A pandemia afetou muitos setores, sendo o da cultura um dos que mais sofreram. A recuperarem aos poucos da hecatombe, os profissionais das várias áreas erguem-se e mostram que estes dois anos não lhes roubaram o talento nem a vontade de se darem ao público.
Querendo mostrar o que de melhor se faz na área da dança no nosso país, Miguel Esteves, na curadoria artística, e Manuel Santana Lopes, na produção, juntaram-se a uma equipa de técnicos, bailarinos e coreógrafos e levaram ao palco do Salão Preto e Prata, no Casino Estoril, a Gala Solidária de Dança, cujas receitas, 11 mil euros, reverteram para a União Audiovisual. “Temos talento, mas não existem muitas oportunidades para mostrar o nosso trabalho. Devemos apostar mais na cultura e fazer com que a arte, neste caso a dança, chegue a mais pessoas. As galas são boas, porque mostram muitos estilos num só espetáculo, como aconteceu hoje. Tivemos o neoclássico, o contemporâneo e o clássico”, explicou o curador, bailarino e coreógrafo Miguel Esteves, que deixou ainda a “solução” para se levar mais pessoas aos espetáculos: “O problema começa na educação. Temos de levar as novas gerações aos espetáculos e a ver dança. E alargo isto ao teatro, aos museus e ao cinema. Só assim se consegue fazer de Portugal um país de cultura. Trabalhei durante 10 anos lá fora, onde os teatros estão sempre lotados. Depois, temos de estimular a curiosidade, trazer as pessoas, porque quando vêm, gostam.”
Apresentando peças muito distintas, o público vibrou com os bailarinos que subiram ao palco nesta noite solidária. Carlos Pinillos e Filipa de Castro, Miguel Santos, Miyu Matsui e Francisco Sebastião, da Companhia Nacional de Bailado, Catarina Casqueiro e Tiago Coelho, Beatriz Graterol, Fernando Queiroz, Inês Godinho, Margarida Carvalho, Mariana Matos e Pedro Alves, do Quorum Ballet, Andreia Mota e Ricardo Henriques, Mar Escoda e Jurgen Rahimi, da Companhia Nacional de Bailado, Ana Isabel Casquilho e Jayson Syrete, do Augsburg Ballet, Inês Moura, Francisco Couto, Anyah Siddall, Frederico Loureiro, Ricardo Henriques, Nanae Yagisawa, Maria Barroso, Leonor Jesus, Patrícia Main, Paolo Ciofini, Raquel Fidalgo, da Companhia Nacional de Bailado, deram corpo e movimento a coreografias que emocionaram a plateia ao longo de, sensivelmente, duas horas.
Diretamente de Londres, Marcelino Sambé, português que chegou a bailarino principal do The Royal Ballet, subiu ao palco para dar corpo e movimento a um Requiem, coreografado por Kenneth MacMillan. Numa mistura de talento, emoção e técnica, Marcelino mostrou porque é considerado um dos melhores bailarinos do mundo. “Quando chego a Lisboa, sinto-me mais natural e autêntico. Poder fazer um solo tão religioso foi a escolha perfeita para dizer obrigado ao público português, que tem sido o meu suporte desde o início da minha carreira. Voltar a Portugal é sempre gratificante”, contou o bailarino no final do espetáculo.
A conduzir esta gala esteve Catarina Furtado, antiga bailarina que tem na dança e na solidariedade dois dos grandes pilares da sua vida. “Sinto que na família da cultura a dança é aquela que mais sofre, por não ser apoiada ou promovida. Dancei durante muitos anos e também quis ser coreógrafa. Assisti à saída do país de muitos bailarinos e coreógrafos, sobretudo depois do encerramento do Ballet Gulbenkian. Com a pandemia, ficou tudo pior. Acho esta ideia de se fazer uma gala solidária muito generosa. Estes 11 mil euros vão ser muito bem aplicados”, assegurou a apresentadora, que nesta noite de dança e beleza recordou os seus tempos de bailarina e a importância que a dança continua a ter na sua vida: “Entrei com nove anos no Conservatório, saí com 17. Era muito tímida e a dança acabou por ser um elemento impulsionador para ter uma relação mais saudável com os outros. Também me deu confiança e autoconhecimento. A dança ensinou-me a ouvir o meu corpo. Deu-me autoestima e estimulou a minha sensibilidade, aprendi a comunicar só com o corpo. Deu-me a capacidade de estar mais atenta aos outros e de destruir qualquer preconceito em relação ao corpo e ao toque, trouxe essa facilidade em tocar e agarrar as pessoas. Depois, deu-me disciplina. A dança será sempre a minha primeira e eterna paixão. Danço todos os dias, em minha casa, antes de ir para o palco, nos camarins, estou sempre a dançar. Quando tenho um problema, vou dançar para pensar na solução.”
Fotos: Paulo Jorge Figueiredo