O filme Cidade Lúcida, do realizador alemão Adrian Stölzle, começa por apresentar Benvindo Fonseca, de 57 anos, como um ser “mágico”. E muitos que o viram dançar dizem o mesmo. Primeiro bailarino do Ballet Gulbenkian, o rapaz moçambicano exibia corpo, talento, paixão, técnica e genialidade, todas misturadas sem contenção alguma, deixando quem o via num limbo entre o real e o transcendente, siderado em tamanha exuberância.
Entre os aplausos aqui e além-fronteiras, o bailarino debateu-se com uma lesão que o deixou com dores permanentes, fazendo um esforço sobre-humano para estar à altura das expectativas. Estas conquistas, fragilidades, alegrias e desilusões são contadas agora neste filme biográfico, ora na primeira pessoa ou nas vozes de amigos e familiares que têm acompanhado Benvindo ao longo do seu percurso.
“Quis partilhar toda a minha resiliência, uma atitude que tem dado sentido à minha existência. Quando quiseram fazer este filme, pensei que seria uma coisa para o ego, mas depois percebi que poderia ser muito mais do que isso. A minha resiliência mostra que não podemos desistir, por maior que seja a dor. Vencedor não é aquele que ganha, é aquele que não desiste. O Adrian teve uma enorme sensibilidade, porque me exponho muito neste filme. Sinto-me humilde e só agradeço as palavras tão bonitas que dizem sobre mim”, partilhou o antigo bailarino e coreógrafo momentos depois da apresentação deste filme.
Neste final de tarde feito de homenagens, memórias e emoções, Benvindo Fonseca surpreendeu a plateia do grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian e, embalado pelo tema Amazing Grace, subiu ao palco a que chama casa. Num outro ritmo, fechou os olhos e fez aquilo que o seu corpo dita: dançou. A ovação chegou logo a seguir, com os presentes a recordarem-se de como a “magia” não tem idade. “Sinto muito orgulho. Foi sempre maravilhoso ver o meu filho dançar com alegria, deixando todos contentes com a sua apresentação”, assegurou Benvindo Fonseca, pai do antigo bailarino. Também a sua irmã Euridice salientou a emoção que sente sempre que Benvindo sobe ao palco: “Tenho o privilégio de acompanhar toda a sua carreira. Sempre que o vejo dançar, choro de alegria. É um artista que levanta o público. Ele é mesmo uma criatura mística. Somos muito unidos, estamos sempre juntos.”
Amigos há vários anos, Nayma Mingas nem sempre consegue encontrar palavras para descrever o coreógrafo que, no palco e fora dele, encanta quem com ele se cruza. “Somos amigos há mais de 20 anos e é uma das pessoas mais especiais da minha vida. É daqueles irmãos que a vida me deu. Também acho que há um lado místico nele, quando nos encontramos parece que estamos em África, nos quintais das nossas casas a falar sobre a vida. Sinto-me mesmo muito feliz e grata por o ter ao meu lado”, revelou a antiga manequim à CARAS.