
A voz é grave e o espírito descontraído e jovem. Por isso, torna-se relativamente fácil reconhecer Mariana Alvim de cada vez que se sintoniza a rádio na RFM, onde há uns meses trocou as manhãs pelas tardes, ao lado de Pedro Fernandes, no programa 6PM. Uma mudança que a deixou muito feliz e lhe tem permitido usufruir mais intensamente de outras facetas da sua vida.
Mãe de três rapazes, Vasco, de 16 anos, Diogo, de 11, e Matias, de sete, fruto do casamento com o empresário Tiago Soares Ribeiro, a radialista, de 44 anos, sente que o facto de já ter tido várias profissões – trabalhou em marketing e foi guionista de novelas – a tornou uma mulher mais equilibrada e preparada para os desafios e obstáculos da vida, dando mais valor a tudo o que tem neste momento. Não é capaz de estar parada e prova disso é o podcast que faz há mais de um ano, Vale a Pena, no qual convida diversas personalidades para recomendar livros, outra das suas paixões. Aliás, é na escrita que se refugia quando tem tempo livre, estando em processo um romance.
“Estou bastante realizada, porque sei o que é ter um emprego que não me faz feliz.”
– Há oito meses mudou-se para as tardes da RFM. Esta era uma mudança desejada?
Mariana Alvim – É a primeira vez que estou nas tardes, já me habituei e estou a adorar. É completamente diferente e estou agradecida por não acordar às 5h30, por isso já não tenho mau feitio à noite [risos]. Ainda para mais com três filhos! Ao início foi mais difícil, porque implica uma logística, o que eu fazia com eles ao fim da tarde passou para o meu marido. Foi uma adaptação para os dois, mas somos uma equipa, tudo se faz. E o programa é muito giro, divirto-me imenso com o Pedro Fernandes. Na verdade, é tudo bom, as mudanças fazem bem.
– Sentia culpa por não poder acompanhar tanto os seus filhos?
– As mães que trabalham vivem sempre com culpa. Custa sempre muito quando falhamos aos nossos filhos por trabalho, mas é uma questão de tentar equilibrar tudo. Lembro-me de, uma vez, um dos meus filhos me ter pedido para ficar com ele de manhã e eu não conseguir. Agora vejo-os menos à tarde, mas estou muito mais presente quando chego. É tudo uma questão de gestão, de organização de agenda. Mudou, adaptámo-nos e agora só vejo vantagens.
“Ser mãe é um acrescento que tive na minha vida que me enriqueceu e me faz crescer todos os dias.”
– Já lá vão 14 anos na rádio. É este meio que a preenche e a realiza?
– É um deles, porque também preciso de escrever. Tem sido um caminho fantástico, sobretudo porque não foi a minha primeira profissão. Estudei Comunicação Empresarial, trabalhei em marketing e larguei tudo para ser guionista, porque queria seguir os meus sonhos e ser feliz. E estou bastante realizada, porque sei o que é ter um emprego que não me faz feliz. Dou imenso valor ao que tenho, porque também trabalhei muito para isso.
– É uma mulher que não consegue estar parada. Além das tardes na rádio, tem um podcast e escreve livros. Há tempo para tudo, além da maternidade?
– Neste momento, o que sai prejudicado é a escrita, sobretudo por causa do podcast, no qual invisto muito. Conheço pessoas superinteressantes e, ao mesmo tempo, sinto que voltei a estudar. Tenho um romance a meio e preciso de me pressionar a mim própria. Mas também sei que este podcast tem sido benéfico para a escrita, porque sinto que sou uma leitora nova no último ano e meio. Tenho lido muita coisa diferente e aprendido muita coisa, o que me ajudou a evoluir.

– Que sensações é que a escrita lhe traz que a rádio não consegue dar-lhe?
– São paixões diferentes. A rádio é um entretenimento, estou a divertir-me. Tenho o privilégio de adorar a minha profissão. A escrita é um prazer que gozo sozinha, o meu hobby favorito, que virou trabalho. Preciso de ler todos os dias, é uma viagem, um vício bom que tenho.
“Conheço-me muito melhor hoje do que há dez anos, o que traz vantagens em certos comportamentos e opções de vida.”
– Ao longo destes anos como mãe sempre se deu o devido valor?
