
Foi um ano de sofrimento, pelo qual nenhum pai deseja passar e somente nos últimos meses Pedro Chagas Freitas deixou de ter o coração em sobressalto. O filho, Benjamim, de 7 anos, está a recuperar de um transplante ao fígado, na sequência de uma doença rara que o levou a ser internado por diversas vezes no Hospital Pediátrico de Coimbra. Foi na cerimónia do Prémio Cinco Estrelas, onde foi um dos distinguidos, que o escritor falou à CARAS sobre a recuperação do filho e esta nova fase para toda a família.
– Como está o Benjamim a reagir ao transplante?
Pedro Chagas Freitas – Está a melhorar, cada vez mais normal. Estamos ainda a evitar o contacto dele com outras crianças, sobretudo por questões virais. Ele está feliz e a aproveitar cada dia. Tínhamos muita saudade desta normalidade. Estamos a aproveitar a nossa casa de uma forma que nunca tínhamos conseguido e à espera que continue assim.
– Para um pai, é como voltar a viver?
– É como nascer outra vez, vejo como um renascimento. Aliás, vamos começar a celebrar a data do transplante do Benjamin [22 de junho] como se fosse outro aniversário.
– Foi igualmente muito difícil para a sua mulher [Bárbara Teixeira]. Como fica um casal após uma situação como esta?
– Não há teste mais duro. Hoje temos um amor diferente, que vem de outro sítio. Sinto-me orgulhoso e espero que ela sinta o mesmo por mim. Em todo o processo, ela ensinou-me muito. Houve muitas vezes um diálogo tácito entre nós, porque não queríamos estar a falar em frente do Benjamim. Tínhamos de sentir por olhares e gestos qual de nós precisava de mais força.

– Cedeu os direitos do seu último livro, O Rei Tigão, à Unidade de Hepatologia e Transplantação Hepática Pediátrica de Coimbra.
– Sim. Perguntámos logo como poderíamos ajudar. Então, as receitas do livro vão para lá. No nosso caso, sentimos falta de coisas tão elementares como uma cama ou poltrona mais confortável. Pequenos pormenores que, apesar de estarmos num momento complicado, dão um conforto que pode fazer a diferença entre cairmos a pique ou aguentarmos mais um bocadinho.
– Dez anos depois do lançamento do livro Prometo Falhar continua a conquistar leitores. Qual o segredo?
– Foi sem querer [risos]. Na altura, havia outras possibilidades de livros e a editora disse: “É melhor lançarmos outro, porque esse não vai vender”. Mas eu e a Bárbara dissemos: “Revemo-nos mais neste. É este”.
– Após 40 livros editados,o que se segue?
– Um romance, não biográfico, relacionado com tudo o que aprendi no último ano. Passar meses num hospital é como viver num deserto, mas há que conseguir encontrar um oásis, por mais pequeno que ele seja.