
Cristina Mesquita de Oliveira, fundadora e presidente da VIDAs – Associação Portuguesa de Menopausa e da Comunidade de Saúde em Menopausa Movimento Menopausa Divertida e autora da única obra em livro sobre menopausa, Descomplicar a Menopausa, alerta para o facto de faltarem “políticas públicas, formação médica e consciência social sobre a menopausa. E isso é inaceitável quando estamos a falar de quase 3 milhões de pessoas em Portugal”. Cristina defende a necessidade de uma abordagem integrada, que inclua terapêutica hormonal, mudanças no estilo de vida e, acima de tudo, educação sobre o tema: “O exercício físico é fundamental. Não só melhora a qualidade de vida como previne complicações associadas à menopausa, como problemas articulares e perda de massa muscular.” Para a especialista, a menopausa não é o fim de nada, mas, sim, o início de uma nova fase, onde informação e preparação são a base para viver melhor.
– Foi o seu caso pessoal que a despertou para esta realidade?
Cristina Mesquita de Oliveira – Fiz uma carreira na indústria farmacêutica de 34 anos e, a determinada altura, dei conta de que havia algumas coisas que não estavam a correr bem, tanto do ponto de vista pessoal como profissional, sem conseguir identificar o que é que se passava. E isto é o que se passa com as pessoas em geral. Não nos sentimos com a mesma funcionalidade e pensamos em tudo, menos que pode ser uma coisa hormonal.
– Toda a gente? Homens também?
– A menopausa acontece no corpo das mulheres, mas afeta toda a família. Se aquela mulher começa a ter distúrbios, alteração do humor repentina ou do padrão do sono, e não sabe porquê, claro que os filhos, os companheiros ou companheiras também vão sentir isso. Portanto, a menopausa é a vida a acontecer. Só que é uma parte da vida que ainda está por abrir, porque é o último dos tabus relacionado com a condição feminina.
– Somos preparadas para o início da atividade sexual, para o aparecimento da primeira menstruação, mas ninguém nos informa que, a determinada altura da nossa vida, que ninguém sabe exatamente quando é, entramos na menopausa.
– A idade média em que a menopausa acontece é aos 51 anos, que não se resume a afrontamentos. Os calores súbitos, diurnos e noturnos, normalmente levam à alteração do padrão do sono e também do humor. Mas antes de a síndrome vasomotora se começar a manifestar, há outros sintomas que se revelam antes.

– Os sintomas da menopausa estão todos identificados?
– Estão. No estudo que fiz para escrever o livro identifiquei 144. Um dos primeiros a ser referido nas consultas médicas é a alteração do padrão menstrual. Também há a questão das perdas de urina.
– Ou falhas de memória.
– Sim, e cansaço muito marcado, alteração da tensão arterial. A gravidez passa a ser de risco quando as mulheres começam, sem se aperceberem, a entrar na menopausa. Quando as alterações hormonais se somatizam é quando passam a dar sintomas. Por isso é que a gravidez passa a ser seguida com um protocolo muito mais rigoroso a partir daí.
– Falamos nas questões relacionadas com as mulheres, mas os homens também padecem com isto?
– Numa família comum, que será homem, mulher e filhos, as mulheres não sabem o que está a passar consigo e os homens também não sabem o que se está a passar com elas. Muitas vezes, os desentendimentos que levam à separação do casal começam precisamente por causa dos sintomas relacionados com a menopausa. É muito comum ouvirmos queixas como: “Ela não quer fazer amor comigo”; ou “tenho de ir dormir para o sofá”; “ela está sempre com dores de cabeça” ou ainda “ela tem outro homem”…
– Para além das alterações a nível emocional, enfrentamos alterações físicas…
– Sim. Tudo acontece no nosso corpo. A partir dos 45 anos passamos a ter uma maior probabilidade de ter um tipo de gordura visceral que não tem a ver com o aporte calórico.
– O que podemos fazer?
– Em vez de dançar zumba ou fazer caminhadas e hidroginástica, deve ganhar-se massa muscular, fazendo agachamentos, levantando pesos…
– E para quem já chega à menopausa em má forma, há solução?
