
Bela Silva nasceu em Lisboa em 1966. Licenciada em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, frequentou escolas de arte internacionais como o Ar.Co, o Norwich Fine Arts no Reino Unido, e o Art Institute de Chicago, onde obteve o título de Mestre em Arte. A sua obra transita entre escultura, ilustração, arte pública e colaborações com o design de moda, como no caso do célebre carré que criou para a Hermès, tornando-se na primeira portuguesa a assinar um dos famosos lenços de seda da casa francesa. Participou em exposições coletivas de azulejaria no Brasil, Espanha e França, ministrou cursos de cerâmica no Japão e em Marrocos, ganhou residências artísticas em Kohler, Wisconsin, EUA e na Fábrica Bordalo Pinheiro. Realizou diversas peças de arte pública entre as quais os painéis de azulejos para a estação de Alvalade, do Metro de Lisboa; painéis para os jardins do Centro Cultural Sakai, Japão; e painéis para a escola João de Deus, Açores.
Hoje, vive entre Lisboa e Bruxelas, onde continua a explorar a cerâmica e outros meios, com obras expostas em locais prestigiados como o Museu do Azulejo, a Fundação Calouste Gulbenkian, e até o Japão.
– Como surgiu a ideia de criar As Janelas da Bela? O que deseja que os visitantes sintam ao observar as suas peças nas montras?
Bela Silva – Este projeto nasceu de um convite do Carlos Pissarra. A montra é uma vitrine para as pessoas conhecerem o meu trabalho e me ficarem a conhecer. Achei interessante esta ligação com a moda, que tem o poder de transformar, mesmo numa época em que parece que nos vestimos todos iguais. Gosto de resgatar a criatividade de épocas como os anos 60.
– De que forma a influência familiar e a moda moldaram a sua visão artística?
– A minha mãe trabalho na área da moda, desenhava modelos em papel, e as minhas tias também eram muito ligadas atentas ao que se passava mo mundo da moda, inspiravam-se em Mary Quant e noutras referências. Mais tarde, nos Estados Unidos, as lojas vintage também me encantaram. Lembro-me de um vestido maravilhoso que comprei, mas que se desfez no dia em que o levei numa noite de ópera [risos]. Acho que os fios já se desfaziam, mas era um modelo lindíssimo.
– Quais as principais influências da cerâmica oriental na sua obra?
– Sou uma pessoa muito curiosa e fascida por outras culturas. Expor na China e no Japão foi transformador. A cerâmica desses lugares é extraordinária, e não me esqueço de uma toalha bordada com pagodes e gueixas que a minha mãe tinha, que acabou por se perder no meio das minhas constantes mudanças de um lado para o outro. Foi uma perda pessoal, mas essa memória alimenta a minha inspiração. Também fiz Arqueologia, que acaba por me atrair para outros povos. Agora, por exemplo, estive em África, que me inspira pela sua paleta de cores, assim como o Brasil e a sua vegetação tropical.

– Como é dividir a vida entre Lisboa e Bruxelas?
– Estou sempre com a mala aberta. Essa dinâmica faz parte de ser artista: nunca há um caminho pronto. A minha amiga Mísia, cantora de fado, também diz sempre que nunca chega a fechar a mala, por causa dessa viagem constante, desse efeito de nós, artistas, andarmos sempre de um lado para o outro a abrir caminhos, porque nunca o caminho está feito, nunca está conquistado. É preciso entrega, compromisso e uma dose de disciplina. As pessoas pensam que o artista é aquela pessoa que fica no dolce far niente, a fumar uns charros e mais não sei o quê, mas não. Tem que haver entrega, compromisso, responsabilidade e disciplina.
– A moda e a arte cerâmica têm algo em comum?
-Para mim, sim. Ambas são criativas e técnicas. Cerâmica é como um casamento – exige dedicação. Já o desenho é como um affair, mais leve e espontâneo. No entanto, ambos se completam no meu processo.
– As Janelas de Bela conecta moda, arte e o público. Que mensagem deseja transmitir com esta exposição?
– Quero que as pessoas sintam curiosidade e conexão. Assim como a moda transforma, a minha arte também procura dialogar com o quotidiano, com uma paleta de cores que reflita a vida e a natureza.