Num tempo em que quase tudo parece concebido para exibição, uma mudança silenciosa começa a impor-se. Em Lisboa e no Porto, essa transformação já se torna evidente: o luxo afasta-se da ostentação e aproxima-se de uma estética mais contida, onde a subtileza substitui o excesso. O chamado quiet luxury afirma-se, assim, como o novo código.
Durante anos, o luxo construiu-se na visibilidade, com logótipos evidentes, peças imediatamente reconhecíveis, um consumo assumido como afirmação pública. Hoje, esse modelo perde força. Em seu lugar, surge uma abordagem mais discreta, centrada na qualidade dos materiais, no rigor do corte e numa estética que evita sinais explícitos de riqueza.
O fenómeno, amplamente identificado como quiet luxury, traduz uma alteração de comportamento: o estatuto deixa de residir no que se exibe e passa a afirmar-se no que se reconhece. Trata-se de um consumo mais silencioso, em que o valor assenta na durabilidade, na intenção e na construção das peças, e não na sua capacidade de atrair atenção.
Esta leitura encontra eco entre especialistas da indústria da moda, que sublinham uma crescente valorização da autenticidade e da intemporalidade, em detrimento da ostentação. Num contexto marcado pela exposição constante nas redes sociais, a opção pela discrição surge quase como um gesto de diferenciação.
Entre afirmação e crítica, o luxo silencioso divide opiniões
Se há quem interprete esta estética como um regresso à essência do luxo, há também quem a encare com reservas. Em entrevista à revista Esquire, no mês passado, o designer Jonathan Anderson (41), actual director criativo da Christian Dior, classificou o quiet luxury como “um conceito sufocante”, chegando a compará-lo a “monóxido de carbono”, numa crítica à possível uniformização estética que a tendência poderá induzir.
Por outro lado, criadores contemporâneos têm contribuído para consolidar esta linguagem. A designer Phoebe Philo (52), que regressou recentemente ao mercado com uma marca própria, tem sido apontada por publicações como a Vogue e o The New York Times como uma das principais responsáveis pela afirmação desta estética. O seu trabalho privilegia linhas depuradas, a ausência de logótipos e uma sofisticação que se revela mais no detalhe do que na evidência.
Entre contenção e reconhecimento, o luxo mantém-se, mas já não precisa de se afirmar de forma ostensiva.
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