
A paixão de Ana Sofia Cardoso pelo jornalismo vem de pequena, assim como o bichinho pela cobertura mediática em tempos de guerra, quando a professora primária chegava à sala de aula com um rádio para ouvir as notícias sobre a Guerra do Golfo, em 1990. A curiosidade em relação à forma como os repórteres faziam o seu trabalho era tanta que acabou por ser uma alavanca para o seu futuro.
Hoje, a jornalista, de 41 anos, é um dos principais rostos da CNN Portugal e orgulha-se da sua profissão, que já lhe deu o privilégio de vivenciar e mostrar, na primeira pessoa, o cenário da guerra da Ucrânia, por duas vezes, e do conflito Israel/Hamas, no final do ano passado. Foi nesta última viagem profissional que começou a desconfiar que estaria grávida pela segunda vez, uma notícia que veio a confirmar-se quando regressou a Portugal e que a deixou muito feliz, assim como ao companheiro, Tiago Begonha, e ao filho, Lourenço, de 4 anos.
– Esta gravidez foi planeada?
Ana Sofia Cardoso – Mais ou menos, se acontecesse, acontecia. Queríamos, não tanto por nós, mas para dar um irmão ao Lourenço. Preferimos que ele tivesse alguém que o possa acompanhar para sempre. E comecei a ficar desconfiada em Israel.
– Essa desconfiança em cenário de guerra deixou-a ansiosa?
– Estive sempre tranquila. Fiquei alerta com os sinais, como a perda de peso inicial, mas ao mesmo tempo comecei a ter dificuldade em apertar as calças [risos] e os cheiros afetavam-me mais. Achei estranho, porque já estive em vários cenários destes, perdi sempre peso e nunca o recuperei até regressar a Portugal.
– Certamente terá sido uma alegria imensa quando se confirmou a notícia…
– Fiquei mesmo surpreendida por ficar grávida naquela altura, tanto que quando voltei de Israel demorei algum tempo a fazer um teste. Achei mesmo que não era possível. Foi uma grande felicidade.
– Da primeira para a segunda gravidez, relativizam-se mais as coisas?
– Sou muito descontraída e julgo que da outra vez também estava. Por norma, sou prática, por isso não sei como poderia descomplicar mais. A única diferença é que sei como é que o meu corpo vai mudar durante este período. Sinto que as duas gravidezes são diferentes, há sempre alguma novidade, o que é bom.
– Há ansiedade nesta fase?
– Estou bastante tranquila, embora ainda não tenha nada preparado [risos]! Começo a ficar um pouco ansiosa por ainda não ter as coisas mais ou menos organizadas, até porque ainda temos a logística de mudar para o Porto, tal como da primeira vez. É a terra natal do Tiago, onde tem a família, onde já temos os nossos amigos. Não temos ligação nenhuma a Lisboa – sou natural do Alentejo – e o Tiago fazia questão de que os dois filhos nascessem no Porto. Depois da licença, regressamos à base em Lisboa.
“Questiono se me conseguirei dividir de igual forma. Esta bebé não terá a atenção toda, tal como o Lourenço terá de dividir a sua. É a minha principal preocupação.”

– Quais serão os maiores desafios de ser mãe de duas crianças?
– Gerir o tempo, penso muito nisso. Como conseguirei dar a mesma atenção a um recém-nascido do que dei ao Lourenço e também dedicar-me a ele da mesma forma que antes. Questiono se me conseguirei dividir de igual forma. Esta bebé não terá a atenção toda, tal como o Lourenço terá de dividir a sua. Isso é a minha principal preocupação.
– A realidade que vivemos nos dias de hoje, com as guerras, as novas tecnologias à velocidade da luz e a inteligência artificial afligem-na quando pensa na educação dos seus filhos?
