
Há muito tempo que Soraia Tavares dá provas do seu enorme talento. Com um curto mas já notado percurso na representação, principalmente no teatro musical – esteve recentemente em cena com Sonho de Uma Noite de Verão –, a atriz, de 29 anos, decidiu apostar forte na música e lançou o seu primeiro álbum de originais, A Culpa É da Lua, em maio do ano passado, sem com isso sacrificar o trabalho de atriz. Diz que o ideal seria ter estas duas áreas artísticas de mãos dadas. “O ideal era ser a Lady Gaga: parava para fazer um filme e voltava aos concertos [risos]”, reconhece, bem-disposta e com o sorriso terno e discreto que a caracteriza.
Sendo a mais nova de três irmãos no seio de uma família cabo-verdiana modesta sem ligações ao meio artístico, Soraia soube desde cedo valorizar a sua paixão e trabalhou afincadamente para conquistar o seu espaço, sentindo que precisa de mostrar as suas capacidades a dobrar, pois as oportunidades para atrizes com o seu tom de pele, afirma, não aparecem na mesma medida.
Uma conversa sem filtros numa tarde passada na Baixa lisboeta, em que nos falou dos seus desejos para 2024, que incluem partilhar casa com o namorado, o ator Vicente Wallenstein, de 28 anos.
– Está com o cabelo mais curto do que lhe é habitual. É preciso alguma coragem para mudar de visual?
Soraia Tavares – É, mas depois de o fazer até me perguntei porque não o tinha feito há mais tempo. Tinha algum receio, mas precisava de fazer este corte, além de querer voltar ao meu cabelo natural. Gostei mesmo muito, porque no passado não me sentia confortável com o meu cabelo e queria sempre algo oposto ao que tinha.
– É insegura com a sua imagem?
– Acho que me fui tornando mais segura ao longo dos anos. Agora aceito muito bem aquilo que tenho e o que sou, tento estar sempre no meu melhor. As minhas maiores inseguranças passam mais pelo meu trabalho do que propriamente pela minha aparência.
“Não gosto de camuflar sensações, o que não quer dizer que chegue a um sítio e desbobine tudo, mas tento ser genuína com o que sinto.”
– Como é que se gerem essas fragilidades profissionais?
– Choro em casa e volto no dia a seguir [risos]. Não gosto de camuflar sensações, o que não quer dizer que chegue a um sítio e desbobine tudo, mas tento ser genuína com o que sinto. Quando estou sozinha, foco-me nessas emoções e ultrapasso-as.
“O perfeccionismo é a minha maior qualidade e o meu maior defeito. Boicoto-me a mim própria.”

– Isso tem a ver com perfeccionismo?
– Sim, acho que é a minha maior qualidade e o meu maior defeito. Boicoto-me a mim própria. E no Sonho de Uma Noite de Verão isso não aconteceu. Estava muito cansada de um ano cheio de trabalho e tive de relativizar muita coisa.
“Plantei muita coisa e, se tudo correr bem, hei de colher esses frutos este ano.”
– A exigência no seu trabalho tem a ver com um percurso em que tem de estar constantemente a provar o seu talento?
– As mulheres negras crescem com a sensação de não serem vistas. Na maioria das vezes não somos de facto “vistas”, e eu cresci com a síndrome de boa aluna, porque trabalho sempre a 300% para alguém ver pelo menos 70%. Sou muito trabalhadora, mas às vezes tenho de relaxar um bocadinho, deixar as coisas acontecerem e divertir-me.
– Procura mudar mentalidades em relação a este assunto?
– Não. Se surgir o tema, falo sobre ele da forma mais empática que consigo no momento. Se calhar já procurei, mas hoje em dia quero viver a minha vida, a minha história e os meus valores. Se com isso ajudar alguém, é uma mais-valia.
– É mulher de tomar resoluções quando o novo ano começa?
– Há alguns anos que sinto que as resoluções são algo contínuo, não há um momento em que paro para começar tudo de novo. Olho sempre para trás para perceber o que aconteceu, pois plantei muita coisa e, se tudo correr bem, hei de colher esses frutos este ano.

