
Há largos anos apaixonada pela pintura e colagens de folhas e flores, Regina Duarte escolheu aquela que considera a sua “segunda pátria” para apresentar a sua primeira exposição internacional. Conhecida do grande público e com uma carreira aclamada na representação, a atriz (e agora artista plástica), de 78 anos, tem no Palácio Biester, em Sintra, mais de duas dezenas de obras que podem ser adquiridas. A exposição, patente até junho, tem curadoria de Ana Carolina de Villanueva, responsável pela Luka Art Gallery.
Polémica e doce, sensível e pragmática, Regina Duarte conversou com a CARAS sobre esta nova fase da sua vida, mas também da carreira, do papel enquanto mãe de três e avó de sete e da sua ligação à política, que durou apenas 75 dias.
– Há muitos anos que visita Portugal. Sente-se sempre acarinhada?
Regina Duarte – Há anos que venho a Portugal. Quando as novelas saíam do Brasil, o primeiro país onde “aportavam” era Portugal. Vinha muitas vezes, convidada para vários eventos, e era sempre muito bem recebida. Há anos que venho a Portugal. Acho que a primeira vez que vim foi para um Carnaval em Sines, em 1992. Sinto muito o carinho dos portugueses, somos uma irmandade. Entendem-me, entendem as minhas personagens e a humanidade que pretendo transmitir no meu trabalho. Isso faz com que veja Portugal como a minha segunda pátria. Sou muito grata aos portugueses.
– Como começou esta vertente de artista plástica?
– É uma opção artística nova. Comecei a observar folhas caídas no chão, ressequidas. E a pensar: “Para onde vão essas folhas?” Do nada comecei a recolhê-las. Lavava, limpava, fazia colagens e depois misturava com flores. Comecei a criar quadros e era algo que me dava um entretenimento saboroso. A pintura já fazia parte da minha vida desde 1974. O meu primeiro quadro foi inspirado numa foto da minha família a festejar um Domingo de Páscoa. O quadro ainda está lá. Comecei logo a pintar a óleo.
– Não tem projetos na representação?
– Não há nenhum projeto, mas continuo a pesquisar sobre teatro, à procura de algo que ainda não tenha feito, algo que me entusiasme, que me dê prazer voltar ao palco. Algo novo para mim e para o público. Estou a reorganizar-me.
– Tem três filhos: André, de 55 anos, Gabriela, de 51, e João, de 44. Como é que a maternidade influenciou a sua vida e a sua carreira?
– A maternidade é sempre um enriquecimento para qualquer mulher. Pensamos: “Como é que vou criar este ser?” Mas, depois de ele nascer, surge uma paz e um encantamento. E, a partir daí, começamos a aprender a ser humanos com as novas lições que a criança nos oferece. Começamos a ver a vida com esse olhar infantil. É fascinante e o maior presente que a maternidade nos dá. Gostaria de ter mais filhos, mas tive três e sete netos.
– Que avó é?
– Sou tradicional, no sentido em que acredito que o ser humano não pode perder o respeito pelas relações e deve ser sério com as responsabilidades. São coisas que não podemos deixar para trás e que devemos exercitar com as crianças. Por outro lado, e tendo em conta que os meus pais não brincavam comigo por estarem muito ocupados, hoje há mais tempo para nos divertirmos, convivermos e reaprendermos com as crianças. E gosto disso.

– Teve cinco “casamentos”. Sempre se sentiu uma mulher livre nesse sentido?
– Sou de uma geração que chamava “casamento” quando os apaixonados iam viver juntos. Não fui criada para ficar a namorar. Se me sentia apaixonada e havia reciprocidade, aquilo já era “casamento”. Só o primeiro foi na igreja, vestida de branco e com papel passado. Depois, começava a namorar, a relação ficava mais séria, havia relação sexual, e então “casávamo-nos”, ou seja, morávamos juntos e assumíamos a relação. Foram paixões vividas, às vezes, por quatro, sete ou 12 anos.
– Tem saudades de voltar a apaixonar-se?
– Não sinto necessidade de ter uma relação amorosa. Sou apaixonada pelas pessoas. Tenho a minha vida, gosto dela, tenho quatro gatas que dormem na minha cama. Imaginem ter um companheiro ou companheira? Elas iam ficar furiosas [risos]. Está muito bom assim, graças a Deus.
– Sente que, em algum momento da vida, perdeu o controlo da sua vida?
– Lembro-me da fase em que estive em Brasília, a convite do ex-Presidente Jair Bolsonaro, que foram só 75 dias na Secretaria Especial da Cultura. De repente, percebi que havia poderes a pressionarem-me para fazer opções. Tinha um cargo que era meu e que queria exercer com liberdade. Senti que não ia conseguir e, imediatamente, pedi para sair. Estava apaixonada, feliz, como um guerreiro na luta. Queria concretizar o que considerava bom para a atividade artística, mas dei-me conta de que havia um interesse enorme pelo meu cargo e percebi que ia ser empurrada para um beco. E eu não queria lutar. Percebi que algumas pessoas de poder desejavam o meu cargo. Hoje não quero mais cargos, abomino-os.
– Quando a arte se alia à política, ganha-se ou perde-se?
– O papel que tentei desempenhar era algo para o qual não estava preparada. A política deveria ser uma forma de expressão, um exercício de atuação, uma coisa séria. O povo precisa de pessoas que estudem e gostem de política, sejam sérias e honestas, que respeitem o país e possam fazer em Brasília o que nós, o povo, não podemos fazer “de baixo”. A política deveria ser uma devoção quase religiosa, todos deveriam apoiar, pois temos o direito de escolha. Muita gente não se interessa por política, mas só através dela poderemos ter o país que queremos: conhecendo os candidatos que vão falar por nós, vendo o que cada prefeito [presidente do município] faz.
– Sente que com a sua curta passagem pela política prejudicou a vida profissional?
– Nada. Coincidiu com um período em que não tinha nenhuma proposta que me interessasse há três anos.
– Não há convites para voltar às novelas?
– Não há nada. Estou em paz com isso. Prefiro não ter uma oferta que não me agrade. Sei que o público tem saudades minhas, e eu tenho saudades do público e do meu trabalho.

– Uma personagem marcante foi Raquel na novela Vale Tudo, cujo remake está agora a ser feito. Tem boas recordações?
– É uma novela maravilhosa. É o Brasil ali representado. Estou a torcer, mas às vezes penso que os remakes deviam ser feitos com histórias que tiveram sucesso mediano. Tenho muita pena deste elenco de Vale Tudo, porque será sempre comparado com o da versão anterior. Acho isso de uma crueldade terrível.
– É um presente envenenado?
– É, mas esta versão tem um elenco maravilhoso e toda uma geração que vai ver-se retratada, com certeza. Estou a torcer para que corra tudo bem e seja um sucesso. O que é o sucesso? Ter audiência!
Cabelos e maquilhagem: Joziane Lima e Francisco Souza
Fotos: Luís Coelho e cedidas por MZ Style