
Na medicina estética, a delicada área ao redor dos olhos tem conquistado um protagonismo crescente. Reconhecida pela sua experiência em oftalmologia e cirurgia oculoplástica, a especialista Ana Teresa Nunes revela o que a motivou a expandir o seu percurso para o rejuvenescimento periocular, uma vertente que alia ciência, tecnologia e um olhar atento às necessidades individuais dos pacientes.
– A área da estética anti-aging tem crescido exponencialmente. Como especialista em oftalmologia e rejuvenescimento periocular, o que motivou a sua dedicação a esta vertente?
Ana Teresa Nunes – Como oftalmologista dedicada à cirurgia plástica ocular, também denominada oculoplástica, que é o nome que damos a esta nossa subespecialidade, senti uma necessidade crescente nestes últimos anos em formar-me e aprender novas estratégias terapêuticas dentro da medicina estética, de modo a complementar o meu trabalho cirúrgico e assim obter melhores resultados. A minha dedicação a esta vertente é motivada também pelo desejo de oferecer soluções personalizadas para problemas, como pequenos excessos de pele e discreta flacidez periocular, olheiras profundas, que podemos tentar tratar com abordagens inovadoras e minimamente invasivas. Também assim consigo resultados mais completos, porque, para além de rejuvenescer o olhar, também melhoro alguma característica do rosto, tornando-o mais harmonioso. Afinal, a região ao redor dos olhos é particularmente delicada e uma das primeiras a revelar sinais de envelhecimento.
– Quais são os principais fatores que contribuem para este fenómeno?
– A pele ao redor dos olhos é a mais fina do nosso corpo, o que faz com que seja mais vulnerável e reveladora do nosso envelhecimento, mas existem outros fatores que devemos ter em conta. A exposição solar (acelera o envelhecimento cutâneo, produzindo rugas e manchas na pele), os movimentos repetitivos faciais (como o piscar, as expressões faciais, que levam à formação de linhas nessa região), uma hidratação insuficiente (faz com que a pele perca elasticidade mais rapidamente), fatores genéticos, estilo de vida (viver com stress, sono de má qualidade, consumo de álcool, tabaco ou açúcar) são todos fatores que aceleram o envelhecimento da pele.

– Em termos de procedimentos, que soluções não invasivas são mais procuradas para o rejuvenescimento periocular?
– Existem várias soluções. Entre as mais procuradas e que uso nas clínicas onde trabalho posso referir o laser Fotona (protocolo Smootheye), que consiste num tratamento que combina modos ablativos e não ablativos de laser para melhorar a textura da pele, reduzir rugas e aumentar a firmeza da pele. Em alguns casos é uma alternativa à blefaroplastia; preenchimentos dérmicos com ácido hialurónico para suavizar olheiras e preencher zonas com perda de volume, proporcionando um ar mais descansado; toxina botulínica, que ajuda a relaxar os músculos responsáveis pelas linhas de expressão, como os conhecidos “pés de galinha” ou aquela ruguinha vertical entre as sobrancelhas; microagulhamento com drug delivery ou PRP, que estimulam a produção de colagénio e melhoram a elasticidade da pele. Todos estes procedimentos são rápidos, seguros e geralmente não requerem tempo de recuperação significativo, daí serem tão procurados. A cirurgia plástica ocular, como a blefaroplastia, é uma solução definitiva para alguns casos.
– Em que situações recomenda este procedimento?
– A blefaroplastia é indicada em situações específicas, por razões puramente estéticas ou motivos funcionais. Por exemplo, se há excesso de pele, bolsas de gordura proeminentes superiores e inferiores, ptose palpebral (olho mais fechado do que o outro), visão prejudicada em que o excesso de pele interfere com o campo visual ou por uma aparência envelhecida. Tenho reparado cada vez mais que, para contrariar esse envelhecimento, algumas mulheres compensam esse fator com extensões de pestanas e muitas vezes o que precisam é de cirurgia para tirar esse olhar cansado, pesado e envelhecido.

