
Comunicadora de voz inconfundível e pensamento aguçado, Inês Meneses, de 53 anos, continua a afirmar-se como uma presença marcante no panorama cultural português. Conhecida pelas conversas íntimas e inteligentes que conduz na rádio e as crónicas publicadas no site do jornal Público, Inês acaba de lançar o seu mais recente livro, Linhas de Valor Acrescentado, uma obra que se desenha entre o pessoal e o universal, costurada com fio sensível.
Nesta entrevista, a autora fala com emoção do amor, da amizade e das mulheres – territórios onde tantas vezes mergulha nas suas crónicas – e abre o coração ao falar da filha, Maria Inês, de 17 anos, presença luminosa na sua vida, e do marido, o músico Tozé Brito, de 73, a quem reconhece cumplicidade e afeto duradouro.
Sempre com o olhar delicado de quem sabe que, na vida e na escrita, o essencial não se grita, escuta-se.
– Este livro aborda o amor. Porquê o amor?
Inês Meneses – Porque é uma linguagem que pratico. Neste livro, foco amor, mas também a amizade, que é outra forma de amor, e o poder das mulheres. Acabo por escrever sobre aquilo que acho que conheço bem e me rodeia: os amigos, que são uma grande fortuna, o amor, os vários tipos de amor. Também acho importante nós, mulheres, refletirmos sobre o nosso papel, apelar à nossa união, reforçar a força que já temos mas que, às vezes, parece camuflada por causa da sociedade.
– Uma sociedade que parece caminhar no sentido inverso no que às mulheres diz respeito.
– Ganhámos uma voz muito mais forte e isso abalou uma sociedade que continua a ser machista. Vivemos de avanços e recuos e temos de estar preparadas. Isto não é uma guerra dos sexos, mas é quase. O mundo perfeito será aquele em que não há violência doméstica ou qualquer outra atrocidade praticada contra as mulheres. Sobretudo, é muito importante lembrarmo-nos de todas as nossas forças. Podemos ser vulneráveis e fortes no mesmo dia. Não nos vejam como o sexo fraco – felizmente essa expressão saiu do nosso léxico –, somos muito fortes.
– Escreve sempre na primeira pessoa?
– Sempre! Os meus livros são uma espécie de diário contínuo que vou fazendo. Se fôssemos ver à lupa, o livro é parte do meu último ano e meio.
– Neste tempo, debruçou-se sobre os amores que passaram pela sua vida?
– Isso é a minha vida toda. Vou, de facto, das pequenas às grandes histórias de amor. Nunca faço uma grande distinção. Gosto imenso de voltar ao passado, até para pôr as coisas em perspetiva. O amor, para mim, é uma história contínua, nunca acaba. Nós voltamos sempre lá e podemos contá-lo até de outra forma. O amor é uma história interminável.
– E onde guarda a dor, porque o amor, por vezes, também é dor?
– Depois do meu livro anterior, em que punha muito as minhas dores a descoberto, pois era o luto da minha mãe ainda em carne viva, este não tem lugar para dores, curiosamente. Não tive de as guardar, portanto. Mesmo as coisas que correram mal no passado gosto de as reciclar e transformar sempre em coisas boas. Tiveram o seu momento, tiveram um princípio, meio e fim e, mesmo quando não foi bom, foi tornado numa coisa boa. Há sempre uma perspetiva positiva daquilo que se viveu. Sou bastante otimista e gosto de reciclar e tornar mais feliz. Não sou de ficar presa ao que correu menos bem e deixar que esse pensamento fique em mim.

– Deixa-se encantar sem defesas nem reservas?
– Deixo-me sempre encantar. Sou apaixonada por definição. Estamos num jardim no meio da cidade, um pequeno oásis, isto é um privilégio, e é assim que me sinto com tudo na vida: muito grata. Sinto-me grata pelas coisas que me foram acontecendo e não deixo que as más ocupem lugar dentro de mim.
– Voltando ao tema liberdade, receia que a sua filha possa ver a sua liberdade coartada?
– Sinto que a minha filha, sendo um ser completamente livre, vai lidar com estes recuos de que falámos. Num momento em que as mulheres ganham força, é natural que nos possamos debater com a ameaça de algumas liberdades serem postas em causa. Ela vai enfrentar – já enfrenta, tal como toda a sua geração – novos desafios para o bem e para o mal. O mundo é um sítio fascinante, mas também tem perigos. Sou uma otimista consciente das limitações que nos cercam. Não estou sempre a dourar a pílula. Sei que, neste momento, podemos enfrentar coisas mais complicadas e a geração dos nossos filhos vai passar por muitos confrontos.
– Passou-lhe a mensagem de que nada é garantido e é preciso lutar por aquilo em que acreditamos?
