
Nasceu em Lisboa há 37 anos e, desde que se estreou no teatro amador, aos oito, que tem batalhado para conseguir crescer enquanto ator. Formado em Teatro n’A Comuna, com João Mota, e com várias formações na área da representação, Luís Filipe Eusébio tem dado vida a inúmeros projetos, tanto em Portugal – fez duas temporadas da série A Espia e deu vida à personagem de Sá Carneiro na série 3 Mulheres – como em Londres, que também passou a chamar “casa”. Um percurso conquistado a pulso e com algum sacrifício, lembrando que chegou a não ter dinheiro para comer. “Os meus pais divorciaram-se quando era muito novo. Fui educado na casa do meu avô, em Cascais”, recorda o ator, que, para poder pagar aulas de representação, nomeadamente o curso de Técnica de Meisner, com John Frey, foi obrigado a vender dois objetos de enorme valor sentimental: uma moeda de ouro e a aliança que herdou do avô, que morreu há 18 anos.
– Porque escolheu este local, o Bar do Avillez, para este nosso encontro?
Luís Filipe Eusébio – A CNN tinha um travel show com o Richard Quest e eu vendi-lhes a ideia de virem a Lisboa por altura dos Santos Populares, que são sempre um bom passaporte. Consegui convencê-los a fazer o programa no nosso país e foi precisamente neste espaço que aconteceu um dos jantares da equipa.
– Sempre disse que tinha o objetivo de ganhar um Óscar. É um sonho alcançável ou cada vez mais distante?
– Acho que, quando menciono isso, sou mal interpretado, porque não é pelo objeto em si nem pela exposição ou fama que pode advir daí. É no sentido de te encontrares num espaço de possibilidades muito grandes em termos de trabalho, com pessoas com quem podes trabalhar.
– A quem pediria um autógrafo se, porventura, fosse convidado para a cerimónia dos Óscares?
– Provavelmente a ninguém. Já me cruzei com algumas pessoas que admiro muito e acho que para elas também seria desconfortável terem à sua frente um colega um bocado embasbacado. Já me cruzei em Londres com o Daniel Day-Lewis, que admiro imenso, e fiquei a tremer por todo o lado, mas não pedi um autógrafo.
– Tem feito muitas formações baseadas na técnica de Meisner. Quer explicar do que se trata? Ser ator vai muito além de decorar textos…
– É exatamente o oposto, ou seja, o texto é importante, mas não é sobre o texto. A palavra pode ser utilizada de várias formas. Esse é o jogo, é o subtexto da palavra. E a técnica de Meisner, com a qual me identifico bastante, ajuda-nos a desligar a nossa cabeça. Ou seja, não teres uma pré-intenção do que queres fazer e colares-te a isso para fazer as coisas. Pelo contrário, fazes um trabalho de casa muito grande e deixas aquilo a marinar dentro de ti. Depois, é teres a coragem de acreditar que está tudo lá dentro e que, no momento certo, aquilo vai sair.
“É má representação quando tentas representar uma emoção.”

– Porque não há outra forma de representar se não for com emoção? Ou as emoções podem ser uma barreira a uma interpretação mais próxima do que é pedido?
– Acho que é má representação quando tentas representar uma emoção. Como diz a Meryl Streep, tu preparas-te para que, num determinado momento, a emoção aconteça e, se ela acontecer, é verdadeira. Se não acontecer, também é verdade. O que quer que seja que aconteça no momento é verdade. Não gosto muito daquela ideia de termos uma cena de um velório e, de repente, está toda a gente ali a chorar. Eu já fui a alguns e também há gargalhadas pelo meio e pessoas a recordar histórias. Não está toda a gente a chorar. Há uma entrevista célebre da Meryl Streep em que lhe perguntam como é que ela consegue emocionar-se em todas as cenas. E ela responde: “Eu não procuro fazer nada. Acontece. E se não acontecer, é aquilo que aconteceu.”
“Tenho praticado muito, quase de forma terapêutica, o amor-próprio. Então, sim, tenho muito orgulho na pessoa que sou e no caminho que fiz.”
– E onde é que se vão buscar essas emoções quando há personagens emocionalmente difíceis ou exigentes?
– Tenho várias ferramentas. Uma delas é escrever o que é que aquela pessoa me parece ser. Depois escrevo o que acredito que sou e tento procurar pontos em comum entre as duas. Dentro de nós existe um mundo e nós podemos ser tudo o que quisermos. Uma personagem é uma pessoa que tem determinadas reações justificadas por algo, como nós. A parte mais difícil é tirarmo-nos da frente, do caminho. Aquela história não somos nós, portanto não podemos trabalhar a pensar que temos que agradar a X ou que tenho que fazer sala com Y. Eu não existo ou procuro não existir ali. E, normalmente, as coisas acontecem quando consigo fazer isso. Nem sempre acontece.
– Todos os sacrifícios que fez valeram a pena? Sente orgulho do seu percurso e da pessoa em que se tornou?
– Tenho praticado muito nos últimos anos, quase de forma terapêutica, o amor-próprio. Então, sim, tenho muito orgulho na pessoa que sou e no caminho que fiz. Dizer isto agora sai-me de forma fácil, mas não foi fácil chegar a um espaço e dizer que tenho voz e que mereço. Isto foi duro.
– Acha que o seu avô também se orgulharia desse percurso? Ele sempre desconfiou desta sua opção de ser ator.
– [Emociona-se] Não sei, mas quero acreditar que sim. Há noites em que, antes de adormecer, falo com ele. Quando tenho dúvidas sobre o que estou a fazer…

– Ainda tem dúvidas ao fim de 20 anos de carreira?
– No dia em que deixar de ter dúvidas não estou a fazer nada de jeito. São palavras minhas, mas também do Daniel Deluso. Não tenho certezas, estou sempre inquieto e com questões.
– Vai manter-se em Portugal ou tenciona voltar a fazer as malas e partir novamente?
– Nestes últimos oito anos tive que me manter por Londres por causa do meu visto, porque, para ter acesso ao mercado de trabalho, qualquer ator precisa de ter o right to work [direito legal de trabalhar em Inglaterra]. Então, especialmente pós-Covid, tive que regressar a Londres para tratar de toda a burocracia. Agora que já tenho os papéis todos, estou por cá. E estou muito feliz. Já estou à procura de casa, que parece ser uma missão quase impossível.
– Nunca teve casa própria no nosso país?
– Nunca. Nem sei se tão cedo conseguirei. Já levei com duas intervenções do FMI, uma pandemia, uma greve de representação em Londres, e as cidades onde vivo, Lisboa e Londres, não são propriamente baratinhas…
“A liberdade fascina-me tremendamente. Posso ser um teso, mas sou livre. E andar de moto dá-nos uma enorme sensação de liberdade.”
– Não há nada que o prenda cá?
– Tenho a Grace, a minha moto. É uma Yamaha Cafe Racer de 125 cc. Uma motinha pequena, graciosa, elegante. É o meu projeto de vida. Comprei-a durante a pandemia. Na altura pensei: o mundo vai acabar, as minhas poupanças vão à vida, então o que é que quereria fazer que ainda não tivesse feito? E uma das coisas era precisamente comprar uma moto. Vi um anúncio, fui buscá-la e estou a recuperá-la aos poucos.
– O que é que mais o fascina na moto? Poder andar ao ar livre ou a velocidade e o controlo do motor?
– A liberdade fascina-me tremendamente. Posso ser um teso, mas sou livre. E andar de moto dá-nos uma enorme sensação de liberdade.