– Quais são as expectativas realistas que os pacientes devem ter ao recorrer a tratamentos de rejuvenescimento periocular?
– Quem procura tratamentos não cirúrgicos de rejuvenescimento periocular e, portanto, com uma recuperação mais rápida, tem de saber de antemão que as melhorias são mais subtis e que são necessárias várias sessões até obter um resultado significativo. Trata-se de um processo gradual, mas que permite resultados naturais e sem alterações drásticas. São, no entanto, tratamentos com resultados temporários que exigem manutenção periódica, como, por exemplo, os preenchimentos dérmicos com vitaminas e/ou ácido hialurónico, como a toxina botulínica. Convém referir que apresentam algumas limitações no sentido em que, quando a solução é cirúrgica, como nos casos de grande excesso de pele ou bolsas de gordura pronunciadas, não valerá muito a pena alimentar este caminho. Eventualmente após a cirurgia poderá ser uma solução complementar. Outro ponto importante que gostaria de destacar é a individualidade da resposta de cada pessoa ao tratamento. É por isso essencial gerir bem as expectativas, antes da realização de qualquer tratamento, e explicar bem ao utente quais os objetivos alcançáveis com as distintas técnicas disponíveis.
– Para além do consultório, o que podemos fazer no dia a dia para cuidar da saúde e da estética do olhar?
– Podemos fazer muita coisa, gestos fáceis e eficazes. É fundamental uma hidratação adequada com cremes específicos, proteção solar todos os dias do ano (utilização de óculos de sol e protetor solar nas pálpebras), ter um sono de qualidade, usar compressas frias embebidas em chá de camomila ou água fria para aliviar algum inchaço. Outro ponto crucial é a nutrição. Uma alimentação equilibrada, dando prioridade à ingestão de alimentos ricos em antioxidantes e poucos açúcares, ajuda-nos a proteger a pele contra o envelhecimento. Com cuidados regulares e os produtos adequados, é possível manter a pele ao redor dos olhos saudável e com um aspeto fresco, no entanto, aconselho que marque uma consulta de avaliação antes de investir em cremes desnecessários ou desadequados.
– Como vê a evolução da procura por tratamentos estéticos?
– A tendência atual é que a procura de tratamentos estéticos anti-aging aumente, com foco na prevenção, atrasando o processo de envelhecimento de uma forma personalizada. Cada vez mais a medicina estética tem proporcionado resultados naturais e subtis, o que tem facilitado a sua normalização e o aumento da sua procura. Outro aspeto que tem contribuído para a sua procura crescente é que a medicina estética realizada por médicos especializados apoiada por uma base de evidência científica, deixou de ser um procedimento fútil e superficial, passando a ser vista como um fator de saúde e bem-estar.
– Qual é a sua visão sobre o futuro da medicina estética anti-aging?
– Os avanços tecnológicos e os novos protocolos que surgem todos os anos, sustentados pela evidência científica, cada vez mais confirmam a sua segurança e eficácia, o que nos permite acabar com tabus e preconceitos ainda existentes. A inteligência artificial ajuda-nos com diagnósticos mais precisos e planos personalizados, permitindo aos doentes visualizar os resultados dos procedimentos antes de os realizarem. Também acredito muito nos bioestimuladores de colagénio, que são produtos que vão promover a produção natural do nosso colagénio, proporcionando resultados mais naturais e duradouros.

Percurso académico e profissional
Licenciada em Medicina pela Universidade de Badajoz em 2006. Obteve o título de Mestre em 2011 na área de Doenças Metabólicas e Comportamento Alimentar pela Faculdade de Medicina de Lisboa. Especializou-se em Oftalmologia no Hospital de Santa Maria desde 2015 com dedicação exclusiva à área de Cirurgia Oculoplástica e Cirurgia de Catarata. Realizou a pós-graduação de Medicina Estética pela Universidade de Alcalá de Henares (Madrid) em 2022/23. Fez várias formações complementares em Cirurgia Oculoplástica e Medicina Estética, destacando o seu estágio de Oculoplástica no Hospital Ramón e Cajal (Madrid). É membro da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia e da Sociedade Portuguesa de Medicina Estética. Trabalha atualmente nas Clínicas Joaquim Chaves, onde realiza os procedimentos cirúrgicos e estéticos descritos, e na Clínica Metamorfose.