
Quando o pai comprou a Granado, uma marca de perfumaria e cosmética fundada há 155 por portugueses e a preferida de D. Pedro II, Sissi Freeman tinha 14 anos e recorda-se de passar a haver uma profusão de cheiros e cremes diferentes por toda a casa.
Aquele que poderia ser apenas um investimento acabou por se tornar um caso de família, quando a atual diretora de Marketing se juntou à marca.
Sissi, de 44 anos, é a responsável pela renovação da empresa, criação de novos produtos e expansão da marca que conta com 100 lojas no Brasil, três em Londres, três em Paris, uma em Nova Iorque, outra em Lisboa e espaços em Espanha e na Bélgica.
A viver no Rio de Janeiro, filha de pai inglês e mãe brasileira, e casada com o empresário Bernardo Barros, é também mãe de três meninas, Helena, de 10 anos, Luiza, de 9, e Laura, de 3, a quem passa a sua paixão por este mundo de cores e cheiros.
Em Lisboa, a propósito do lançamento do novo perfume, a empresária conversou com a CARAS sobre o seu percurso e tudo o que a apaixona.
– É uma alegria chegar a um novo perfume?
Sissi Freeman – Criar é a parte favorita do meu trabalho, porque acredito que todo o conceito sai do produto. Tem de encantar. Às vezes, o ponto de partida é um ingrediente, outras é uma história que quero contar. No caso de Citrus Brasilis, a nossa nova aposta, foi o ingrediente. Há muito tempo que queríamos uma fragrância cítrica por causa da importância que a laranja tem no Brasil e ficámos encantados logo com a primeira mistura. Normalmente, levamos um ano para lançar um produto, mas neste foram seis ou sete meses.
– Sente maior responsabilidade por ser herdeira de uma empresa com esta dimensão?
– Não me vejo como herdeira, mas sinto a responsabilidade de contar esta história que passou por três gerações até ao meu pai a adquirir e que une a tradição portuguesa com a cultura brasileira. Quero que continue por mais 200 ou 300 anos. É esta a minha missão, mas nada me foi dado de bandeja. Sempre tive a noção de que preciso de provar mais para mostrar que não estou ali porque sou filha do dono da empresa. Não deixei de ter um empurrão, mas é preciso trabalhar bem para ter a posição que tenho.

– Missão na qual tem tido sucesso, pois é vista como a mulher que modernizou a marca.
– Apesar de ser uma marca centenária, bem posicionada, não pode ficar parada ou antiquada. É preciso renovar. A minha preocupação tem sido unir tradição e modernidade, quis trazer cores vivas, formas contemporâneas, que deem um refresh sem perder autenticidade e aquele toque vintage. Queremos cada vez mais levar a cultura do Brasil ao mundo através da nossa empresa.
– Quando era mais nova já pensava construir uma carreira na empresa familiar?
– Nunca pensei nisso. O meu pai vinha do mercado financeiro e, quando comprou a empresa, não sei se imaginou que, 30 anos depois, ainda estaria aqui. Eu tinha 14 anos. Tenho boas lembranças de visitar a fábrica e a loja, no centro do Rio de Janeiro. Mas, inicialmente, ele não via a Granado como uma empresa familiar, mas, sim, como um investimento. Dez anos depois, chamou-me para trabalhar num projeto – estava a viver em Nova Iorque – e foi quando me apaixonei. Somos os dois muito complementares, ele na área financeira e eu na parte criativa e comercial. Foi uma combinação que deu certo.
– Estudou nos Estados Unidos e viveu lá durante vários anos.
– Estudei Ciências Políticas e Economia em Washington, na Universidade de Georgetown, e quando acabei o curso mudei-me para Nova Iorque, onde trabalhei em bancos de investimento e marcas de cosméticos, até que o meu pai me pediu para trabalhar com ele num projeto que duraria seis meses e já lá vão duas décadas. Na altura, não pensava que iria voltar para o Rio tão cedo, mas o mundo da cosmética sempre me fascinou e fiquei.
– Durante este caminho, nunca pensou que devia ter ficado em Nova Iorque?
– Não. Logicamente que trabalhar em família não é fácil e, no início, existem atritos, porque é uma adaptação, mas sou realmente muito apaixonada pelo meu trabalho.
– A vida no Rio é melhor?
– É, adoro. Nasci nos Estados Unidos, mas cresci no Rio. É uma cidade única, que une o verde das montanhas com o azul do mar. É quente o ano todo e isso dá-nos leveza. Não há como não nos sentirmos bem quando vamos para o trabalho a ver o mar. As minhas filhas são cariocas, o meu marido também. Elas estudam na escola em que estudei, há uma ideia de continuidade que é boa. Temos um estilo de vida leve, como qualquer carioca. É o deixa a vida me levar como a música diz.

– Tem uma vida profissional muito ocupada, viaja bastante. Tem sido fácil conjugar a carreira com a maternidade?
– É verdade que viajo muito, mas gosto de as envolver sempre naquilo que faço. Já foram a Londres e Paris ajudar a montar as lojas, quando há eventos, levo-as e peço a opinião delas quando se trata de produtos para os jovens. A mais velha até já tem uma linha de perfumes. Elas sabem que adoro o que faço, então não veem o trabalho da mãe como uma coisa ruim. Tenho também um marido muito alinhado comigo. Sem ele, seria bem mais difícil.
– Gosta de ser mãe de três raparigas?
– Gosto muito. A Luiza, por exemplo, gosta de usar os meus sapatos em casa, de mexer na minha maquilhagem. É muito engraçado. O mundo é cada vez mais das mulheres. Claro que gostaria que, um dia, as minhas filhas quisessem continuar esta história da Granado e vejo as mais velhas com curiosidade, o que me deixa muito feliz. Quem sabe.
– O facto de ser uma mulher na liderança foi um obstáculo?
– Nunca foi um problema. A Granado é uma empresa muito feminina. É verdade que quando saímos da nossa bolha, e apesar de as pessoas associarem cosméticos às mulheres, vemos uma liderança muito masculina, mas não é o nosso caso.
– Tem pai inglês e mãe brasileira. É a fusão perfeita de duas culturas distintas?
– Sim, sou um pouquinho de tudo e até de Portugal, e é tão bom.