A escritora partilha um excerto do seu mais recente livro, cuja distribuição tem sido adiada por causa do confinamento. Nesta obra, uma mulher e um homem tentam reinventar-se enquanto mergulham no intrincado e complexo mundo dos afetos.
“Pouco importa se testemunharam a vida um do outro em pleno, sabiam que não era possível abarcar essa totalidade, tentaram construir um território só deles, o país natural daquele casamento. E eram felizes. Ninguém gostava que fossem felizes, as pessoas invejam o que não têm, especulam sobre a pretensão de felicidade dos outros e julgam-na, ferozes e implacáveis, numa interrogação irónica, será que merecem ser felizes?, aquilo deve ser só fachada, o amor não dura tanto, o que é isso, o amor, sabes? Da mesma maneira que se tinham congratulado com a nova do seu namoro e consequente casamento, as pessoas estranhavam agora a felicidade, as mãos dadas, a capacidade de estarem um com o outro sem queixas. Não era natural, o amor esvai-se, para mais neste século de velocidades estonteantes e outros males. E eles mantinham-se dentro da bolha que tinham criado, indiferentes aos outros, protegidos dessa imensa, putativa maldade. Só isso.”
(in “Da Meia-noite às Seis”, D. Quixote)
“Escolhi esta passagem do meu novo romance por ser aquela que explica melhor o amor entre uma das personagens principais e o seu marido. O mais usual é o desgaste dos casamentos, na minha história o amor prevalece e é feliz, logo incompreendido. Muitas vezes as relações dos outros surgem-nos com estranheza, distantes das nossas. Podemos invejar ou podemos admirar. Neste caso, as personagens chegaram tarde ao amor, com experiências prévias, mas o encontro mais importante das suas vidas é o que lhes permite construir uma relação única, cúmplice. O facto de se amarem tanto é o que desgoverna a vida da personagem, já que o marido lhe morre e a vida, estranhamento, continua.
Patrícia Reis
Aos 50 anos, a escritora é uma das vozes femininas mais seguras no panorama literário nacional. Além dos seus romances e biografias, a autora também se tem dedicado à literatura infanto-juvenil.