
Entrou em Medicina, frequentou ao mesmo tempo o curso de Teatro, mas acabou por fazer carreira no mundo da televisão. A paixão pela representação esteve, contudo, sempre muito presente na vida de Maria Elisa Domingues, nomeadamente através dos espetáculos a que foi assistindo um pouco por todo o mundo.
Há 12 anos, e por sentir forte conexão com o texto Cartas de Amor, da autoria de A. R. Gurney – um clássico da Broadway que estreou em 1988 e que foi distinguido com o Prémio Pulitzer para melhor drama em 1990 –, sugeriu ao encenador Paulo Sousa Costa levar a cena este espetáculo. A estreia de Cartas de Amor aconteceu no passado dia 2 de maio, no Auditório do Taguspark, e acabou por assinalar também o seu regresso ao mundo da representação. Ao lado de Virgílio Castelo, a jornalista, de 72 anos, percorre uma história de amor através de dezenas de cartas trocadas por um casal onde não faltam as palavras esperança, paixão, desilusão e sonhos.
“É uma incursão por um caminho que esteve para ser o meu aos 20 anos e que acabou por não o ser por uma série de circunstâncias da vida.”
– A Maria Elisa é um poço de surpresas…
Maria Elisa – Até para mim [risos].
– Como se prepara para interpretar uma personagem difícil ou emocionalmente exigente como esta parece ser?
– A minha personagem é muito difícil. É uma pessoa bastante perturbada, vítima da educação que teve. É uma artista e, por isso, de natureza inquieta, curiosa, com ideias, sempre a querer mudar. É uma história de encontros e desencontros, uma grande história de amor completamente universal.
– A Maria Elisa parece-me ser também uma pessoa criativa, insatisfeita, curiosa?
– Não tendo nada em comum com a personagem em muitos outros aspetos, sinto que tenho esse lado da curiosidade e da insatisfação, sim. Nunca percebi, por exemplo, que se proclamasse como uma virtude passar 40 anos na mesma empresa, a fazer sempre a mesma coisa. Eu seria incapaz. Uma das coisas mais importantes para mim foi viver por várias vezes noutros países. Não é viajar, que também é ótimo, é viver. E eu vivi em vários países, o que me deu uma perspetiva diferente da vida, uma visão mais universalista.
“Fui sempre perseguida pela ideia de que cada escolha é um caminho, mas que muitos outros caminhos se fecham.”
– Foi essa visão que a levou a apaixonar-se por um americano?
– Não foi, foi uma total casualidade.
– Sente medo de falhar? Parece-me que não receia assumir fragilidades.
– Não receio. Tenho muita esperança de que esta peça corra bem, mas a minha vida não depende disto. A minha carreira foi, e continuará a ser, o jornalismo. Isto é uma incursão por um caminho que esteve quase para ser o meu, aos 20 e tal anos, e que acabou por não ser por uma série de circunstâncias da vida.

– Alguma vez se arrependeu de ter optado pela segurança da carreira na RTP em detrimento de uma vida artística?
– Várias vezes.
– Mas orgulha-se certamente do seu percurso enquanto jornalista. Ainda haverá tempo para brilhar no mundo artístico?
– Todos nós gostávamos de ter mais do que uma vida, não é? Uma das coisas que mais me impressiona nos livros de Milan Kundera é ele ser dos escritores que melhor transmite essa enorme angústia que é saber sempre que alguma coisa fica para trás quando fazemos uma escolha, que nada se repete, nada há a fazer. E eu fui sempre perseguida por essa ideia de que cada escolha é um caminho, mas que muitos outros caminhos se fecham.
“Sou muito romântica, mas tenho um lado pragmático que me salva.”
– A sua estreia no teatro acaba por acontecer, embora noutra fase da vida.
– Não é a mesma coisa, não é uma carreira dedicada ao teatro como eu poderia ter feito. É uma experiência que espero que corra bem. É uma coisa complementar, é cumprir um sonho.
– Guarda em sua casa alguma carta de amor?
– Muitas, guardo-as com imenso carinho, até porque algumas são de pessoas que foram significativas na minha vida e que, infelizmente, já morreram. Portanto, é aquilo que guardo de material dessas pessoas. Sou uma sentimental.
– E romântica?
– Muito romântica, mas tenho um lado pragmático que me salva.