– Sim, mas na verdade é preciso passar por uma série de privações para sabermos a que sabe e o que custa a liberdade. Vim de uma mãe que não teve liberdade e eu tive e tenho necessidade de gritar pela liberdade. A minha filha está a ser poupada a muitas coisas da minha parte, enquanto mãe. Não tenho dúvidas, nem problemas, em dizer que a mimo a 100%, dou-lhe tudo o que posso, embora ela seja a primeira a filtrar o excesso. Acho que os pais que passaram por algum tipo de privação têm depois necessidade de compensar os filhos e a minha está a ser muito compensada. No entanto, sei que vai descobrir o meio-termo. Eu descobri. Passei de não ter liberdade para ter total liberdade, acesso a tudo, e depois soube dosear.
– Com uma guerra na Europa, conflitos em Gaza e uma política de fecho de portas nos Estados Unidos, chegou a hora das novas gerações, em que a Maria Inês se encontra, perceberem que ser livre pode ser efémero?
– Completamente. Acho até que vivem com mais consciência, pois há um receio que paira no ar. No caso da minha filha está muito atenta às notícias, herdou isso dos pais, e está preocupada. Faz parte de uma geração que assiste a várias ofensivas.
– Como tem sido para si deixá-la voar?
– Ela tem de aprender a viver. É uma miúda livre e eu tenho de me preparar para o dia em que vai libertar-se de mim. Quando só temos um filho, somos hipervigilantes. Os pais dos filhos únicos sofrem a dobrar, porque sendo só um a atenção recai toda sobre esse filho. Hoje, gostaria de ter mais, mas despertei tarde.
– “Só se descobre com a idade e um coração cheio de fendas: o amor não é para os impacientes”, é um das frases destacadas nesta obra e que diz muito.
– Quando somos novos estamos sempre em ansiedade. Ansiedade que o telefone toque, que a mensagem chegue, que haja um sinal do outro lado e, se calhar, o amor não passa por aí, passa por saber esperar, saber dosear. Isso é o amor. A paixão é outra coisa, é sofreguidão, não dormir. Com a idade vamos aprendendo a amar de outra forma, felizmente, senão era tudo muito intenso. Eu já sou muito intensa, então não aguentava.
– Vive um amor sereno com Tozé Brito?
– Vivo. É um amor que sabe ser construído. Somos cúmplices, partilhamos a vida, as canções, os jantares e os filmes. Claro que estes amores tardios também têm os seus obstáculos, mas, apesar de tudo, há outra calma, já não é sofreguidão. Conseguimos integrar os defeitos, as particularidades de cada um, os dias bons, os que não se dormiu, os dias em que estivemos mais carentes, os que estivemos mais empoderados. O amor e a amizade são uma construção diária. Sou muito ansiosa, não parecendo, e com o tempo tenho aprendido a construir. É difícil às vezes.

– Partilhar as canções é uma frase muito bonita. Não há vida a dois sem cumplicidade?
– Penso que não. Ainda hoje trocávamos mensagens e disse “temos de voltar a ouvir mais canções”, porque às vezes cada um está a ouvir as suas, o que é natural, mas também é bom ouvir uma canção a dois. Descobri-la ou redescobri-la. Faz bem. É um ritual que os casais deviam praticar. A partilha e a conversa são essenciais no amor.
– Sem elas, instala-se o silêncio.
– Claro e o silêncio pode ser um lugar onde se escondem muitas sombras.
– Já viveu com muitas sombras?
– Não, só não fui uma adolescente muito feliz, mas isso é normal. Gostava de música depressiva, vestia-me de preto. Tinha um lado gótico. Hoje em dia, aprecio muitíssimo todas as cores, todos os padrões. Honestamente, nunca vivi com muitas sombras, mas saboreio agora uma adolescência feliz, aquela que não vivi na altura. Gosto de dançar, de sair, de estar com os amigos sem horas, de ficar fascinada com uma descoberta. Sou uma eterna adolescente. Estou na meia-idade, mas antes na meia-idade que na Idade Média. Sou bastante feliz agora.
– É mais feliz agora?
– Acho que sim. Apesar de ainda ser um bocadinho ansiosa, sou muito mais calma. Vivi intensamente e sou bastante feliz com o que tenho.
– O que lhe falta ainda sonhar?
– Vou ser muito pragmática: falta-me tirar a carta de condução. Tenho um sonho recorrente em que estou a conduzir num carro e a ouvir música de janela aberta. Ainda não tirei, porque tenho de estudar o código. Como se vê, não sou megalómana nem ambiciosa. Quero coisas simples. Quero, sobretudo, saúde para mim e para os que estão à minha volta. Habituei-me a lutar pelo resto. Comecei a trabalhar aos 16 anos e nunca mais parei.
– É uma curiosa da vida?
– Sou uma curiosa da vida e ando sempre com uma lupa invisível para tentar ver melhor. Sobretudo, estou atenta, principalmente às pessoas. Quem não estiver atento a este pulsar do mundo deixa escapar muitas coisas.
Agradecemos a colaboração de Hotel Hotel
Cabelos: Francisco Souza
Maquilhagem: Joziane Lima