Há histórias da realeza que parecem saídas da ficção. A de Alexandre I da Grécia é uma delas. Em outubro de 1920, o jovem monarca, então com apenas 27 anos, sofreu ferimentos depois de tentar separar uma luta entre o seu cão de estimação e um grupo de macacos nos jardins da residência real de Tatoi, nos arredores de Atenas. O episódio, aparentemente banal, acabaria por ter consequências devastadoras.
Na sequência do ataque, Alexandre sofreu várias mordidas. Embora os ferimentos não tenham sido considerados alarmantes num primeiro momento, os dias seguintes revelaram um cenário bem mais preocupante. A infeção espalhou-se pelo organismo e evoluiu para septicemia, uma condição grave que, numa época em que os antibióticos ainda não existiam, deixou os médicos praticamente sem opções.
Durante semanas, o rei lutou pela vida. Chegou a ser discutida a possibilidade de amputar a perna afetada, mas a decisão nunca avançou. O seu estado agravou-se progressivamente até à morte, a 25 de outubro de 1920. O episódio chocou a Europa não apenas pelo caráter insólito da tragédia, mas também porque Alexandre vivia um dos momentos mais felizes da sua vida pessoal.

Um amor que desafiou a Coroa
Ao contrário de muitos membros da realeza da sua época, Alexandre apaixonou-se por uma mulher sem origem real. O casamento com Aspasia Manos provocou polémica na corte grega e foi recebido com resistência por vários setores da monarquia.
Ainda assim, o casal manteve-se unido. Quando o rei morreu, Aspasia estava grávida. A filha de ambos, Alexandra da Grécia, nasceu meses depois da tragédia e nunca chegou a conhecer o pai.
A história de amor entre Alexandre e Aspasia continua a ser recordada como uma das mais marcantes da monarquia grega, marcada pela discrição, pela resistência às convenções e por um desfecho profundamente emotivo.
A tragédia que mudou a História
O impacto da morte do jovem rei foi muito além do drama familiar. Alexandre ocupava o trono numa fase particularmente delicada para a Grécia, em pleno contexto das tensões que se seguiram à Primeira Guerra Mundial.
A sua morte abriu caminho ao regresso do pai, o rei Constantino I, ao poder, provocando uma mudança significativa no cenário político do país. Diversos historiadores defendem que os acontecimentos desencadeados por essa sucessão contribuíram para decisões que acabariam por conduzir a uma das maiores crises da história moderna da Grécia.
A dimensão das consequências foi tal que Winston Churchill viria mais tarde a afirmar que a mordida daquele macaco teve repercussões muito para além da vida do jovem soberano.
Mais de cem anos depois, o caso continua a fascinar historiadores e admiradores da realeza. Não somente pela forma inesperada como tudo aconteceu, mas porque recorda como um acontecimento aparentemente insignificante pode alterar destinos individuais e até o rumo de uma nação inteira.
Entre o dever, o amor e uma tragédia improvável, Alexandre I permanece como uma das figuras mais singulares da história das monarquias europeias.