
Quase que como num regresso ao passado que também é futuro, Diogo Clemente prepara-se para subir ao palco sozinho com Amo-te e Outras Coisas pra Te Dizer, um projeto que começou com um livro que reúne 130 poemas e passou depois a um álbum de originais cantado por si.
O cantor, que começou a sua carreira aos 14 anos, depois de ter ganho o concurso Grande Noite do Fado e que, ainda menor, já tocava e produzia ao lado de Carlos do Carmo e Hélder Moutinho, a que se juntou Mariza, Raquel Tavares, Carminho, com quem foi casado, Sara Correia, entre muitos outros, volta assim à sua “casa” nos seus 39 anos, que lhe trouxeram serenidade, sonhos renovados e um grande amor, vivido ao lado da cantautora Maria Vegas.
A música tempera a sua vida, é o princípio e o fim, mas o centro mudou desde que foi pai de Santiago, de 8 anos, Benjamim, de 7, e Guilherme, de 6, da sua relação terminada com Carolina Deslandes. Os três são o melhor de si e espera que cresçam sem amarras e sejam espíritos livres como também ele é.
– Depois de ter construído uma carreira como compositor, produtor e músico, o que o levou a lançar um álbum só seu?
Diogo Clemente – Sempre cantei. Foi a primeira coisa que fiz. Depois, comecei a tocar na adolescência, a escrever, compor e produzir e fi-lo desde cedo para cantores que me fascinavam. Tive muita sorte, fui abençoado desde o princípio. E, apesar de ter ganho a Grande Noite do Fado aos 14 anos, cantar passou para um outro lugar, quase como uma necessidade interior de me remeter ao meu lugar perante cantores tão bons. Com 16, tocava com o Carlos do Carmo, com a Raquel Tavares, o Hélder Moutinho, todos os mais velhos do fado, cantores de mão-cheia pelos quais era apaixonado. Nunca senti necessidade de cantar. Sempre me satisfiz a ter outras pessoas a cantar o que escrevo e componho. Só que tudo o que escrevi foi sempre muito mais do que foi gravado.
– Amo-te e Outras Coisas pra Te Dizer vem na sequência do que ficou guardado na gaveta?
– Sim. A primeira ideia foi o livro, que tem cerca de 130 poemas que reuni. Mas quando estava a prepará-lo, aparecia uma canção e outra que no seu momento não quis lançar por pudor, pelo momento de vida, porque era demasiado pessoal, outra de que gostava muito, mas não dei a ninguém e, quando somei tudo, percebi que tinha uma dívida para com estas canções. De raiz, sou fadista e cantar é uma necessidade fisiológica. Mesmo que não sendo para fora, sempre cantei como quem vai à missa rezar, portanto, foi especial fazê-lo. É um conceito que teve o livro, o álbum e acredito que vai ter mais coisas. Tenho mais ideias. E há os concertos, naturalmente.
– É diferente subir ao palco sozinho, pois costuma fazê-lo acompanhado?
– Estar a cantar no palco sozinho é diferente, mas facilmente me sinto em casa. As pessoas vão para me ver e quero recebê-las bem, como se as recebesse em minha casa. Vou falar-lhes da minha vida ao cantar, vou estar inteiro ali. Só não posso servir um copo, porque não dá jeito, senão servia. Então, subir ao palco é só prazeroso, um momento íntimo.
– Mesmo que cante e toque outros géneros, o fado está sempre presente?
– Ser fadista é o mesmo que dizer que tenho braços e pernas. O fado não é uma música que se aprende, é cultura com que se cresce, que molda a forma de ver, falar, sentir, decidir e pontuar os momentos. Produzo imensos géneros de música e gosto, mas tenho consciência, e quem trabalha comigo também sabe, que o que faço vai ter sempre um tempero que é o fado. Por outro lado, e depois de ter dado volta ao mundo e de ter estado nas melhores salas de espetáculos com casas cheias para ver os grandes artistas que temos, fico com a certeza de que a linguagem do fado é detentora do mundo. O fado tempera tudo como o sal do mar.

– No seu caso, o fado chegou muito cedo à sua vida
– O meu pai era fadista e eu já ouvia fado na barriga da minha mãe. Seria impensável para mim não ouvir ou ver fado, estar no fado. A maior gratidão que posso ter na vida é ter nascido e crescido em Lisboa. Morei em Camarate, mas vivi o tempo todo em Alfama e no Bairro Alto. Com 14 anos, entrei no Conservatório e comecei a cantar no Faia e agradeço aos meus pais terem tido o discernimento, a ousadia e o atrevimento, que eu não sei se teria com os meus filhos, de me deixarem ir sem nunca duvidarem da minha responsabilidade. Aos 16, viajava pelo mundo a fazer direções musicais.
– Ainda gosta de trabalhar pela noite fora?
– Tento não o fazer, porque tenho três filhos. A partir do momento em que os tive, essa realidade teve de mudar, no entanto, há determinados momentos em que preciso de me entregar absolutamente e não há nenhum disco que tenha fechado sem este momento de isolamento e entrega total. Cada álbum leva muito de mim, da minha energia e intenção. Nesses momentos, despeço-me de toda a gente e não há hora, o corpo vai para a que quer e fica. É uma viagem, um transe do qual depois tenho de sair e voltar à vida quotidiana, jogar à bola com os meus filhos e divertirmo-nos muito. Quando morrer, foi o que criei que vai ficar.
– Nunca foi, portanto, o típico adolescente.
