Blair fez da sua casa local de reuniões e tertúlias com decisores políticos.
Foi em 1942, durante a presidência de Franklin Roosevelt, que a casa foi adquirida pelo Governo americano, passando a ser, desde então, a residência oficial para os convidados dos Presidentes dos EUA, sobretudo chefes de Estado estrangeiros, sendo, precisamente, também conhecida como a Casa dos Convidados do Presidente.
Nela já ficaram hospedados diversos membros da realeza, diplomatas e políticos de todo o mundo, como a rainha Isabel II de Inglaterra, a antiga primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, o presidente russo Vladimir Putin ou o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau. Como sinal de hospitalidade, a bandeira americana hasteada na fachada é substituída pela bandeira do país dos convidados durante a sua estada. É também nesta mansão que vários presidentes eleitos dos EUA têm passado a noite que antecede a tomada de posse, tal como aconteceu com o recém-eleito Joe Biden. A proximidade da Casa Branca faz dela também o espaço ideal para receber as mais diversas personalidades após o funeral de um presidente. Foi George W. Bush quem permitiu que as antigas primeiras-damas Nancy Reagan e Betty Ford ali permanecessem depois dos funerais de Estado dos seus maridos, os antigos presidentes Ronald Reagan e Gerald Ford.
Durante esta estada temporária neste edifício, Kamala Harris certamente aproveitará para viajar pela infindável coleção de livros que compõe a biblioteca, situada no segundo andar do edifício, projetada em 1920 por Charles Over Cornelius, curador assistente de artes decorativas do Metropolitan Museum of Art, e deixar-se-á conquistar pela história contada através do espólio ali exposto, um terço comprado pelo governo à família Blair, e que inclui quadros, tapetes, mobiliário, objetos em prata e peças de porcelana chinesa de valor incalculável.