
Com uma vida dividida entre Portugal e o Brasil, onde nasceu, Joana de Verona é uma cidadã do mundo. Aos 35 anos, a atriz e realizadora luso-brasileira tem participado em diversos projetos que atravessam as duas culturas que formam a sua identidade. Entre filmes, teatro, séries, novelas e a sua constante ponte aérea entre Rio de Janeiro e Lisboa, Joana revela ser uma mulher independente, corajosa e determinada, qualidades que também marcam a sua personagem em Mania de Você, a novela das 21h00 da TV Globo, onde interpreta Filipa, uma fisioterapeuta forte e decidida.Atualmente no Brasil, Joana partilhou com a CARAS algumas das memórias da sua infância naquele país, falou dos desafios de ser luso-brasileira, da conexão com o seu público e dos bastidores do seu trabalho artístico, que mistura a paixão pelo teatro, pela dança e pelo cinema.
– Tem uma relação muito forte com o Brasil, especialmente com o Rio de Janeiro, onde passou parte da adolescência. Como tem sido gravar aí?
Joana de Verona – O Rio sempre foi um lugar especial para mim. Vivi aqui na adolescência e, mesmo tendo trabalhado em muitos lugares, o Rio continua a ser um cenário familiar. Desde 2013, tenho filmado em diversos estados brasileiros e, cada vez que vivo e trabalho aqui, sinto-me em casa, de alguma forma. Além disso, a minha família brasileira é carioca, por isso, mesmo quando não estou a filmar, muitas vezes estou no Rio ou noutras cidades do Brasil, a visitar a família, a viajar, a passear. Muitas das vezes em festivais de cinema para apresentar filmes. Venho para cá com muita frequência. Portanto, sinto-me bem justamente por isso, por ser uma prática comum e por ter vínculos à cidade, não só profissionais, mas também pessoais.
– Nasceu no Maranhão e cresceu entre o Brasil e Portugal. Como descreve a sua relação com esses dois países? Sente que há algo de único em ser luso-brasileira? De que forma estas duas culturas influenciam a sua vida e o seu trabalho?
– Sou fruto de duas culturas distintas que me influenciaram como pessoa e como artista. Vou “beber” muitas coisas à cultura brasileira na minha personalidade, na forma como encaro a vida, como lido com as pessoas, e também tenho muitas coisas da cultura portuguesa. Sou fruto dessas duas cidadanias, dessas duas culturas, e ambas me marcam por razões diferentes.
– Integra o elenco de Mania de Você, onde dá vida a Filipa, uma personagem muito independente e determinada. Há alguma característica dela com a qual se identifique mais?
– A Filipa é uma mulher muito forte, que corre atrás dos seus objetivos com determinação e coragem. Identifico-me muito com essa força dela, essa vontade de realizar. No início da novela, ela é muito luminosa, que ajuda as pessoas, mas, com o tempo, essa determinação transforma-se em obsessão. Entendo a motivação dela, embora a leve a tomar decisões erradas. É interessante ver como ela se vai redimindo ao longo da novela. A determinação da Filipa é uma característica com a qual me identifico, mas é claro que ela vai muito além disso, evoluindo ao longo do enredo. Tem uma complexidade emocional que gosto de explorar. Ela também tem uma grande vulnerabilidade, que é algo com que me identifico profundamente. A perfeição de uma mulher forte é muitas vezes cercada por inseguranças internas, e é essa dualidade que me interessa e me atrai.

– E como foi o desafio de interpretar uma personagem com sotaque português, mas entendida pelo público brasileiro?
– Foi um desafio interessante. Mantive o sotaque português, com a minha preocupação de o tornar acessível ao público brasileiro. Fiz, por isso, uma mistura de algumas gírias portuguesas e brasileiras, de forma a ser compreendido em todo o Brasil. Foi um trabalho de detalhe, e divertido também. O público tem sido bastante recetivo, o que me deixou muito feliz.
– Estudou teatro e dança quando era mais nova. Como é que essas duas formas de arte ajudaram a moldar a sua carreira e influenciam a forma como encara o trabalho como atriz?
– Moldaram em tudo. Comecei no teatro e na dança com 8 anos. O teatro trouxe-me uma incessante vontade de pesquisar, de estudar, de repetir, de entender, de aprofundar. O teatro traz essa endurance atlética da repetição e do improviso, de todas as noites o espetáculo ser diferente. É a minha escola, a minha base, a minha estrutura. A dança trouxe-me também muita alegria. É uma das minhas maiores paixões. Trouxe-me o contacto com o corpo, uma lógica para tudo. Preciso estar sempre ligada a esse lugar do teatro e da dança, da performatividade, do improviso. É mesmo muito importante para manter ativos o corpo, a imaginação e a criatividade de um ator.
– O público brasileiro tem sido muito caloroso consigo. Como lida com esse carinho?
– As pessoas acompanham a novela, gostam da personagem e abordam-me na rua sempre de forma muito calorosa. Tenho recebido muito carinho, e essa recetividade deixa-me muito feliz. O que caracteriza o público brasileiro é esse calor na receção, é essa coisa efusiva de ligarem muito à novela, de prestarem muita atenção às personagens, de seguirem a história da novela, de se envolverem muito.
– Foi musa no Baile Alto Rio, no Carnaval. Como foi essa experiência e o que significou para si? Além disso, o Carnaval é uma verdadeira paixão brasileira, tem alguma memória especial dessa época?
– Foi muito divertido, a banda era ótima, tocaram maracatu, musicalidade do Nordeste, que é o meu estado (nasci em São Luiz do Maranhão). Os músicos, os percussionistas deram um show muito bom, foi ótimo. O Carnaval para mim é importante não só quando estou no Brasil, mas quando estou em Portugal também. É um momento de celebração, de música, muita energia, de corpos políticos na rua e isso interessa-me muito. Tenho muitas histórias que envolvem o Carnaval, mas destaco a primeira vez que desfilei na avenida, na Sapucaí, com 12 anos, pela Tradição, uma escola de samba que já não existe, e participei do desfile de Carnaval com a minha mãe, em 2002. Foi intenso, nunca me hei de esquecer. A minha mãe queria muito ir, eu também, então fomos juntas, e essa é uma memória muito afetuosa, alegre.

– E para o futuro, o que podemos esperar?
– No futuro, vou repor o espetáculo de teatro A Noite do Choro Pequeno, que fiz com a Maria D’Aires, com o qual vamos fazer uma digressão. Além disso, estou com alguns projetos futuros, mas ainda não posso falar muito. O que sei é que quero continuar a trabalhar com bons profissionais, fazer cinema, teatro, e também dirigir os meus próprios projetos autorais. A minha intenção é continuar a explorar essa ponte entre Portugal e o Brasil, que tem sido uma parte fundamental do meu percurso profissional. Tenho alguns projetos em mente, mas estou muito focada nas produções em que já estou envolvida. O importante para mim é continuar a crescer como artista e continuar a explorar essas duas culturas que fazem parte de mim.
– O que mais a motiva a continuar no mundo artístico?
– A arte, para mim, é a capacidade de transitar por diferentes mundos e construir outras realidades. É a capacidade de abstração, o poder da criação como força motora. A minha profissão permite-me viajar, estar em contacto com outras culturas e tocar as pessoas. A cultura educa, tem um poder transformador, porque é muito poderoso.
Maquilhagem e cabelos: Walter Lobato
“Styling”: @ovni_saopaulo