– Não, nunca tive sequer amigos da minha idade. Sempre foram mais velhos, mas fui muito abençoado, porque sempre fiz o que mais gostava. A fase mais visceral de qualquer ser humano é a adolescência e juventude, aquela intensidade entre os 20 e os 25 é irrecuperável, a força de viver coisas e de sofrer é brutal. É tudo muito e eu vivi intensamente, tive oportunidade de viajar pelo mundo inteiro e fiquei cheio de histórias para contar. Os meus filhos divertem-se a abrir o mapa e a perguntar-me onde já estive. Pedem que lhes conte histórias dos locais. Isto é um privilégio muito grande. Vivi intensamente, mesmo que não tenha sido sempre feliz. É por isso que tenho um livro com 130 poemas.
– Se um dos seus filhos o puser na posição em que os seus pais ficaram quando começou a cantar, o que lhe dirá?
– Confesso que adorava que um fosse médico e os outros arquiteto e advogado, mas acho que não vai acontecer. Escolham um caminho semelhante ao meu ou outro, vou estar sempre a dar-lhes força e toda a proteção. Será uma decisão deles. Apesar de serem pequeninos, dou-lhes autonomia e gosto que possam arriscar, mesmo que corra mal. Acima de tudo, gostava que os meus filhos vivessem muito, não se travassem, nem seguissem estereótipos. Também gostava que não tivessem Instagram, que não olhassem para um telefone, mas, sim, para o mar, que fizessem amor com o corpo, coração e alma, sem padrões. Que tivessem muita alegria, que chorassem muito e se apaixonassem perdidamente. Ter uma vida sem intenção, o que acontece tanto hoje em dia, não tem nada de interessante.
– É um pai que os deixa fazer as suas próprias descobertas sem demasiada proteção?
– Sim. É importante que saibam arriscar, mesmo que possam bater com a cabeça. Sou um pai conselheiro e eles não podiam ser mais diferentes entre eles, cada um segue o seu caminho. O Benjamim é o mais parecido comigo, o Santiago é magia dentro de um corpo, extremamente especial, e o Guilherme é o mais dramático, para ele é tudo intenso. Dão muito trabalho, mas são maravilhosos. E eu vou dar-lhes sempre conselhos, procurando que façam as melhores opções com autonomia e espírito crítico. Tenho medo que os meus filhos sejam como determinadas crianças que ficam apáticas na capacidade de decisão.

– Revê-se neles?
– Completamente, mas numa realidade muito diferente. Cresci no Bairro da Torre, em Camarate, o maior bairro de lata de Portugal. Havia uma “fatia” com casas e o resto eram barracas, mas tive uma infância que nunca vou conseguir dar aos meus filhos, de um patamar de liberdade que eles nunca terão. Era um bairro onde não se trancavam portas. Todas as crianças eram netos e filhos de toda a gente. Havia bullying social, só dois táxis entravam lá, mas vivia-se bem. Era o bairro dos meus avós, os meus pais viviam no centro de Camarate, e era ali que passava os dias. Hoje é muito mediático falar de racismo, mas este não vem da nossa raiz. A divisão que sempre foi unânime na nossa sociedade é o estrato social, a capacidade financeira. Essa é a verdadeira exclusão. Onde cresci, não tínhamos raça. Nunca foi assunto.
– Como é que o Santiago, o Benjamim e o Guilherme crescem?
– Apesar de tudo, os meus filhos crescem no campo, em Alcochete, onde apanhamos limões e eles têm espaço para correr, galinhas, cães e podem fazer cabanas. Eu cresci ao lado das dificuldades, eles não e ainda bem. Faço o que posso, o que acho que é certo e também não quero que vejam coisas que vi. Não faz falta nenhuma. Fui salvo pela música e pelos meus pais. A música resgatou-me e pôs-me beleza pelos olhos dentro. Fez-me apaixonado pelas coisas bonitas e apaziguou-me a raiva que sentia pelo que estava atrás.
– Este seu projeto fala de amor. É a maior fonte de inspiração seja com deslumbramento ou com dor?
– Como diz Javier Limón, até que inventem um motivo melhor vamos fazer canções de amor. As grandes canções do mundo são de amor. Foi o amor que conduziu todas as coisas na minha vida. Faz-me confusão quando alguém fala de amor à distância. Tenho amor e uma adoração ao sagrado feminino. Acho que a mulher é o ponto mais alto que a natureza fez, porque é fonte de vida. O homem é básico ao pé da mulher. Mas chorar perante uma pintura também é amor, tal como sentar a ver o mar. O que sinto dentro de mim é amor e ninguém deve travar a expressão desse sentimento. As pessoas têm tanto medo de sofrer que se anulam.
– Foram precisos vários amores vividos e sofridos para chegar ao que tem hoje?
– Estou a chegar aos 40 e tenho a relação amorosa que quero ter, apaixonei-me desenfreadamente. Mas é um amor maduro. Ela é uma artista, formada em Belas-Artes, uma pessoa profunda, não sabe fazer nada que não seja belo. Tem sempre estética e isso é muito especial para mim. É um vulcão, que um dia rebenta e no outro torna-se mar chão. E é essa a beleza, porque também sou assim. Explodimos e amamo-nos intensamente. É uma relação carnal e poética ao mesmo tempo. Sou muito viciado nela.
– Está quase nos 40 anos. Daqui para a frente, o que quer da vida?
– Sobretudo, ser feliz todos os dias. Os meus sonhos enquanto músico já foram, em grande parte, realizados, então é arranjar novos e renovar os velhos. Descobri este ano que tenho TDAH [transtorno do défice de atenção e hiperatividade]. Desde aí, sou acompanhado e a minha vida ficou muito melhor. Já não tenho o motor sempre a 3 mil rotações, consigo foco, bem-estar, tranquilidade e dormir. Coisas importantes para me manter vivo. A minha entrada nos 40 vai ser feita em serenidade.