
António Pires está sentado na plateia, atento ao que se passa no palco do Teatro do Bairro. No decorrer da ação vai soltando gargalhadas. Expressam a sensação de dever cumprido, feliz com o desempenho dos atores que escolheu para De Passagem: Francisco Vistas, João Barbosa, Marcello Urgeghe, Ricardo Aibéo e Sandra Santos. Feliz também por dar palco ao texto de Luísa Costa Gomes, uma comédia que fala sobre “dar e receber, amar, comprar e vender, roubar e burlar, trocar coisas por coisas e ideias de coisas e essas por outras”, que pode ser vista até 4 de fevereiro na sala onde em tempos se imprimiu o Diário Popular, no Bairro Alto. No final daquele que foi o primeiro ensaio corrido, o encenador, de 56 anos, conversou com a CARAS.
– Vi-o a rir-se durante o espetáculo. Quando se senta na plateia e se põe no lugar do espectador, é como se fosse sempre uma primeira vez?
António Pires – Um bocadinho. É muito importante para quem está a encenar fazer o exercício de esquecer o que já viu e tentar deixar-se levar pelo que se passa no palco e não estar preocupado. E isso acontece geralmente no primeiro ensaio corrido, como foi este.
“São tempos em que as pessoas se levam muito a sério, em que as coisas são levadas muito a sério, parece tudo de um radicalismo horrível.”
– É uma boa comédia. Acha que estamos a precisar cada vez mais de nos rirmos?
– Acho que sim. Estes são tempos em que as pessoas se levam muito a sério, em que as coisas são levadas muito a sério, parece que é tudo de um radicalismo horrível, que acho que devemos contrariar, e espero que esta peça ajude um bocadinho as pessoas a rirem-se delas próprias.
– O desafio é maior quando se faz uma comédia?
– Sim, sem dúvida, porque o público é exigente e não queremos defraudar as expectativas.

– O que é que este texto tem para o ter posto em cena?
– Trabalho com a Luísa Costa Gomes há bastante tempo e já tinha sido desafiado há alguns anos para fazer esta peça. Quando a li, achei-a maravilhosa e quis fazê-la. Talvez haja o tempo certo para se fazer as coisas e este foi esse momento.
“No início só queria um lugar para ensaios, mas surgiu a hipótese de dar vida a este teatro e não estou nada arrependido.”
– Numa época em que a cultura está tão fragilizada, como é que se consegue manter peças em palco?
– Não temos outra hipótese. É a nossa profissão, temos de o fazer. Obviamente que se tivéssemos mais condições, apoios, seria mais fácil, mais prazeroso, mas eu consigo fazer. E não só por paixão. Por exemplo, depois da pandemia, quando os teatros reabriram, ainda que com imensas regras, foi incrível ver as pessoas a encher as salas, com sede de ver teatro. E é esse interesse por parte dos espectadores que merece o nosso empenho, merece que não deixemos de fazer teatro, com ou sem dificuldades.
– Este teatro, ao qual deu vida em 2011, é a sua segunda casa…
– Mesmo. Era aqui que funcionava a rotativa do Diário Popular. No início só queria um lugar para ensaios, mas surgiu a hipótese de dar vida a este teatro e não estou nada arrependido.