
Foto: Arquivo CARAS
Morreu o ator Val kilmer.
O artista norte-americano, protagonista de sucessos de bilheteira como Top Gun, The Doors, no qual interpretou Jim Morrison, o carismático líder da banda que dá nome ao filme, e Batman, entre outras longas-metragens que ficaram para a história do cinema, morreu no dia 1 de abril, aos 65 anos, em Los Angeles.
A notícia foi confirmada pela filha, Mercedes Kilmer, de 33 anos. Esta avançou à agência Associated Press que o pai tinha sido diagnosticado com cancro na garganta, em 2014, e conseguiu recuperar, mas acabou por ser vítima de uma pneumonia, à qual não conseguiu sobreviver. Encontrava-se rodeado pela família e amigos.
“Portei-me mal. Comportei-me corajosamente. Para alguns, comportei-me de forma bizarra. Não nego nada disto e não me arrependo de nada, porque perdi e encontrei partes de mim que nunca soube que existiam”, afirma o ator no final de Val, o documentário lançado em 2021 sobre a sua carreira e vida. “E sinto-me abençoado”, rematou.
Vida marcada pela tragédia

Foto: Arquivo CARAS
Kilmer nasceu a 31 de dezembro de 1959, em Los Angeles, EUA, o segundo de três filhos de Eugene Dorris Kilmer e Gladys Swanette Kilmer. A mãe, de ascendência sueca, irlandesa, alemã e cherokee, e o pai, um promotor imobiliário, separaram-se quando ele tinha apenas 9 anos de idade.
Em 1970, Gladys casou-se com William Bernard Leach, o que marcou uma mudança significativa na estrutura familiar. No entanto, o que realmente perturbou a vida daquele que viria a ser um dos atores mais famosos de Hollywood foi a morte trágica do irmão mais novo, Wesley, que sofria de epilepsia e se afogou num jacuzzi aos 15 anos. A perda do irmão foi uma das provas mais difíceis que Val teve de enfrentar.
Em várias entrevistas, o ator expressou como a morte de Wesley o afectou profundamente, referindo que demorou anos a “voltar à realidade”, após a tragédia.
Apesar da dor profunda, Kilmer encontrou consolo na representação. Com apenas 17 anos, tornou-se um dos alunos mais jovens a ser aceite na prestigiada da Juilliard School, em Nova Iorque. Durante o tempo que lá passou, fez amizade com Sean Penn e Kevin Bacon e destacou-se pela sua versatilidade. Foi neste ambiente que desenvolveu uma profunda paixão pela representação, arte que lhe dava espaço para processar e canalizar as suas emoções. Sempre se considerou um ator de personagens, capaz de interpretar cem vozes diferentes e fazer um milhão de imitações.
Um ator difícil
A fama e o reconhecimento não tardaram a chegar. Na década de 80, quando protagonizou o filme de espionagem Top Secret!, seguido do seu papel em Top Gun, no qual interpretou o arrogante Iceman, levaram-no à ascensão em Hollywood.
No entanto, foi a sua interpretação de Jim Morrison em The Doors que lhe valeu a aclamação da crítica e o reconhecimento internacional. A preparação de Kilmer para este papel foi tão intensa que perdeu peso, estudou a fundo a música da banda e até conseguiu imitar a voz de Morrison tão fielmente que os membros da banda confundiram as gravações de Kilmer com as originais do cantor.
A sua carreira continuou com papéis memoráveis como Batman em Batman Forever e o pistoleiro Doc Holliday em Tombstone, desempenho que foi amplamente aclamado pela sua impressionante profundidade.
Kilmer, conhecido pela sua abordagem obsessiva na construção das personagens e perfecionismo, tinha uma relação complicada com produtores e realizadores, o que lhe valeu a reputação de ser um ator difícil. O realizador Joel Schumacher considerou mesmo Kilmer como o “ser humano mais perturbado psicologicamente” com quem já tinha trabalhado.
No entanto, o seu talento e versatilidade permitiram-lhe continuar a brilhar numa grande variedade de géneros, de comédias a thrillers e até westerns, estabelecendo-o como um artista único em Hollywood.
As coisas só pioraram para Kilmer quando entrou em conflito com o colega de elenco Marlon Brando durante a produção de A Ilha do Dr. Moreau, filme de 1996 que acabou por ser um fracasso.
“Há duas coisas que nunca mais faria na vida”, disse posteriormente John Frankenheimer, que realizou o filme. “Nunca vou escalar o Monte Evereste e nunca mais vou trabalhar com Val Kilmer. Não há dinheiro suficiente no mundo.”
A par com uma carreira notável, Val Kilmer manteve uma vida pessoal que oscilou entre altos e baixos. Foi casado com a atriz Joanne Whalley, com quem teve dois filhos, Mercedes e Jack, de 29 anos, no entanto o casamento acabou em divórcio ao fim de oito anos. Foram também amplamentes expostas as suas relações com a cantora Cher e a modelo Cindy Crawford, mas também namorou com Angelina Jolie de forma mais discreta.
A partir de 2000, a carreira de Kilmer conheceu um ritmo mais lento. Durante a sua batalha contra o cancro na garganta, que lhe custou a voz, o ator encontrou consolo na fé e na sua arte. Apesar das dificuldades, continuou a trabalhar.
Em 2021, é lançado Val, um documentário comovente sobre a sua vida, que revelou um ser vulnerável, disposto a partilhar os seus momentos mais difíceis, as batalhas pessoais, as complexidades das suas relações familiares e, acima de tudo, o seu amor inabalável pela representação.
Morreu o ator Val Kilmer