– Esses “frutos” têm a ver com a música?
– Também. No ano passado lancei o meu primeiro álbum e talvez a partir de agora surjam mais concertos. Creio que também me afirmei mais como atriz nos projetos que escolhi fazer, em que não cantava. Quero muito fazer papéis com mais destaque, coloquei-me em sítios estratégicos para ser vista por pessoas com as quais queria trabalhar. Mas não tenho nenhum projeto em vista e isso assusta-me um bocadinho…
– A aposta na música será permanente?
– Sim. Claro que por vezes faço coisas como atriz que me impossibilitam de estar na música, mas desde que lancei o álbum essa aposta tem sido mais contínua. Ainda não parei. Se calhar, não fiz muitas coisas que deram grande visibilidade à minha música, mas é um caminho. Acho que terei de o fazer, porque não consigo conciliar bem as duas coisas, mas quando estou sozinha não deixo de estar a trabalhar para a outra coisa, ou seja, escrevo músicas ao mesmo tempo que estou numa peça de teatro, por exemplo. Para mim é contínuo, mas percebo que para o público possa não ser.
– Tem necessidade de parar para refletir muitas vezes?
– Todos precisamos, mas talvez tenha dificuldade em dizer que não a algo para poder fazer essa pausa. Não é fácil para mim pensar sobre o que foi ou não benéfico, tenho essa dificuldade. Tenho sempre medo de perder o comboio.
– O que é que as artes representam para si?
– Numa conversa recente com amigos, chegámos à conclusão de que um artista não consegue separar a vida profissional da pessoal, uma alimenta a outra. As coisas que nos acontecem acabam por ser um instrumento do que fazemos e produzimos. As artes representam a minha vida, não me canso de falar sobre isso, os meus hobbies são artísticos… está tudo ligado.
– Alguma das áreas a preenche mais?
– Preenchem-me muito as duas. Quando faço teatro musical, sinto-me atriz, mesmo a cantar. Quando estou a fazer muito uma coisa e vou para a outra, fico com aquela sensação: “Uau, isto é mesmo bom!” Se estiver longe de uma, sinto a necessidade de fazer a outra.
– O que é que procura?
– Que me vejam como artista. E, a partir daí, poder fazer coisas de que gosto e com as quais me identifico. Não gostava que me pusessem de parte por estar a fazer só representação ou só música.
– Nos dias de hoje, a sua independência é uma conquista que a deixa certamente orgulhosa…
– Sou mesmo muito independente. Adoro estar rodeada de pessoas, mas prezo muito o meu tempo sozinha. Ter conseguido comprar a minha casa e decidir o que lá faço tem um grande significado para mim, principalmente de onde vim, onde ter uma casa própria era até difícil de sonhar.
“O Vicente [Wallenstein] compreende muito bem o que faço e faz-me ver que o mundo não está contra mim.”
– Namora com o ator Vicente Wallenstein há três anos. É ele que a tranquiliza quando há dias menos bons?
– Completamente, ele é uma ótima almofada para chorar! Compreende muito bem o que faço, porque também é ator, e faz-me ver que o mundo não está contra mim, sou eu que tenho uma pala nos olhos [risos]. Eu também o ajudo nesse sentido.

– Há planos para ser mãe?
– Sim, mas não agora. Gostava de ter essa experiência, mas sei que a minha vida vai mudar, para melhor, espero, e ainda há coisas que quero viver de forma livre e independente.
– Qual é a sua missão de vida?
– Acho que é mesmo artística. Sinto mesmo isso, quero transmitir os meus valores através da minha arte. Gostava muito de mudar o mundo e seria sempre ligado às artes. Quero ter a minha vida pessoal na mesma, sem que a minha vida profissional seja um problema.
– O que espera para este ano a nível pessoal?
– É a continuidade do que fiz lá atrás. Agora que estou a viver na minha casa com os meus gatos [são dois, porque o do Vicente já lá vive], será a construção dessa vida a dois. Esse é o objetivo.
Cabelos e maquilhagem: Ana Filipa Pereira
Agradecemos a colaboração de Intimissimi