– Digo uma frase na brincadeira, que acaba por ser verdade: “Tenho saudades minhas.” Eles estão em primeiro lugar em tudo, por isso acabo por abdicar um bocadinho desse tempo para mim. Ser mãe ocupa espaço na nossa agenda e na nossa cabeça, mas também no coração. É um acrescento que tive na minha vida que me enriqueceu e me faz crescer todos os dias. Ser mãe muda todos os dias.
– Está preparada para vê-los voar e tornarem-se independentes?
– Não! Acho que esse afastamento vai ser gradual, porque eles têm idades muito diferentes, cinco anos de diferença cada um, mas vai custar-me imenso. Antes brincava a dizer que eles iam ficar comigo até aos 40, mas têm de ter a vida deles. Espero manter uma relação saudável para que eles queiram voltar com as respetivas famílias. Vou ter de aceitar, e manter-me entretida também ajuda, porque assim tenho a minha vida além da maternidade. De repente, não fico desamparada, sem filhos para cuidar. O ninho vazio dói sempre, mas faz parte.
– É uma mulher no meio de homens. Lida bem com isso?
– Tenho dois irmãos rapazes, um deles meu gémeo, portanto faz parte da minha vida. Eu até brinco a dizer que é por isso que tenho a voz grossa, porque estou rodeada de homens… [risos]. Gosto do feitio dos homens, são pragmáticos. A única altura em que sinto falta de mulheres é quando eles são muito trapalhões e desarrumados. Os meus filhos são muito diferentes. Mais do que o género, é lidar com os feitios e as idades. Mas confesso que adoro ser mãe de rapazes.
– Num casamento de quase 20 anos há segredos?
– A fórmula é comunicar e querer. Temos a sorte de ter crescido na mesma direção, éramos uns miúdos e agora somos uns adultos com filhos. Se conhecesse o Tiago hoje, continuava a ser o meu género de homem. Tenho essa sorte. Há que trabalhar muito, porque nem sempre é fácil. Acho que a solução é mesmo falar.

– Considera-se feminista?
– Creio que sim, e nada tem a ver com ser figura pública. Acho que há muitas autoproclamadas feministas que não sabem o que é o feminismo, há muita confusão. Não sou ativista nem gosto de falar disso publicamente, mas, em termos de feitio e evolução, sim. Faço-o até mais na minha vida privada, porque há reações e comportamentos que tenho pena que ainda existam. Ainda por cima tenho três filhos rapazes, por isso não há questões sobre isso. O que antes era obrigação da mulher, hoje já não é. Acho que já nem se devia falar sobre isso, é uma coisa natural.
“Sou demasiado exigente comigo própria e perfeccionista, sou o meu maior obstáculo.”
– A idade é uma questão que a assusta?
– Mexe comigo sobretudo porque o metabolismo abrandou. Isso irrita-me imenso. Mas a idade também traz coisas muito boas. Conheço-me muito melhor hoje do que há dez anos, o que traz vantagens em certos comportamentos, escolhas e opções de vida. Tenho mais certezas, é uma grande vantagem dos 40.
– Tem medo de envelhecer?
– Não é fácil, sobretudo por causa das maleitas. Por exemplo, a pele muda e não tenho coragem para injetar nada [risos]. Acho que nos vamos habituando. Tenho o privilégio de cá estar e ver os meus filhos crescer. Sempre quis ser uma mãe jovem e também quero ser uma avó jovem, vou fazer por isso. A juventude está na cabeça, sou uma mulher ativa e quero manter-me ativa, espero manter-me jovem de espírito.
– Quais são as suas ambições para o futuro?
– O podcast foi um grande desafio, não sabia que iria gostar tanto. Já dura há mais de um ano, com mais de 53 episódios, e vêm aí mais. Continuo a escrever, parei não só pela falta de tempo, mas porque leio coisas tão boas que fico a achar que o meu romance está péssimo. É a síndrome do impostor. O meu desafio é ter coragem para acabá-lo e mostrá-lo. O meu medo é não saber se estará bem escrito, apesar de já ter escrito para adolescentes.
– Portanto, é uma pessoa muito exigente…
– Demasiado exigente comigo própria e perfeccionista, sou o meu maior obstáculo. Embirro com o meu romance, não gosto de mostrar o que estou a escrever. Acaba também por ser insegurança. Mas, se calhar, não estava a correr tão bem se não tivesse tanto trabalho. Às vezes ter essa exigência é bom.
Produção: Patrícia Pinto
Maquilhagem e cabelos: Madalena Martins
Agradecemos a colaboração de Decenio, Kocca e Restaurante Nortada