
Foto: Arquivo CARAS
No Dia Mundial do Lipedema, saiba o que é esta doença e como pode ser tratada. As respostas são dadas pelo pela Prof. Dr. Jesús Olivas Menayo, cirurgião especialista em Lipedema e fundador do Instituto Português de Lipedema.
O lipedema é uma doença crónica e progressiva, frequentemente incompreendida e subdiagnosticada, que afeta maioritariamente mulheres. Estima-se que 20% da população feminina mundial sofra desta doença e, em Portugal, são afetadas cerca de um milhão de mulheres.
Também conhecida como a doença das pernas gordas, o lipedema é um distúrbio do tecido adiposo, que consiste na proliferação excessiva e, portanto, patológica de células de gordura (adipócitos), sobretudo na metade inferior do corpo, pernas, coxas, quadris, mas também pode atingir os braços e couro cabeludo.
É facilmente confundido com obesidade ou retenção de líquidos, por isso, muitas mulheres vivem anos sem o diagnóstico correto, quando na realidade sofrem de uma doença crónica do tecido adiposo, que é inflamatória, dolorosa e resistente à dieta e ao exercício físico.
Foi reconhecida pela Organização Mundial de Saúde apenas em 2018, o que justifica o facto de ainda existir pouca informação e conhecimento sobre a mesma. Para tirar todas as dúvidas, fomos ao encontro de um especialista.
– No caso das mulheres com lipedema, quais são os principais desafios — físicos e psicológicos — com que se deparam?
Jesús Olivas Menayo – O lipedema é uma condição frequentemente incompreendida e subdiagnosticada. Muitas mulheres vivem anos a ser confundidas com casos de excesso de peso ou obesidade quando na realidade sofrem de uma doença crónica do tecido adiposo, que é inflamatória, dolorosa e resistente à dieta e ao exercício físico. Fisicamente, o lipedema provoca dor, sensação de peso nas pernas, hematomas fáceis e uma desproporção corporal difícil de aceitar. Psicologicamente, o impacto é profundo: autoestima comprometida, frustração constante com tratamentos que não funcionam e até isolamento social. O desconhecimento da sociedade e, muitas vezes, da própria comunidade médica, acentua ainda mais esse sofrimento. Por isso, o primeiro passo é sempre o reconhecimento clínico adequado e uma abordagem integrativa e humanizada.
– Quais são os tratamentos mais eficazes e seguros atualmente disponíveis para o lipedema, que tende a aumentar com a idade se não for tratado?
– Sabemos hoje que o lipedema é uma condição progressiva — se não for tratado, tende a agravar-se com a idade, provocando mais dor, rigidez, perda de mobilidade e frustração estética. Por isso, o tratamento precoce e personalizado é essencial. No campo dos tratamentos, a técnica mais avançada é a SAFEST Liposuction (acrónimo para Surgical Aspiration For Excess Subcutaneous Tissue), que representa uma evolução da clássica lipoaspiração WAL (Water Assisted Liposuction). Esta nova abordagem é muito mais precisa na remoção seletiva das células adiposas lipedematosas, com menor trauma para os tecidos adjacentes, e uma recuperação consideravelmente mais rápida. O diferencial da SAFEST é a incorporação da tecnologia Quantum RF – um sistema de radiofrequência que promove a retração imediata da pele após a extração de gordura, reduzindo significativamente o risco de flacidez, que é uma preocupação comum nas pacientes com lipedema. Paralelamente, continuamos a recomendar uma abordagem médica personalizada. Isto inclui modulação nutricional anti-inflamatória, terapias físicas (como drenagem linfática especializada) e suplementação intravenosa com antioxidantes, NAD+ e polinucleótidos, que ajudam a reduzir o stress oxidativo e a melhorar a resposta celular nos tecidos comprometidos.
– Que papel pode ter a cirurgia não invasiva no tratamento do lipedema e como se relaciona com o bem-estar a longo prazo?
– A cirurgia não invasiva, ou minimamente invasiva, tem um papel crescente no tratamento do lipedema, sobretudo quando falamos de tecnologias como a radiofrequência bipolar fracionada, que permite atuar seletivamente sobre o tecido adiposo afetado, melhorando a firmeza da pele, reduzindo volume e aliviando sintomas com mínima agressão. Em casos mais avançados, a lipoaspiração especializada para lipedema com a técnica SAFEST Lipo continua a ser o procedimento cirúrgico de eleição, mas hoje ela pode ser guiada por ecografia intraoperatória, garantindo mais precisão e segurança. A realidade aumentada e a ecografia intraoperatória, por sua vez, já começa a ser integrada no planeamento de casos complexos, otimizando resultados e reduzindo riscos. Estes avanços não tratam apenas o aspeto estético, eles restauram mobilidade, aliviam a dor e recuperam a autoestima, promovendo um verdadeiro impacto positivo na saúde mental, nas relações sociais e na qualidade de vida a longo prazo.
– Existem riscos ou contraindicações que devem ser levados em conta antes de optar por este tipo de procedimentos?
– Sim, como em qualquer procedimento médico, é fundamental realizar uma avaliação multidisciplinar antes de qualquer intervenção. No caso do lipedema, há que considerar o estado linfático e vascular da paciente, o grau da doença, condições hormonais associadas e histórico inflamatório. Mesmo os procedimentos menos invasivos – como a radiofrequência ou terapias regenerativas – devem ser conduzidos por profissionais experientes, com conhecimento específico da condição. A utilização indiscriminada de técnicas estéticas convencionais pode agravar a inflamação ou comprometer os resultados, especialmente se não forem adaptadas à fisiopatologia do lipedema. Além disso, mulheres com lipedema podem ter maior sensibilidade a certos fármacos ou alterações na cicatrização, pelo que todos os protocolos devem ser ajustados individualmente. A boa notícia é que, com os novos testes epigenéticos, hormonais e de metabolismo celular, conseguimos prever e reduzir esses riscos, oferecendo tratamentos cada vez mais personalizados, seguros e eficazes.
No âmbito do Dia Mundial do Lipedema, o Instituto Português do Lipedema está a organizar rastreios gratuitos, em Lisboa, para que mais mulheres possam receber o diagnóstico correto.
Os rastreios acontecem nos dias 11 e 25 de junho, são personalizados e gratuitos, mediante inscrição, e incluem observação, scan corporal e ecografia à base de IA, feitos pelos especialistas do instituto.
Saiba o que é o Lipedema e como pode ser tratado