
Após um hiato de oito anos desde o seu álbum de estreia a solo, lançou no início do ano o segundo trabalho instrumental, intitulado Sem Palavras, compilando todo o seu conhecimento e formação musical. Marta Pereira da Costa não tem dúvidas de que tomou a decisão certa ao trocar a engenharia e a formação clássica em piano pela guitarra portuguesa e pelo fado. Com uma agenda de concertos preenchida, especialmente no estrangeiro, a artista, de 42 anos, conversou com a CARAS pouco antes de voar para Paris, para mais um espetáculo. A cada nova aventura, leva sempre consigo na “bagagem” o desejo de levar a guitarra portuguesa além-fronteiras e as saudades dos filhos gémeos, Constança e Vicente, de 15 anos, da antiga relação com o fadista Rodrigo Costa Félix.
– Quando, há 13 anos, trocou a engenharia pelo fado e a guitarra portuguesa, imaginava como a sua vida iria mudar?
Marta Pereira da Costa – Estou muito feliz com o caminho que tenho feito e o retorno que recebo. Quando comecei, não imaginava tanto. Sinto que a minha carreira deu um salto em termos internacionais no último ano, após o concerto intimista no Tiny Desk Concert, a convite da NPR, a rádio pública norte-americana, no final de 2023. Tenho vontade de continuar, de fazer muito mais coisas. Quero levar a guitarra portuguesa o mais longe possível, aprender a tocar cada vez melhor, criar pontes com outros géneros e músicos.
– Este segundo álbum surge após uma pausa de oito anos. Porquê?
– É o meu segundo trabalho em nome próprio. Em 2016, lancei o meu primeiro e com vontade de mostrar muita coisa e com muitos convidados. Passou muito tempo, mas sinto que precisei dele para aprender. Neste disco, quis fazer exatamente o processo inverso, dar destaque à guitarra, procurar um ambiente intimista. É um projeto só instrumental, sem convidados, sem voz, onde pude mostrar as minhas composições, referências, versões de músicas intemporais e que me dizem muito.
– O álbum chama-se Sem Palavras, que é também o nome de uma música que compôs para os seus filhos, Constança e Vicente, de 15 anos. O que procurou dizer-lhes?
– Procurei dizer-lhes que quero ser um exemplo, mostrar-lhes que a perseverança e a determinação vencem. Eles estão superorgulhosos da mãe.
– Ser mãe era um sonho?
– Lutei muito para concretizar o desejo de ser mãe. Foram seis anos para que eles pudessem vir ao mundo. E vieram logo dois, gémeos. Têm 8 minutos de diferença. Ser mãe foi e é o meu grande sonho.
– Enquanto mãe, houve o receio em deixar uma carreira mais estável na engenharia para dedicar-se inteiramente a uma nova, na música?
– Sim. Sendo mãe, não foi fácil largar uma profissão estável e lutar por outra que é instável e incerta. Foi e é um grande desafio. Além disso, conciliar tudo: ter tempo para os meus filhos, para mim, para ser mulher.
– A vida na música implica muitas digressões pelo país e fora. Como concilia os espetáculos com a maternidade?
– Tenho de desdobrar-me muito, mas há uma coisa que não falta quando estou fora: telefono todos os dias aos meus filhos. Fazemos os trabalhos de casa online. Mesmo que eu esteja em Hong Kong, com fusos horários diferentes, coloco o despertador a meio da noite para acordar e fazê-los com eles. Tento estar sempre presente para eles, mesmo estando longe.

– Já aconteceu ficar sem vê-los durante um longo período?
– Recentemente, dei a volta ao mundo em 35 dias a fazer espetáculos. Estava muito assustada porque era uma viagem longa, mais de um mês sem estar com os meus filhos. Mas o pai deles [o fadista Rodrigo Costa Félix, de quem está separada] compreende muito bem e também tem esta vida. Conseguimos fazer as vezes um do outro, o que é muito bom. Faço tudo para, esteja onde estiver, manter o contacto próximo diário e regular. Mostrar-lhes que estou presente, seja onde for, é o segredo. Agora já compreendem, estão maiores, mas houve vezes em que choravam a meio das tournées e eu ficava de coração partido.
– Que tempo e espaço fica para o amor?
– Tenho tido alguns desgostos de amor que me desestabilizam imenso. Por outro lado, quando me consigo recuperar e renovar, torno-me mais forte, mais focada e com mais vontade ainda de trabalhar e de viver. E são essas renovações que têm acontecido. Neste momento, estou numa fase muito segura e bem comigo própria. Sem companheiro. Não tenho espaço para isso. E com muito medo de me apaixonar, porque, quando isso acontece, entrego tudo.
– Uma mulher guitarrista intimida os homens?
– Espero que não. Às vezes, dizem que sou muito grande [risos]. Sou superinsegura, transparente, espontânea. Mas acho que não intimido ou meto medo a ninguém. Vamos ver o que o futuro me reserva no amor.
– Que sonhos tem por concretizar?
– Gostava de fazer um concerto com guitarra e orquestra, que fosse dirigida pela maestrina Joana Carneiro. Já falámos sobre isso e, no futuro, vai acontecer. Tenho o sonho de pisar muitos palcos por onde já passaram grandes nomes do fado.
– A agenda de concertos está muito preenchida?
– Mais para fora do país. No ano passado fiz mais de 50. Andei pela Índia, Austrália, varias vezes nos Estados Unidos, Reino Unido, Espanha. Este ano vou ao Panamá, volto ao Brasil, vou a França, Suíça, Bulgária… Tenho pena que a música instrumental em Portugal ainda não tenha as portas tão abertas.

– Há pouco reconhecimento?
– Ainda não há muito espaço para a música instrumental. Com o legado que temos do Carlos Paredes, que faria este ano 100 anos, tínhamos obrigação de valorizar a música instrumental portuguesa.
– De que forma é que a formação em música clássica e o fado se misturam?
– Venho de uma formação clássica, tocava piano desde os 4 anos e queria ser pianista. Em que aí se lê partituras. E o fado é o oposto disso: é tradição oral, é ver os mestres tocar e imitar, é ouvir o fadista cantar e arriscar e responder.