
Especialista em cirurgia estética, Tatiana Gigante formou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa. Hoje dá consultas de cirurgia plástica e estética em várias clínicas de Lisboa, é assistente hospitalar de cirurgia plástica, reconstrutiva, estética e maxilofacial no Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental e exerce ainda cirurgia privada noutro hospital. Recebeu-nos na Quantum Global Care, em Lisboa, uma clínica que faz uma abordagem holística do paciente, combinando a medicina estética e a cirurgia plástica com a medicina regenerativa, mas também a prática de ioga e um ginásio, entre outras valências. Direcionámos a conversa para alguns métodos de harmonização facial.
– Os tratamentos estéticos começam a ser procurados cada vez mais cedo?
Tatiana Gigante – Sim, há uma procura cada vez maior em idades mais jovens e acaba por haver resultados mais alcançáveis nessa fase.
– Qual seria a idade ideal para procurar cuidados como a harmonização facial?
– É muito variável, cada pessoa é única. Por vezes perguntam-me: “O que é que mudava em mim?” Respondo sempre que não mudava nada, pergunto antes o que é que incomoda a pessoa. Há pessoas que têm sulcos ou rugas mais marcadas aos 30 e outras que aos 40 ainda não os têm. Em vez de uma idade ideal, diria que a pessoa pode procurar ajuda quando estas coisas começam a causar desconforto, quando afetam a autoestima, a saúde mental. Quando nos olhamos ao espelho e só vemos isso, esse será o momento de intervir. E atualmente também há uma grande pressão social, por isso há a tendência para as pessoas procurarem tratamentos que atuem de forma preventiva, sobretudo não-invasivos ou minimamente invasivos. Apesar de eu ser cirurgiã e me dar muito prazer operar, sou muito apologista de que tudo o que for possível corrigir, realçar, rejuvenescer ou retomar de forma não-invasiva é para essa solução que devemos avançar.
“Os cremes com ácido hialurónico não têm GPS. A agulha tem. Mas são bons complementos de tratamento.”
– E quais são as técnicas mais utilizadas numa situação em que a pessoa não quer ainda submeter-se a uma cirurgia?
– Uma das mais utilizadas é a injeção de toxina botulínica, vulgo botox, uma neurotoxina que vai bloquear de forma transitória, temporária e parcial os músculos que nos fazem rugas.
– Foi por isso que ganhou um bocadinho de má fama, porque se diz que faz perder a expressão natural.
– Por isso é que cada vez mais as dosagens são aplicadas de forma a que não haja uma alteração da expressão, das feições, mas que permita um rejuvenescimento natural, em que há movimento, há expressão, mas a ruga não continua a aprofundar.
– É quase como se houvesse uma paragem no tempo.
– É. Porque, normalmente, dura quatro a sete meses, e eu costumo dizer que para além de nessa altura a pessoa estar rejuvenescida, porque a pele relaxa, a ruga abre e muitas vezes desaparece, nesses meses a ruga não aprofunda. Outra das características do processo de envelhecimento é a perda de volume e desidratação. Há uma perda de elasticidade, ganha-se flacidez, e há também uma perda do suporte dos ligamentos profundos que vai levar a uma queda dos tecidos. Isto porque a gravidade tem impacto e nós passamos dois terços do dia de pé e o outro terço deitados. Costumo dizer a brincar que nunca estamos a fazer o pino, que iria contrariar essa ação da gravidade. Quando olhamos para fotos antigas, vemos que tínhamos mais volume nas maçãs do rosto, por exemplo, e aí entra, não o botox, mas o preenchimento com ácido hialurónico,uma substância que existe no nosso corpo, sobretudo no tecido conjuntivo, na pele, articulações e olhos e que vamos repor, voltando a volumizar áreas que estiveram mais preenchidas. Dependendo da coesividade do gel, pode ter um efeito de lift nos mais espessos ou de realce nos mais finos, como o contorno dos lábios, o preenchimento das rugas, das olheiras. O efeito pode durar entre seis a 12 meses.
– Tudo isto são tratamentos não-invasivos que não implicam cirurgia.
– Certo. A pessoa sai do consultório e faz a sua vida normal, pode ficar com pequenas equimoses no sítio da injeção, mas por norma não acontece. É importante referir que no botox só vemos o efeito passadas 48 horas e geralmente atinge o efeito final ao fim de dez dias. Nessa altura é feita uma reavaliação, para saber se é necessário algum retoque. Até porque a nossa cara não é simétrica e por vezes é preciso um ajuste. Prefiro pecar por defeito do que por excesso. São raras as pessoas que me pedem aquela testa que não mexe. Eu não gosto e já me recusei, porque não é natural nem bonito. E envelhecer faz parte. Um dos grandes problemas da área da estética em geral, não só cirúrgica, são as expectativas irrealistas. Nas consultas procuro que haja um compromisso entre ambas as partes. Hoje em dia os filtros da internet, as imagens do antes e depois, podem criar expectativas irrealistas.
