
Quando Ana Mesquita idealizou a exposição Não Descartáveis em 2019, a ideia parecia um sonho distante. Hoje, concretizada no emblemático Edifício do Relógio, na Baía de Cascais, a mostra não só materializa a visão da artista como também revitaliza um espaço histórico. Com apoio da Câmara Municipal de Cascais e o patrocínio da Sociedade Ponto Verde, a exposição é mais do que arte: é um manifesto, uma experiência comunitária e um convite à reflexão sobre sustentabilidade e humanidade.
– O título da exposição “Não Descartáveis” é muito forte e sugestivo. Como surgiu esta ideia e que mensagem espera transmitir?
Ana Mesquita – O título resulta de anos a juntar embalagens cujo design gráfico me prendia, como foi o caso do Chá Mandela que comprei em Maputo, numa das viagens à minha terra, Moçambique, em 2018. Quando em 2022 criei obras de arte com os utentes da Associação Quinta Essência, associei a ideia de não descartáveis, no sentido do não desperdício e da reutilização para a arte, à ideia de que “nada nem ninguém se descarta”, por me incomodar o racismo galopante, aplicado a tudo e a todos, dos novos desumanos.
– O Edifício do Relógio foi revitalizado para acolher esta mostra. Como tem sido trabalhar neste espaço histórico, transformando-o num ateliê e galeria?
– Quando visitei o primeiro andar do Edifício do Relógio, em março de 2023, dei com um espaço cheio de potencial, porém devoluto há quase uma década e em mau estado. Em oito meses construí uma galeria, com um ateliê integrado e uma sala e cinema, que hoje acolhe os visitantes. Aqui tenho sido feliz a criar novas obras de grandes dimensões.
– Além das obras, a exposição inclui atividades com foco na educação ambiental. Como vê o papel da arte na sensibilização para questões ecológicas?
– Toda a ideia da exposição pretende alertar para a importância da economia circular. Reutilizando materiais que teriam sido lixo, fazemos a ponte entre a ancestralidade e o contemporâneo, dando uma nova existência a todo o tipo de embalagens de cartão e papel. A multiculturalidade expressa nestes invólucros de diferentes origens, idiomas e iconografias, junta-se e segue uma paleta de cores preestabelecida, que cria unidade entre as obras patentes.
– Ao longo da sua carreira, tem transitado entre várias linguagens artísticas, do design de moda ao jornalismo e à videoarte. De que forma estes diferentes campos moldaram a artista que é hoje?
– O denominador comum do meu percurso profissional é a curiosidade. Foi movida pelo desejo de conhecer e de fazer acontecer que me envolvi com a criação artística, a escrita, o jornalismo e a comunicação. Em qualquer processo criativo, opto pela motivação da curiosidade em lugar do medo. Penso, logo afirmo e atrevo-me. Procuro transformar o medo em coragem.

– A exposição também celebra a inclusão, com a participação de iniciativas como o Café Joyeux e a Associação Quinta Essência. Porque é que era importante para si incluir essa dimensão no projeto?
– O conceito “não descartáveis”, nada nem ninguém se descarta, diz tudo. O conceito nasceu da verdade dos dias. Interessa-me explorar os caminhos do diálogo. Sei que, com estes companheiros que escolho, levo o meu processo criativo por caminhos inexplorados e farto-me de aprender, trabalhando com quem cria arte com o puro intuito de erguer pontes.
– A sustentabilidade não está apenas nas obras, mas também no próprio conceito de economia circular. Qual é a importância de trazer essa visão para a arte contemporânea?
– A atividade da espécie humana tem tido cada vez pior impacto global. Se falarmos a linguagem dos nossos corações inquietos, temos de o fazer em consciência e com coragem. Cada um opta pelo método que o seduz e melhor domina, “a narrativa” que lhe parece espelhar melhor a sociedade e o ambiente que o rodeia. Nasci em África e aprendi a fazer nascer das coisas outras coisas. No meu processo, utilizo o papel-cartão, um material incrivelmente colorido, duradouro e moldável. Crio colagens e esculturas e procuro transmitir a ideia de que temos tudo e não sabemos.

– Como descreveria a essência do seu trabalho artístico? Existe algum tema ou emoção que esteja sempre presente nas suas obras?
– Criar uma consciência de solidariedade, de que somos muito mais interessantes quando construímos pontes do que quando inventamos guerras, fossos raciais ou distâncias de credos. Foi por causa da capacidade de nos entreajudarmos que nos tornámos a espécie dominante que somos. Crescer em África, viver lá, ou frequentar aquele continente, traz estas lições.
– Qual é o maior ensinamento que a arte trouxe para a sua vida pessoal?
– Sempre a aprender em cada novo projeto. Quem aprende a fruir a arte, seja pela perspetiva estética ou conceptual, quem lê, quem ouve música com prazer, nunca está sozinho. E se por acaso tiver de sofrer, sofre mais bonito.