– Sim. Os especialistas em menopausa que estiveram no Congresso Mundial de Menopausa, que se realizou o ano passado, em Lisboa, não tinham dúvidas: o exercício físico salva-nos. Se juntarmos a terapêutica hormonal da menopausa ao exercício físico… É por isso que faço exercício, para chegar aos 80 anos sem depender de ninguém, ser autossuficiente. A menopausa não é fim de nada. No meu caso, a menopausa transformou-me para melhor.

– Qual é o papel da terapêutica hormonal de substituição?
– A terapêutica hormonal da menopausa (THM), que é como se chama. São hormonas específicas: estrogénio, progesterona e testosterona. A THM é considerada o melhor tratamento para gerir os sintomas de menopausa, só que está envolta em muito receio, quer da parte dos médicos quer da parte das pessoas.
– Por temerem estar relacionada com o cancro da mama?
– Os centros de saúde oferecem-nos contracetivos orais de todas as formas e feitios, mas ninguém pensa que estes têm uma carga hormonal muito superior àquele que tem a terapêutica hormonal da menopausa. Ou seja, andamos 20 anos a tomar uma pílula convencional que confere um risco muito superior para virmos a desenvolver cancro da mama do que fazer 20 anos a terapêutica hormonal da menopausa. Outro exemplo, uma mulher que esteja acima do peso e que fuma tem maior risco de desenvolver cancro da mama do que uma mulher que esteja a fazer terapêutica hormonal. Hoje em dia, conhecem-se tão bem os efeitos e as indicações para a terapêutica hormonal que não faz sentido este medo. Mas temos uma classe médica pouco preparada.
– Estamos a falar dos médicos do Serviço Nacional de Saúde, e não em endocrinologistas especialistas em antiaging…
– Em relação a antiaging, a Associação Portuguesa de Menopausa tem uma posição muito clara em relação a qualquer opção de uma mulher para gerir a sua menopausa. É apoiar, seja qual for. Desde que essa decisão seja informada.
– Seja tomada em consciência?
– Temos como obrigação para podermos manter esta posição que é de apoiar todas as mulheres, seja qual for a sua decisão, informá-las sobre aquilo que é o estado da arte ou da ciência em relação às opções que existem. E há alertas suficientes da parte das entidades competentes científicas para questões para práticas que são exercidas ao arrepio da regulamentação médica ou científica exercidas por profissionais de saúde não reconhecidos pelos pares. Atenção, isto é muito importante: não reconhecidos nem pelos pares nem pelas ordens científicas e que atentam verdadeiramente à vida e à saúde das mulheres. E há uma posição de três sociedades médicas que é pública. É a Sociedade Portuguesa de Doenças de Metabolismo, a Sociedade Portuguesa de Endocrinologia e outra, que dizem taxativamente isto. Medicina antiaging, integrativa e outros nomes como hormonas bioidênticas, como modulação hormonal são termos comerciais que não têm base científica e onde estas práticas já estão implementadas há mais tempo aumentou o cancro da mama, o cancro do endométrio e o cancro do útero. Sei que isto não é muito agradável de ouvir, mas é a nossa obrigação alertar para isto. Tudo bem se a mulher souber que isto pode acontecer e for a decisão dela, nós apoiamos.
– No Parlamento, o SNS, o que é que estão neste momento a fazer?
– Neste momento tomou-se consciência de que a partir de 2018 houve um decreto-lei da responsabilidade das entidades que regulam, isto é, melhor dizer assim, tomou-se consciência que até 2018 não havia a matéria de menopausa nos currículos académicos de medicina. E passou a figurar. Portanto, a partir de 2018, qualquer médico que faça o exame de acesso às especialidade tem de contar que vai sair matéria de menopausa. Só este ano é que vão sair para o mercado de trabalho médicos que tiveram de olhar para a menopausa com olhos diferentes, de quem está interessado no assunto. Até aqui, ou já havia na família um ginecologista ou uma apetência específica para ginecologia, e aí, se calhar, havia uma sensibilidade diferente, ou, caso contrário, médicos de família e ginecologistas, alguns podem saber alguma coisa de menopausa, mas a maioria não sabe nada.
– Portanto, a mulher, a partir do momento em que deixava de menstruar, entrava na velhice?
– Pelo SNS, a menopausa é inexistente. Não há políticas de saúde para menopausa. Estou a falar de quase 3 milhões de pessoas a passar por esta fase. Isto é uma negligência grosseira, reiterada e consentida. Não faz sentido, porque para cada desconforto de menopausa há uma solução.