
É costume dizer-se que os atores são egotistas por natureza, olham mais para si do que para os outros e fascinam-se, ou não, com o que veem ao espelho. Para Isabel Abreu, de 43 anos, “o outro” é um seu semelhante, a quem escuta e com quem aprende, um “outro” que se reflete na tal imagem que vê ao espelho e com a qual faz contas quando se deita todos os dias. Há em si uma inquietação que não a deixa acomodar-se, sabendo que no seu bairro, na sua rua, há alguém que não é visto nem ouvido. Foi por olhar para o outro lado da sua janela e ver uma sem-abrigo que pedia na rua, por se questionar como esta mulher, de quem se tornou amiga, faria a sua higiene menstrual, que surgiu o #todasmerecemos, projeto solidário e ativista que está integrado na associação Corações com Coroa e combate a pobreza menstrual, promove a sustentabilidade e a educação de todos para a realidade menstrual.
Se na vida a atriz resiste e vai contra a corrente, na representação também não se demite de olhar para o lado e intervir, vendo a arte como um palco privilegiado para a reflexão e para o debate, partilhando o seu protagonismo com quem fica tantas vezes na sombra. E é neste equilíbrio entre a denúncia e a generosidade, a ribalta e os bastidores, a intervenção e o espaço do silêncio, que se vai fazendo gente e dando corpo e tanta alma à arte que a apaixona.
Numa manhã passada no “outro lado” do Teatro Nacional D. Maria II, onde esteve recentemente com a peça O Cerejal e em cujo canal de YouTube se pode visualizar o seu Diário da Peste, um projeto audiovisual que criou a partir dos textos que Gonçalo M. Tavares publicou no jornal Expresso no ano passado, Isabel Abreu fez-nos uma visita guiada pelos corredores, camarins e outros bastidores do teatro, dando espaço na conversa para o que está por detrás da forma como olha o mundo e o palco.
Uma entrevista para ler na edição n.º 1377 da revista CARAS