A vida de Elisabeth da Áustria (1837-1898), eternizada na história como Sissi, foi um autêntico turbilhão de conflitos pessoais, desafios dinásticos e uma busca incessante pela liberdade. Casada com Franz Joseph (1830-1916), imperador da Áustria, a jovem bvara colidiu rapidamente com as regras rígidas da corte de Viena e com a figura dominante da sua sogra, a arquiduquesa Sophie (1805-1872). Isolada e incompreendida, Sissi transformou a sua existência numa fuga constante através da literatura, da poesia e das viagens.
Esta trajetória fascinante serve de base à série A Imperatriz, um dos grandes sucessos da Netflix que já conta com duas temporadas. Contudo, longe do ecrã, a realidade da monarca foi muito mais complexa, dolorosa e pontuada por hábitos que hoje chocariam o mundo.
O noivado inesperado e o choque com Viena
Nascida em 1837 na Baviera (atualmente o maior estado da Alemanha), Sissi era a quarta de dez filhos do duque Maximiliano José (1808-1888) e da princesa Ludovika ou Luísa Guilhermina (1808-1892). Em 1853, a família viajou até Bad Ischl, o retiro de verão da realeza austríaca, com o objetivo de selar o noivado da sua irmã mais velha, Helena (1834-1890), com o jovem imperador Franz Joseph. Contudo, o destino trocou as voltas aos planos familiares: o monarca apaixonou-se perdidamente pela timidez de Sissi, que tinha apenas 15 anos.
Após uma dispensa papal — uma vez que eram primos direitos —, o casamento celebrou-se a 24 de abril de 1854. A transição da liberdade da Baviera para a etiqueta sufocante de Viena foi um choque brutal. Com o marido inteiramente absorvido pelos assuntos de Estado e rodeada por damas de companhia muito mais velhas, Sissi afundou-se na solidão.
A guerra com a sogra e o luto devastador
A relação com a sogra, a implacável arquiduquesa Sophie, escalou rapidamente para um conflito aberto. Quando Sissi deu à luz a primeira filha, a sogra assumiu o controlo da recém-nascida, alegando que a imperatriz era demasiado jovem para a educar. Na segunda gravidez, de Gisela (1856-1932), Sissi tentou rebelar-se e mudou a bebé para os seus aposentos, mas a vitória foi efémera.
Na primavera de 1857, durante uma viagem à Hungria, a filha mais velha, Sophie (1855-1857), com apenas dois anos, morreu de disenteria. Destruída pela culpa e pelo desgosto, Sissi entrou numa depressão profunda, abdicando de cuidar dos outros filhos e entregando-os à sogra. Nem mesmo o nascimento do herdeiro do trono, Rodolfo (1858-1889), conseguiu aliviar a tristeza que a consumia.

Obsessão pela beleza: Cintura de 40 cm e carne espremida
Como escape à dor e à falta de controlo sobre a sua própria vida, Sissi desenvolveu uma obsessão extrema com a imagem. Dedicava três horas diárias a pentear o cabelo e uma hora inteira a apertar a cintura, que media uns impressionantes 50 centímetros — reduzidos para uns inacreditáveis 40 centímetros através de espartilhos especiais.
De acordo com historiadores como María Pilar Queralt del Hierro (72) e Paulo Rezzutti (54), a imperatriz exibia sintomas do que hoje seriam considerados distúrbios alimentares graves. Fazia dietas restritivas e exercício físico violento, incluindo levantamento de pesos e caminhadas exaustivas. Para combater a anemia aguda provocada pela falta de proteínas, sem ter de comer refeições normais, ordenava que espremessem carne de vaca num aparelho especial para beber apenas o sumo resultante. Já na luta contra as rugas, Sissi chegava a dormir com fatias de vitela crua no rosto.
O refúgio na ilha da Madeira e o papel de heroína
Acometida por crises de ansiedade e problemas de saúde física, Sissi seguiu o conselho médico e refugiou-se na ilha da Madeira, em Portugal. Ali, numa vila isolada com vista para o Oceano Atlântico, encontrou temporariamente a paz através da leitura e do contacto com a natureza. A estada em solo português foi a primeira de muitas viagens pela Europa.
Mais tarde, Sissi assumiu um papel político crucial ao apaixonar-se pela cultura húngara. O seu apoio aos nacionalistas húngaros e a sua influência direta junto do marido foram fundamentais para a assinatura do compromisso de 1867, que transformou o império na monarquia dual da Áustria-Hungria, tornando-se uma verdadeira heroína para o povo magiar.
O mistério de Mayerling e o fim trágico
A cartada final na saúde mental da imperatriz ocorreu em 1889, com o “Incidente de Mayerling”. O seu filho, o príncipe herdeiro Rodolfo, e a sua amante de 17 anos, Marie Vetsera (1871-1889), foram encontrados mortos num aparente pacto de suicídio. O escândalo abalou a Europa e deixou Sissi num estado de luto perpétuo, passando a vestir-se apenas de preto.
A 10 de setembro de 1898, em Genebra, o destino cobrou o seu preço mais alto. Enquanto caminhava junto ao lago para apanhar uma embarcação, a imperatriz, então com 60 anos, foi abalroada por Luigi Luccheni (1873-1910), um anarquista italiano. Sem perceber imediatamente a gravidade do ataque, Sissi ainda tentou seguir viagem, mas acabou por desmaiar e morrer nessa mesma noite. Tinha sido esfaqueada no peito com uma lima afiada.
O assassino confessou mais tarde que o seu único objetivo era matar qualquer membro da realeza, independentemente de quem fosse. Embora Sissi tivesse manifestado o desejo de ser enterrada nas margens do Mar Mediterrâneo, a sua última vontade foi ignorada pelo imperador: o seu corpo repousa até hoje na Cripta dos Capuchinhos, em Viena.
