Em setembro,
Paulo Sousa Costa viveu uma das piores tragédias pessoais que pode acontecer a alguém: perdeu o filho,
Paulinho, de 7 anos, com uma leucemia fulminante. A partir desse momento, a sua vida, e a da sua companheira,
Carla Matadinho, mudaram radicalmente. A viver
"ao segundo" Paulo arranjou forças para voltar ao trabalho, partilhando a produção executiva da peça
Os 39 Degraus com
Pedro Costa. A propósito da apresentação deste espetáculo no Algarve, o produtor e a manequim e apresentadora deram a sua primeira entrevista em conjunto sobre esta fase das suas vidas, em que a esperança de voltarem a sorrir e a energia do regresso ao trabalho dão um novo alento aos dias.
– Voltar ao trabalho é uma ajuda ou é um escape?
Paulo Sousa Costa – Poucas coisas podem ajudar e não adianta encontrar grandes escapes… É uma ocupação em termos mentais, e isso, sim, ajuda bastante. E há dias em que ajuda mais e outros em que nada ajuda. Estou a ter a oportunidade de fazer algo de que gosto muito e de ter comigo a Carla, porque é a relações-públicas do projeto. E é uma forma de manter a minha cabeça ocupada com o meu lado criativo, que continua cá. Ideias não me faltam, tenha eu energia para pôr as coisas a andar.

– A peça tem tido bastante sucesso. Como é que tem vivido as boas emoções da vida?
– Sempre fui uma pessoa de emoções fortes, porque temos de experimentar a vida, mas agora tudo assumiu um papel muito relativo e palavras como ‘alegria’ ou ‘prazer’ têm um significado muito inferior ao que tinham há uns meses.
– Como é que descreve estes cinco meses da vossa vida?
– Claramente, os piores meses da minha vida, mas sei que também tive os melhores sete anos da minha vida até àquele dia. Tudo isto é um processo e sei que tenho sido uma inspiração para algumas pessoas. Nunca foi essa a minha intenção, mas, já que assim é, isso passou a ser uma missão. E neste momento se calhar vivo um bocadinho para isso, para dar força às pessoas, a quem também devo muito, porque tenho recebido imensas mensagens de apoio que me obrigam a não desistir.
– Que mensagem tenta passar-lhes?
– Não quero passar a mensagem de que sou o ‘coitadinho’, nunca entrei no processo de ter pena de mim, e sei que tenho de olhar para a frente, mas não olho para o futuro. Aconteceu-me a pior desgraça que, dizem, pode acontecer a alguém, mas não quero que olhem para mim com pena. Sou uma pessoa que tem um problema grave para resolver… Também não quero passar a mensagem de que está tudo bem, porque não está. Está tudo muito mal, mas consciente de que tenho de viver o próximo segundo, porque se desistir, estarei a desistir do Paulinho.
– Desistir seria agarrar-se apenas à dor?
– Há muitas formas de desistir. Há um desistir mais trágico, em que a pessoa se suicida, que é um pensamento normal nessas situações, mas também é deixar de ter projetos, ficar no quarto agarrado aos comprimidos. E a minha opção é tentar fazer projetos dentro da disponibilidade mental, e às vezes também física, que tenho, mas sempre a piscar o olho ao Paulinho.

