Durante muitos anos, Domingos Freitas do Amaral (58) habituou-se a viver rodeado pela velocidade da informação, pelos bastidores do poder e pela intensidade da atualidade. Jornalista, comentador, professor e romancista, construiu um percurso sempre próximo da análise política e do comportamento humano. Hoje, admite atravessar uma fase bastante diferente.
Em entrevista à Caras Portugal, o escritor falou sobre envelhecimento, polémicas, poder, memória e sobre a forma como o tempo alterou a sua relação com o mundo que o rodeia.
“Era muito mais polémico quando era mais novo. Entrava constantemente em despiques intelectuais”, admite. “Hoje deixei-me muito disso. Acho que ganhei algum juízo.”
Hoje, mais afastado do confronto político e mediático que marcou grande parte da sua vida, Domingos Amaral parece cada vez mais interessado em observar o comportamento humano do que em participar diretamente no ruído da atualidade. O escritor admite viver uma fase mais tranquila, marcada por um maior distanciamento da velocidade constante da informação e da necessidade de confronto público. “Ganhei mais tempo para mim e deixei de viver ao sabor das ondas do mundo”, afirma.
Embora continue ligado ao ensino e tenha passado décadas no jornalismo, o autor deixa claro existir apenas uma identidade profissional na qual verdadeiramente se reconhece. “Aquilo de que eu gosto verdadeiramente é de ser romancista.”
E talvez seja precisamente na literatura que encontre hoje uma liberdade mais difícil de alcançar noutras áreas. Segundo explica, a ficção permite explorar emoções, contradições e pensamentos humanos de forma mais ampla. “A ficção dá sempre mais liberdade ao escritor, porque permite inventar personagens que dizem aquilo que o escritor não diz.”

Um olhar desencantado sobre o poder
Ao longo da entrevista, Domingos Amaral mostra continuar profundamente atento às relações entre poder, imagem e comportamento humano — um interesse que, segundo o próprio, começou muito cedo. “Tenho a certeza de que fiquei mais capaz de analisar os comportamentos humanos e os poderosos por ter vivido num ambiente político desde muito novo.”
Essa proximidade com figuras influentes parece também ter moldado a forma como observa hoje as estruturas de poder. Numa das respostas mais contundentes da entrevista, o escritor resume aquilo que considera ser uma constante histórica. “O poder preocupa-se sempre primeiro consigo próprio e só depois com os cidadãos.”
Ainda assim, evita cair numa visão totalmente pessimista. Para Domingos Amaral, existem líderes capazes de alinhar interesses pessoais e coletivos, embora reconheça que o medo continua frequentemente a ser utilizado como instrumento político e social. “O medo transforma completamente uma sociedade”, afirma.
A reflexão surge associada ao lançamento de As Filhas do Terramoto, novo romance ambientado numa Lisboa fragilizada após o terramoto de 1755. O escritor diz interessar-se sobretudo pela forma como as pessoas reagem emocionalmente em períodos de instabilidade, mais do que pela reconstrução histórica da tragédia. “Sempre que existe uma guerra, um cataclismo natural ou uma crise económica grave, os povos tornam-se mais agressivos, mais violentos, mais furiosos.”
Apesar do pano de fundo histórico do livro, as respostas de Domingos Amaral revelam um interesse muito maior pelo comportamento humano do que apenas pela reconstituição do passado.
‘As melhores histórias do mundo estão lá atrás’
Curiosamente, numa altura em que o mundo parece cada vez mais acelerado e obcecado com o futuro, Domingos Amaral admite sentir-se muito mais interessado pelo passado. “Não penso muito no futuro. Acho que é uma perda de tempo”, afirma.
Segundo o escritor, os anos trouxeram-lhe também uma relação mais pragmática com expectativas e projeções pessoais. “Já aprendi que 99% das minhas fantasias não se concretizam.” Talvez por isso prefira hoje olhar para trás.
“Gosto mais do passado. É lá que estão as melhores histórias do mundo.” A frase ajuda a explicar não apenas o fascínio pelos romances históricos, mas também o momento mais contemplativo que atravessa atualmente. Menos interessado em polémicas e mais atento às fragilidades humanas, Domingos Amaral parece viver uma fase marcada pela observação, pela memória e por uma relação mais tranquila com o próprio tempo.
E, mesmo quando fala de tragédias históricas, política ou medo coletivo, acaba quase sempre por regressar ao mesmo tema: as pessoas.
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