A lista de nomeados para a 93.ª edição dos Óscares já foi divulgada, e Viola Davis, de 55 anos, está muito bem posicionada para, na noite de 25 de abril, receber o galardão de Melhor Atriz, pela sua interpretação forte em Ma Rainey: A Mãe do Blues. Não será a primeira estatueta da sua carreira, pois em 2017 a personagem Rose Maxson, de Vedações, valeu-lhe o Óscar de Melhor Atriz Secundária. E com esse troféu, que juntou a um Emmy (pela série Como Defender Um Assassino) e a dois prémios Tony, tornou-se a primeira afro-americana a alcançar o Triple Crown of Acting, ou seja, o mais valorizado trio de prémios na representação.
Voz ativa contra o racismo nos Estados Unidos, embaixadora da linha Age Perfect da L’Oréal Paris, capa da People, da Vanity Fair e de muitas outras publicações, esta atriz multipremiada tem vindo a quebrar estereótipos em Hollywood com a consciência de que há ainda um longo caminho a percorrer no que toca à igualdade de salários e oportunidades entre atrizes brancas e negras. “Tenho uma carreira provavelmente comparável à de Meryl Streep, Julianne Moore e Sigourney Weaver. Todos elas vieram de Yale, de Juilliard ou da NYU. Seguiram o mesmo caminho que eu e, no entanto, não estou nem perto delas, nem em termos de dinheiro, nem em oportunidades de emprego”, declarou numa entrevista que acabou por se tornar viral.
Antes da cerimónia dos prémios da Academia, Viola Davis, que é casada desde 2003 com o ator Julius Tennon, com quem adotou uma filha em 2011, Genesis, que tem agora 10 anos, vai ser homenageada pela Associação Afro-Americana de Críticos de Cinema com o Icon Award, no próximo dia 7 de abril. Mas a vida desta mulher, que atualmente tem uma fortuna estimada em cerca de 16 milhões de euros, nem sempre foi um mar de rosas.
Filha de Dan Davis, tratador de cavalos, e de Mary Alice Davis, empregada doméstica e fabril, Viola Davis nasceu e passou parte da sua infância em Saint Matthews, na Carolina do Sul, num barracão inserido numa antiga fazenda de escravos, sem água corrente nem casa de banho. Não é uma época da qual guarde propriamente boas recordações, mas quando fez 55 anos, em agosto último, decidiu comprar essa mesma casa para dar vida ao local onde começou a sua história, como partilhou nas redes sociais. Se nessa altura passava fome e vivia em situação de extrema pobreza, não sente que a sua vida tenha melhorado muito quando se mudou com os pais e os cinco irmãos, John, Dianne, Deloris, Anita e Danielle, para Central Falls, em Rhode Island, onde, pela primeira vez, sofreu na pele o racismo. “As memórias mais fortes que tenho da escola são os insultos e as agressões”, relatou em 2017, durante um congresso para mulheres, em Boston, referindo-se ao facto de a sua ser a única família negra naquela cidade. Nessa mesma altura, Viola partilhou de forma crua as dificuldades por que passou na infância: “O meu pai era alcoólico e havia muita violência doméstica. Por causa disso, fiz xixi na cama até os 14 anos e, por não termos água, nem eu tomava banho, nem as roupas de cama eram lavadas.”
A infância extremamente difícil não impediu um percurso académico de sucesso, e uma bolsa fê-la rumar a Nova Iorque para estudar dramaturgia na prestigiada Juilliard School. Na altura, esta jovem resiliente sabia já como queria traçar o seu percurso: “Cresci na pobreza, em casas infestadas de ratos. Eu sempre quis ser alguém. Só queria ser boa em alguma coisa.” Pode dizer-se que superou as próprias expectativas.