“Hoje fazem-seintervenções em esteticistas, cabeleireiros… Já vi pessoas desfiguradas.”
– Passa-se uma ideia de perfeição que não existe na Natureza.
– Inclusivamente, segundo os princípios que estudamos na estética, se fizermos uma cara perfeita, com as dimensões perfeitas, não é bonita nem aprazível. E há também o caso das pessoas que fazem um tratamento e depois querem mais e mais. É importante o profissional que está deste lado saber dizer não. Mesmo em termos cirúrgicos, se eu sei que são procedimentos que podem dar complicações a médio prazo, recuso-me a fazê-los.
– Falou do preenchimento dos lábios, que tem ganho muito adeptos. Tem contraindicações? Aplica-se a qualquer pessoa?
– Aplica-se a qualquer pessoa e pode cumprir três objetivos: desenhar o lábio, e aí faz-se a aplicação no contorno, dar o volume que o lábio foi perdendo e hidratar. Contraindicações só em pessoas que têm problemas de hipercoagulabilidade, que têm maiores riscos de fazer equimoses ou hematomas. E no caso de pessoas que já tiveram várias infeções por herpes é preciso fazer um tratamento prévio, para não desencadear outro episódio. Mas contraindicações propriamente não tem, uma das razões é por ser feito com ácido hialurónico, que ganhou muita reputação entre a comunidade científica, já que é reabsorvível, pois já existe no nosso corpo. Um dos problemas do silicone – já vi casos oriundos do Brasil – é uma reação de corpo estranho que pode culminar em infeção. Aparecem-me nas urgências pessoas com abcessos e que muitas vezes foram tratadas por não-médicos. Isso é que agora nos assusta.
– E essas práticas também começam a acontecer muito por cá.
– Sim, bastante. Fazem-se intervenções em esteticistas, cabeleireiros… Já participei, através da Ordem dos Médicos, em rusgas a estabelecimentos em que está a ser feita a aplicação de material médico por pessoas que não têm formação médica. É indispensável as pessoas informarem-se, procurarem se a pessoa que as trata está inscrita na Ordem dos Médicos. É a nossa cara e há mudanças irreversíveis. Já vi jovens lindas que ficaram desfiguradas. E por vezes a correção tem de ser cirúrgica, o que implica uma cicatriz. E é curioso que às vezes o ónus fica para nós: a paciente fica revoltada porque o cirurgião plástico não conseguiu corrigir o que foi provocado por uma pessoa não-autorizada.
– Também há tratamentos com base na tecnologia?
– Sim, por vezes complementam os tratamento de que falei. Nesta clínica temos uma máquina, Ultraformer III, que permite intervir em três aspetos através de ultrassons micro e macrofocados: a gordura localizada (macro) e a flacidez ou a falta de elasticidade da pele (micro), porque estimula a produção de colagénio. Muitas das vezes as pessoas que ainda não têm indicação para um facelift começam por estes tratamento, que têm resultados visíveis. Não só os que se veem no imediato, como continua a atuar ao longo de 90 dias, durante os quais vai havendo uma melhoria. Acontece na lipólise, ou seja, no desaparecimento da gordura da papada, uma queixa comum, mas também na própria retração cutânea e estimulação do colagénio. Vai melhorar o tónus, vai dar mais elasticidade à pele, vai haver um efeito de lift.
– E esse tratamento faz-se com que periodicidade?
– Normalmente, é um tratamento faseado, em geral com intervalos de três meses, e até pode ser um bocadinho mais. O mais comum é envolver duas a três sessões. Muitas das vezes as pessoas ficam tão satisfeitas com a primeira que acabam por nem seguir o protocolo. São tratamentos individualizados. Poderá não ser tão eficaz quanto uma cirurgia, mas tem a vantagem de ser indolor, dispensar pós-operatório e os outros cuidados associados a uma cirurgia.
– Para terminar, uma pergunta um pouco periférica: há mesmo cremes que fazem milagres?
– [Risos.] Não exatamente. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que mesmo os cremes com ácido hialurónico não têm GPS. A agulha tem. Mas há uma melhoria recorrendo à sua utilização, sim, pois é preciso cuidado com a hidratação da pele. E há cremes ricos em ácido hialurónico, e não só, que fazem efeito e são bons complementos para o tratamento estético.
Quando a melhor solução é a cirurgia
Apologista de que a primeira opção deve ser sempre “corrigir, realçar, rejuvenescer ou retomar de forma não-invasiva”, a médica aconselha a intervenção cirúrgica quando se trata da zona periorbital, para remover o excesso de pele nas pálpebras ou bolsas adiposas (os chamados papos). “Nestes casos, por vezes começamos por outros tratamentos, mas na maior parte das vezes as pessoas acabam por optar pela cirurgia, porque é de facto o mais eficaz. É um tratamento mais invasivo, a pessoa fica com equimoses durante uma a duas semanas, embora saia da cirurgia de olhos abertos e podendo fazer a sua vida normal, com a única limitação da aparência”, explica.
