
Guardião dos frágeis
A palavra Papa derivará do latim papa e do grego pappas, uma forma carinhosa de referência à figura paterna que em português resultou em papá. Um Papa deverá, portanto, ser um representante do Pai celeste que tem como missão conduzir e ajudar o rebanho de fiéis durante o seu percurso terreno. Francisco, que enquanto padre, bispo e cardeal sempre se dedicou aos mais frágeis os pobres, os doentes, mas também aqueles que, segundo os mandamentos de Cristo, caíram em pecado mostrou na homilia da missa solene de inauguração do seu pontificado que é esse tipo de Papa que quer ser.
Por uma extraordinária coincidência, esta missa realizou-se a 19 de março, dia de S. José e, por isso mesmo, Dia do Pai. E foi a partir do papel de guardião dedicado e sensível que o carpinteiro de Nazaré desempenhou junto de Maria, de Jesus e, como tal, da Igreja, que o novo Papa dissertou, com base num escrito, mas com alguma improvisação.
Perante largos milhares de fiéis, mas também de representantes de 150 países e de organizações internacionais e de um vasto número de clérigos, Francisco lembrou que a vocação de guardião da “beleza da criação”, de “toda a criatura de Deus” e do “ambiente onde vivemos”, mas também de todas as pessoas, e “especialmente das crianças, dos idosos, dos que são mais frágeis e que muitas vezes estão na periferia do nosso coração” não é um exclusivo de cristãos, mas sim de todos os seres humanos. E apelou a “quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade” para que sejam “guardiães dos dons de Deus”.
Líder entre líderes
Além de líder religioso, o Papa é, também, uma figura política, pois é chefe de um Estado independente, o Vaticano, no qual detém o poder legislativo, executivo e judicial. Por isso, a entronização de um Papa é, também, uma tomada de posse em que todos os Estados que mantêm relações diplomáticas com o Vaticano se fazem representar. A de Francisco contou com a presença de 150 delegações de vários países e de organizações internacionais, 31 chefes de Estado e 11 de governo, seis soberanos reinantes e vários príncipes herdeiros.
No centro das atenções, porém, e não pelas melhores razões, estiveram o presidente do Zimbabué, Robert Mugabe que está proibido de entrar em território da UE, por ser acusado de crimes contra os Direitos Humanos e Cristina Kirshner, a presidente argentina, que sempre manteve uma relação tensa com Jorge Bergoglio.
Um Papa com humor
Quando, pelas 20h45 (hora de Roma) de dia 13 de março, assomou à varanda do Palácio do Vaticano, já transformado em Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio, recém-eleito, aos 76 anos, Sumo Pontífice da Igreja de Roma, teve uma reação que por momentos desconcertou a multidão aglomerada na Praça de S. Pedro: depois de um breve aceno, permaneceu por longos instantes estático a observar o que se passava a seus pés. E a deixar que o observassem a ele. Depois, subitamente, este homem de dimensões físicas generosas ganhou vida, sorriu com o rosto inteiro, acenou ao rebanho de fiéis e, com voz serena, mas emocionada, disse “boa noite” aos seus “irmãos e irmãs” e, em tom de quem conta uma piada, comentou, num italiano corretíssimo: “Sabeis que o dever do Conclave era dar um bispo a Roma. Parece que os meus colegas cardeais foram buscá-lo ao fim do mundo!” O humor com que disse esta simples frase bastou para que o novo Papa conquistasse de imediato a simpatia de quem o ouviu in loco ou acompanhou o acontecimento pela televisão.
Num tempo em que a Igreja Católica é afetada por escândalos vários, dos casos de pedofilia ao Vatileaks, a atitude simples, humana e cúmplice do próximo que Francisco mostrou nos seus primeiros passos como Papa seduziu católicos e não só.
Homem frugal
O primeiro sul-americano e primeiro membro da Companhia de Jesus ordem famosa por ter produzido alguns dos intelectuais mais profundos e livres pensadores da história da Igreja de Roma a sentar-se no opulento trono de Pedro é, também, o primeiro a chamar-se Francisco. Uma homenagem a Francisco de Assis, o santo dos pobres e humildes, e que a maioria dos analistas considera ser uma demonstração da humildade, da profunda consciência social e da vontade de mudar a liderança do rebanho de 1,2 biliões de católicos do novo Papa.
A imprensa mundial deu, aliás, grande eco ao estilo de vida frugal que Jorge Bergoglio sempre manteve: arcebispo de Buenos Aires desde 1998, recusou mudar-se para o paço episcopal, continuando a viver num pequeno apartamento e a cozinhar as suas próprias refeições. De igual modo, rejeitou a viatura com motorista a que tinha direito e continuou a usar os transportes públicos. E quando, em 2001, foi nomeado cardeal por João Paulo II, pediu aos argentinos que queriam acompanhá-lo ao Vaticano que não o fizessem e doassem aos pobres o dinheiro que gastariam com a viagem.
Nascido em Buenos Aires a 17 de dezembro de 1936, filho de Mario Bergoglio, um imigrante italiano que trabalhava nos caminhos de ferro, e de Regina Maria Sivori, doméstica, Jorge Mario Bergoglio tem quatro irmãos. Cresceu num ambiente confortável, mas sem luxos, licenciou-se e fez um mestrado em Engenharia Química, mas a vocação religiosa levou-o a tornar-se noviço da Companhia de Jesus em 1958, sendo ordenado padre aos 33 anos. Graduado em Filosofia e Teologia, durante vários anos acumulou o sacerdócio com o ensino.
A voz crítica
Teologicamente, Francisco não tem posições muito distintas das do seu antecessor. É um feroz crítico do casamento homossexual, por defender que “as crianças têm o direito a ser educadas por um pai e uma mãe”, é contra o aborto, a eutanásia e a contraceção. Em contrapartida, é um defensor do diálogo ecuménico e do respeito por todos os tipos de credo e não se opõe ao uso do preservativo como forma de evitar doenças infecciosas. Nos anais ficou, aliás, uma visita que o recém-nomeado cardeal Bergoglio fez a um hospital, na Páscoa de 2001, durante a qual lavou e beijou os pés de 12 doentes com sida.
Uma das maiores diferenças de Francisco em relação a Bento XVI é a atitude perante as injustiças sociais. O cardeal argentino nunca deixou de elevar a sua voz contra o abismo que separa ricos e pobres e milita por uma Igreja pobre ao serviço dos mais pobres. E se é certo que pairam sobre ele algumas dúvidas quanto ao tipo de relação que manteve com a ditadura militar do general Videla (entre 1976 e 1981), e que há quem o acuse de ter sido diretamente responsável pelo cativeiro de dois padres jesuítas opositores a esse regime, também há quem assegure precisamente o contrário: que nesses anos acolheu em território da igreja vários opositores foragidos.
Em contrapartida, nunca deixou de condenar abertamente os excessos e o exibicionismo do casal Kirchner – Néstor Kirchner foi presidente da Argentina entre 2003 e 2007, sucedendo-lhe a mulher, Cristina, que se mantém no cargo e considera Bergoglio um dos seus principais opositores políticos.
Já na questão dos sacerdotes pedófilos, o novo Papa é radical e diz que um padre que tenha cometido tal crime tem de ser expulso da Igreja e julgado em tribunal.

“Um pouco de misericórdia muda o mundo, torna-o menos frio e mais justo!”
Papa Francisco