– Quando se ouve de um médico que não há nada a fazer por um filho, a que é que um pai se pode agarrar?
– Cada caso é um caso e não me sinto especialista numa coisa destas. No meu caso, pedi à Carla para nunca me deixar sozinho. É um choque muito grande… E percebi que os meus amigos nunca me deixaram sozinho. E mal daqueles que passam por isto e não permitem aos amigos entrarem neste processo. Sem o carinho e o amor de quem nos rodeia é complicado… Nunca podemos viver isto sozinhos.
– Perdeu a capacidade de fazer planos?
– Não faz sentido. O meu ‘olhar para a frente’ é viver o segundo que vem a seguir. Agora, não faz sentido falar mais disto, porque há um ciclo que ainda nem se completou, que é o do primeiro ano sem ele, o primeiro Natal, a primeira Páscoa, as primeiras férias… Só depois disso é que podemos dizer que já passámos por um ciclo. Estava muito expectante como seria o primeiro Natal sem ele… E já passei, já sei como é…
– Como é que foi para a Carla adaptar-se a esta nova forma de estar na vida do Paulo, que, de alguma maneira, perdeu a capacidade de desejar e de sonhar?
Carla Matadinho – Eu não me adaptei… É uma realidade que não aceito, mas vou vivendo com ela. Depois de uma tragédia desta dimensão, não se consegue planear as coisas como antes. Como o Paulo disse, a alegria de viver ficou para trás, mas agarro-me ao nosso passado, que se refletirá no futuro. Tudo a seu tempo. Há um processo de luto, que está a ser feito. Tenho sempre as minhas esperanças de que as coisas vão mudar, porque isso também me dá força para caminhar para a frente.
– É uma situação também muito difícil para si…
– É extremamente complicado. Só quem passa por isto é que percebe, porque quem está de fora não imagina nem calcula como é conviver com uma situação destas. Perdi dois Paulinhos. De forma diferente, mas perdi. Desde o início que a minha principal preocupação é minimizar a dor do Paulo, mas nada do que possamos fazer altera o que se sente ou a realidade. A dor está sempre presente, mas tentamos fazer sempre alguma coisa para ajudar a pessoa que amamos e que está ao nosso lado. Acredito que aos poucos vai havendo mais luz no túnel escuro que é esta vida.

– Depois da morte do seu filho, o Paulo ganhou outra expressão. Acha que nunca mais vai voltar a ser o homem que o Paulinho conheceu?
Paulo – É tudo muito cedo… Hei de renascer, mas estou longe disso. Sei que um dia vou renascer. Agora, o que vai ser o novo ‘eu’, não sei. Só espero que seja tão bom ou melhor do que o ‘eu’ que ficou nesta história. Mas sei que é muito fácil renascer uma pessoa mais ácida, dura e revoltada.
– Depois de uma perda como a sua há algum pudor em desejar ser novamente feliz?
– Claro que sim. Há o sentido de culpa normal, às vezes até de rir. Mas é um processo. É óbvio que há alturas em que sorrio, mas não vem de dentro. E há pessoas, algumas que não conheço de lado nenhum, que me perguntam quando é que vou começar a sorrir. Não foi só o sorriso dele que desapareceu, o meu também. Mas tudo tem um
timing. A Carla tem sido o pilar de tudo isto. Porventura, ela será a única pessoa que sabe verdadeiramente por aquilo que estou a passar. Os outros não têm ideia, nem a mãe do Paulinho, com quem falo todos os dias desde aquele dia, e até isso é uma coisa fantástica. Eu sou o Paulinho que lhe resta e ela é o Paulinho que me resta e por isso temos algo para o resto da vida.
Carla – Teremos uma felicidade diferente, se é que podemos chamar felicidade. Será diferente, algo que se descobre no dia-a-dia.

– Nesta situação, há muitas pessoas que optam por ter logo outro filho. Isso é uma opção que considerem?
Paulo – Neste momento, a opção é não desistir. Pensar o futuro é complicado. O Paulinho já pedia um irmão e tudo o que vier a acontecer não será pela tragédia que aconteceu. Vamos fazer tudo aquilo que estaria no nosso imaginário, mas há momentos para tudo. Sei que há casais que fazem isso como forma de substituição, mas ninguém é substituível, sobretudo aquele ‘crominho’. Seria um erro pensar que uma criança que viesse substituiria o Paulinho.
Carla – Se vier a acontecer, será sempre o mano do Paulinho. Ele estará sempre presente, mas existe de uma outra forma.
Paulo – Mas ele pensava que um irmão já viria com seis anos…
*Este texto foi escrito nos termos do novo acordo ortográfico.