– Sou contra dar telemóveis a crianças, por exemplo, acho que o devemos evitar ao máximo. Em relação à guerra, tenho uma opinião muito própria: uma das coisas que me motivou a avançar para o terreno, na Ucrânia, foi o facto de haver muitas mães e crianças a sair sem nada e sem saber para onde iam, sujeitas a inúmeros riscos. Como mãe, também gostaria de fazer a minha própria guerra, lutar por algum tipo de justiça, pelos meus filhos. Não penso tanto no mundo que vão enfrentar, é mais no imediato. Se pudermos, acho que devemos fazer alguma coisa, porque podiam ser os nossos filhos naquele lugar.
– É prática nesta questão da educação?
– O primeiro ponto é acordarmos bem-dispostos para a vida e aproveitarmos todos os momentos para estarmos felizes. Ver a felicidade dele, a cada instante do dia, é a minha principal preocupação, quero ensiná-lo a estar feliz.
– Fazer jornalismo de guerra era um sonho que tinha desde miúda.
– Nem todos os jornalistas sentem as mesmas coisas nem têm vontade de ir todos para os mesmos sítios, o que é ótimo. As nossas vivências antes do curso também nos dizem que caminho queremos trilhar e as áreas de que mais gostamos. Queria ser jornalista desde pequena e a Guerra do Golfo suscitou-me muita curiosidade, pois questionava como é que alguém estava no terreno e relatava o que estava a acontecer. Foi um momento marcante, que se tornou um desejo.
– Acredito que seja uma experiência indescritível estar no terreno…
– É impossível descrever a experiência profissional e pessoal. É bastante duro e difícil, mas ao mesmo tempo muito enriquecedor.
– Parava para pensar nas consequências?
– Às vezes é mais difícil para quem fica, que não sabe o que estamos a viver e está no vazio. Sempre fui consciente dos riscos que corria. Decidi que queria ir porque tinha condições e sabia do que estava a abdicar. Fi-lo também por uma questão de justiça social, de fazer a nossa própria guerra enquanto jornalistas, que é muitas vezes defender quem não tem defesa. Corremos alguns riscos e colocámo-nos em perigo, tanto na Ucrânia como em Israel. Foram episódios que podiam ter corrido mal, um ataque com rockets, por exemplo, mas saímos a tempo.
“Quem vai para a guerra sabe que vai ter de lidar com adrenalina. É preciso ter alguma lucidez. Temos de perceber que estamos em risco constante e assumir isso.”

– Gosta dessa adrenalina?
– Não gosto, mas é algo com que quem vai para a guerra sabe que vai ter de lidar. Não se pode entrar em stress e há que ter sangue-frio para decidir o que fazer, pois tem de ser muito rápido. É preciso termos alguma lucidez para não nos embrenharmos nas dificuldades. Temos de perceber que estamos em risco constante e assumir isso. Depois, há mais disponibilidade para pensar nas coisas de forma mais racional.
– A Ana Sofia e o Tiago estão juntos há sete anos. O casamento faz parte dos planos?
– Não acho que seja uma prioridade, mas também não é uma decisão fechada. Aliás, gosto de dizer que o Tiago não é o meu marido, mas o meu namoradinho [risos].
“O Tiago é um pai espetacular, superproativo. Não ajuda, faz, tem iniciativa.”
– O Tiago é o pai que idealizava?
– Ele é espetacular, superproativo. Não ajuda, faz. Não podemos ser só nós, mães, a dizer o que é preciso fazer, tem de haver iniciativa. É uma coisa muito natural entre nós. Custa-me imaginar uma realidade em que tivesse que dar indicações sobre o que fazer para ele me ajudar. As pessoas têm de saber o que têm de fazer em prol dos filhos e o Tiago faz isso.
Cabelos: Célia Jamal
Maquilhagem: Madalena Castro Fonseca
Agradecemos a colaboração de Ana Sousa, Cristina Barros, Eugénio Campos Jewels e Montebelo Vista Alegre Lisboa Chiado Hotel